Mas não hoje

O mundo-lá-fora, aquele lugar tão esquisito. Tem pessoas lá, e elas fazem coisas. Jamais entenderei.

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“Você se sente feliz por estar viva, não é?”. As pessoas falam assim na vida real. Bão, algumas. Só olho prelas, cara meio abobada, e aceno vagamente com a cabeça. Nem sei por onde começar, amiga.

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Tem cachorro-quente no mundo lá fora. Ponto pro mundo lá fora. Não consegui comer, virei uma dessas velhinhas ridículas que ficam enjoadas com qualquer coisinha, mas foi muito bom ver outras pessoa pedindo para colocar mais purê aí, tio e comendo seus lanches.

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O mundo lá fora tem pessoas que pedem seus números: de casa, do documento e da carteirinha. Ah, e do telefone. E de não sei mais quê. E da guia. Sério? Reedito minha cara de tonta porque, gente. Não sei coisa alguma, amiga. E nem tou fazendo gênero, eu não sei mesmo.

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Por algumas horas sem chave, sem carteira, sem celular. Não nego que é das coisas mais agradáveis.

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Se eu tivesse dinheiro (é o que vivo dizendo), viveria numa cidade minúscula, minúscula e numa casa longe, longe. Mesmo que isso significasse que eu ia precisar ter um carro de novo. Andando por São Paulo, sempre relembro do motivo de meu desejo. Que horror, que horror. Sei que não é moderno e correto achar São Paulo um pavor, “a gente tem que amar a cidade da gente” e blablablááááá, mas Jesus, que horror. Alguém ganha logo na loteria e me salva, por favor.

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Minha unhas estão roídas até o impraticável. Todas têm sangue nos cantinhos e a ponta de cada um de meus dedos lateja loucamente. Lavar a cabeça de noite vai ser uma aventura no reino da dor. Um dia desses será hora de eu parar de me punir. Mas não hoje.

Então nós também não nos incomodamos

É possível que um dia eu ligue aí no seu telefone cantando baixinho eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema. Você, do seu lado da linha fique firme, nem pisque.

O seu nome, não sei, babe, mas seu maldito número? Não consigo esquecer.

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Loja de unicórnios é uma daquelas bobagens que você sabe muito bem como vai terminar. Você sabe, sim. O filme é cheio de clichês, first world problems, o mundo é injusto e não entende a minha arte e tal e tal. E apesar disso você assiste, ama, bate palmas porque acredita em fadas, torce pro Samuel L. Jackson mandar uma cartinha lá no emprego que você odeia e também torce pro Josh, do The west wing, ser seu amigo de canoagem (amigo, né, genza, que ele não poderia ser o pai de yours truly).

O filme é uma droga, o filme é lindo.

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– Mã, vou logo avisando que essa nova arrumação dos livros, os Eco vão todos juntos: crítica, ensaio, memórias e ficção.

– Você acha que o velho ia se importar?

– Claro que não.

– Então nós também não nos incomodamos.

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Limpar geladeira, essa arte perdida. Como é que uma pessoa que faz faxina há décadas pode ainda ser tão ruim nisso? Quero dizer, achei que a prática trouxesse, esqueça a perfeição, mas uma desenvoltura razoável na atividade. Mas não. Continuo péssima como no primeiro dia. Tropeço no balde, perco a garrafinha de Veja, espirro lustra-móveis no olho, bato com a cabeça na vassoura e caio no mesmo ponto do quintal, batendo o mesmo ponto da coluna na mesma quina do mesmo degrau. Sou meu próprio Buster Keaton, se ele fosse um imbecil.

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E digo mais: se houver um campeonato de manchar a blusa de cândida, me inscrevam, apostem na minha pessoa e vejam o dinheiro de vocês se multiplicando. É impressionante. Se houver uma gotícula de cândida flutuando no universo, ela vai achar a camisa minha.

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Em compensação a minha torta de cebola e queijo é de chorar de tão maravilhosa. Fiz duas, só porque sim.

Um Saturno definitivo

Bancos de imagens, a tinta na pele dos outros, ideias vagas,
velhas gravuras, rascunhos, “Fulano tem o braço fechado, pede a ele uma opinião”, antigas fixações. Roubei até um gatinho da Iara. E a conclusão é sempre a mesma, a única coisa que posso suportar em mim é você.

#domingo-caderninho

Tintureiro blues



W., quase tudo, sempre. Sherlock Holmes, livros de paleontologia de meu pai, você trabalhando em silêncio comigo no skype de microfone aberto, como se fosse na mesma sala, mas eu não tenho que pentear o cabelo. Ricota, salsinha, melão. Brigadeiro, jabuticaba, limão. Pilhas AAA, peça pro DVD, mil saquinhos de cravo. Chuva, não muita. Calor, muito. Dor no coração. Fones, lenços, um presente para o Tavo. Falta do que não existe, como escreveu a moça, aquela, sobre a eterna ausência que está lá. Célia, esmalte, um livro do Almeida Reis. Cigarros, brinquedos para o gatinho. Saudade de você. Doces no japonês. Caramelos. Recarregador do celular que some, que reaparece, que some, que some. Tradução de cenas que fariam corar um fiscal de saúde pública. Viúvas idosas e senis não deveriam sequer ler, que dirá traduzir tais coisas. Você cantou para mim no dia do meu aniversário e eu chorei em silêncio com a boca no telefone. Mouse vermelho quebrado, água tônica gelada, filme do Toranques dez mil vezes por dia. A promessa de um almoço dia 9, com abraços e suspiros. Tintureiro (quem me vê escrevendo procê, W., vai logo pensar que vivo em bailes, reparou que sempre te conto que tou, fui ou vou ao tintureiro?). Frases novas do velho Frost, porque sem ele não dá nem para começar, como me lembrou  V. Rugas nos cantos dos meus olhos, manchas senis, poros aberto, um inventário de fatalidades. Choro no travesseiro de quando em vez, de manhã finjo que não. Choro no ônibus, três dias atrás, uma senhora gorda (nós duas naquele banco era coisa de se ver), parecida com minha Dada, colocou a mão sobre a minha na Paulista e só tirou na Estação São Judas. Descemos, ela perguntou se eu ia direito para casa, e eu menti que sim. Ela fez um sinal da cruz na minha testa. Quando estranhos piedosos começam a encomendar sua alma numa calçada imunda da avenida Jabaquara é hora de deixar os negócios em ordem. Esperei que ela descesse a escada no metrô. Cirurgia na gata, banho no cachorro. Um tinteiro de cristal. Relógio. Falei da água tônica? Falei da dor no coração? Me dá pela milésima vez seu celular e me diz que posso ligar uma vez a cada morte de papa na hora do seu almoço (se é que vocês, os guerreiros da liberdade, almoçam).

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Nunca liguei. Nunca. Quer dizer, liguei sem querer, meio tropeçando, descendo a escada de soquinhos, carregando celular, três canecas e o restinho da minha dignidade, batendo nos móveis, tropeçando nas flores do tapete, protagonizando cenas de humor físico que fariam o velho e bom pai Freud reescrever uns três ou quatro livros. Mas nunca liguei de propósito. Gosto de dizer que era “medo de incomodar”, mas ambos sabemos, era medo da inevitável rejeição.

Nunca liguei, mas escrevi para você. Por anos.

Teve um tempo em que eu escrevia para você, como se isso fosse uma coisa que alguém como eu pudesse fazer. Hoje, a consciência da minha falta de noção naquela época me faz encolher os dedos dos pés. Eu não enxergava o ridículo, mesmo, nunca me dei conta.

Eu tinha um apelido pra você naquele tempo, devidamente roubado pelo ladrão de biografias, um apelido que deixei de usar no mesmo instante em que notei o latrocínio. Agora você é W., um codinome de espião da Segunda Guerra, não parece? .


Mudei a trilha sonora do blog, mudei seu nome na lista do gerenciador (o único ato de rebeldia que posso bancar no momento), mudei a eterna cor do esmalte e o lugar da cama do cãozinho. Chegou a hora de produzir ficção, diria um velho treinador de textos que tive há muito tempo. No meu caso, chegou a hora de produzir uma ficção que não envolva você e as coisas que escrevi para você.