Eu vivia numa noite sem igual.
Então chegaste, meu rosto adorado.
De tal noite fizeste um dia amorável.
Cantaste melodias e, sempre amiga, disseste as
                    [palavras de que eu andava sequioso.
E aquelas palavras, que nunca esqueci,
Estavam impregnadas de um remoto sopro, tão
                                                          [ sagrado,
Que aquela noite funesta dissipou como fumaça.

             Firdusi
                  939-1020 d.C.

Sorte, outro dia.

Aulas, descompasso de agendas, gente atrasada, gente adiantada, eu atrasada, você espera um segundinho eu ir buscar uma água?, caneta preta, papel bege, saudade gi-gan-tes-ca de você, um você que jamais existiu, gente legal sendo babaca, gente babaca sendo insuportável, gente legal sendo legal, aluno pop-star sendo uma fofula, conflitos, lateral da cama arrumada (o mundo deve permanecer ignorante sobre o quão incrivelmente bagunceira sou), reposição de aula porque fiquei quase que a quarta-feira toda sem internet, a premente necessidade de arrumar alunos novos, caso contrário esse bote inflável vai fazer água mais rápido do que se imagina. Um enorme cansaço que me engole todas as noites, me vomita todas as manhãs. Teve o choro nojento da Joiça, teve eu xingando o Camarote, teve Lula enfim Livre, teve o tom bege-quase-azeitona da sua pele no que resta do meu cérebro, sua imensa covardia, sua total falta de caráter e minha imensa necessidade de que você fosse o que eu planejei que você fosse porque, oras, sim. Imensamente aliviada por não ser obrigada a ir, em dezembro, onde você está, me despedi do último aluno do dia, me arrastei até a cozinha, jantei restos, uma garrafa inteirinha dum rosé maravilhoso e um filme do Alan Alda. Não chega nem perto do que há de melhor, mas é o que temos. Quando temos sorte.