Domingo-caderninho

Há aquelas anotações feitas na pressa, caneta de ponta grossa que, somadas à minha letra feia, em nada colaboram para o entendimento, sequências de palavras sem sentido, recados indecifráveis que falam de futuros (acho) obscuros (acho) e coisas dificílimas de resolver (acho). Há apontamentos que, olha, francamente. O povo sumério merece mais esforço de minha parte.

Contrate um escritor


Quando falo isso – e sempre falo isso – amigos reviram os olhinhos, dão fungadelas e têm fantasias sobre me atirar no poço do elevador. Eles sabem, porém, que tenho razão.
Você, você aí, que teve uma boa ideia, que tem uma bela plataforma, que espera fazer a diferença. Contrate um escritor.
Tem um punhadão de escritores aptos a ajudá-lo em seu projeto. Contrate um escritor. Deixe que nós, a partir das suas próprias palavras, ideias e convicções, escrevamos seus discursos, sua palestra, seu texto de apresentação, suas possíveis respostas para o debate. Deixe-nos ajudar (não fazer por você, antes que os afoitinhos de plantão venham me procurar com tochas acesas) na preparação dos originais do seu livro, da sua monografia, da sua tese. Não é vergonha alguma receber ajuda, é da vida, cada um de nós tem uma função. A nossa é escrever.
Por favor, por você, contrate um escritor.

Trabalhamos com nota fiscal, fazemos contrato, damos satisfação de como vai o trabalho, lemos e aproveitamos suas primeiras anotações, ajudamos com a pesquisa, tudo bonitinho. Dê o primeiro passo, peça ajuda, admita que não pode lidar sozinho com a vida, vem cá. Contrate um escritor.

Você, você aí, que teve uma boa ideia, que tem uma bela plataforma, que espera fazer a diferença. Contrate um escritor.

Tem um punhadão de escritores aptos a ajudá-lo em seu projeto. Contrate um escritor. Deixe que nós, a partir das suas próprias palavras, ideias e convicções, escrevamos seus discursos, sua palestra, seu texto de apresentação, suas possíveis respostas para o debate. Deixe-nos ajudar na preparação dos originais do seu livro, da sua monografia, da sua tese. Não é vergonha alguma receber ajuda, é da vida, cada um de nós tem uma função. A nossa é escrever.
Por favor, por você, contrate um escritor.

Trabalhamos com nota fiscal, fazemos contrato, damos satisfação de como vai o trabalho, lemos e aproveitamos suas notas, ajudamos com a pesquisa, tudo bonitinho. Dê o primeiro passo, peça ajuda, admita que não pode lidar sozinho com a vida, vem cá. Contrate um escritor.

Domingo-caderninho

Caderninhos cheios de memória (e fúria e som), da minha letra irregular, da chuva que o domingo promete, de vírgulas malucas, de parágrafos sem rumo, do seu apelido secreto que me tomaram, então inventei outro, mas agora não tenho coragem de usar, porque tudo mudou. Caderninhos que chegam ao fim e não acabam nunca, como tudo que sinto.

Minhas estantes possíveis

O afago às vezes não vem. Simples assim. É preciso que, em algum momento, você se pergunte se o outro é incapaz do gesto ou se você é incapaz de merecê-lo. Isso, porém, é assunto para depois. Agora você tem de lidar com ausência do afago. Com a não existência do gesto. Há que se trincar os dentes e cerrar os punhos. Tornar os passos ainda mais pesados. É preciso respirar fundo, se essa for uma possibilidade. É preciso continuar. Não, não virá. Sim, você vai sobreviver. Sim, é uma droga.

Muda e ausente #bdd

Eu me tranco no quarto e canto e canto. Ainda canto razoavelmente depois de todos esses anos.

Razoavelmente.

Queria cantar para você, mas não farei isso, fique tranquilo. Meu amor por você já é bem constrangedor para nós dois sem cantoria da minha parte.

Eu, muda e ausente, já sou constrangedora o suficiente para mim mesma.

#bdd

Uma palavra tão definitiva

Uma palavra tão definitiva
Perda.
É assim mesmo, né?
Definitiva.
Final.
Sem direito a qualquer recurso.
E está certo quem crê nisso.
A perda é sempre definitiva, ainda que pareça insignificante, ainda que um clips, um elástico de cabelo, um suspiro, uma ilusão petitica.

Perda. Perda.
Até o jeito que nós a dizemos é mortalmente sério.
Não admite discussão, não dá espaço para manobra.
Fala comigo: per-da.
Não há o que fazer.
Cabô.

Nas raras vezes em que o perdido é encontrado, volta mudado, volta outro, porque nós mudamos no processo de não mais tê-lo nas mãos, sob a vista, no lugar onde costumava ficar.
O clips foi encontrado, nós não somos os mesmos.
Cabô.

E passados os anos de pensamento mágico, conforme a realidade estilhaça nosso queixo vezes sem fim, aprendemos que:
Sim, toda perda é, a seu próprio modo, definitiva.
Não, não tem volta.
Sim, dói. Quase sempre, dói.
Não, nada ocupa o lugar do que foi perdido.
Quando muito, o novo cavuca um lugarzinho para si mesmo, um novo lugarzinho.

Aprendemos, também, que se pode perder de um tudo: reinos, rumo, cães felpudos, o amor da nossa vida, o cartão do banco, o RG (eu, três vezes), o novo amor da nossa vida, a hora, o papelzinho com o endereço, o medo, a coragem.

E, assustados, mais para perto do fim do que do começo, nós nos damos conta de que somos, ahá, perdíveis.
Nós.
Cada um de nós a seu tempo, ou todos no mesmo segundo (caso nos tome de assalto o apocalipse zumbi).

A perda, diz nossa tia-avó, com seu cabelo em variados tons de lilás, pince-nez na ponta do nariz e xale de tricô (a tia-avó de vocês, não sei, a minha tia-avó imaginária é assinzinha) nos levará a todos e nos perderemos uns dos outros.

Quando faço uma pausa no trabalho, eu me sento nos degraus da garagem tomando chá e fingindo que sei fumar meu mentolado.
Quase sempre é madrugada, quase sempre a rua está quieta e, olha, perda é a última coisa na qual quero pensar.
Fabrico uma velha tia-avó e seus ditados, sopro o chá, o cigarro se queima sozinho, choraminga a gatinha selvaginha, roncam o gatão pelancudo e a gatona tartaruga, saltita o gatinho maluquinho e penso no resto: as cidades pronde eu gostaria de ir, as tarefas de amanhã, se comprei limão, qual era mesmo o nome da música e, antes que eu me dê conta, penso em você.
Que está e não está. Essa perda tão profunda, tão definitiva, tão minha.
Minha tia-avó tem toda razão: nós nos perderemos uns dos outros de novo e novo e novo.

Tanta gente gravou essa canção. Pra citar alguns, The meters, Johnny Cash, D. Brown, Keith Urban, Cassandra Wilson, W. Hutch, Kool &The Gang, Smokey Robinson and the Miracles Ray Charles, Andy Williams King Harvest e até o Ray Conniff, pelamor. Bom. O que o Conniff não gravou?

Mas minha versão preferida é essa, para todo o sempre. Com o Campbell.

and I need you more than want you

and I want you for all time

Isso é triste e lindo. E não tem solução.

Um Coltrane da Flavia Penido, uma Maliu esotérica numa república morta

Achei um “menta-alecrim” bão de substituir o Bulgari de limão que não fabricam mais. Não que eu fosse ter grana prum Bulgari a essa altura da minha assustadora vida financeira, mas né.

Enfim, ganhei um vidro da minha educadíssima anfitriã e agradeci porque também sou algo educada, mas sem esperança em meu coração calejado pela dor e saudade de meu amado Bulgari Vert. Porém, contudo, todavia, eis que com garbo e elegância ranco a tampa e, voilà, é um cítrico muitíssimo digno. Eita Granado que não nos falha.

*

Aquele amigo que vai embora sem se despedir. Não somos (ou, pelo menos, eu não sou, malandragem) dignos da despedida, da atenção, do gesto, da delicadeza do “Meu bem, chegou a hora, adeus”.

“Já bebi, já comi, quiéquieu tou fazendo aqui?”, nos ensinava a declamar o nosso bárbaro pai ante o olhar horrorizado de nossa mãe, a grega.

Num determinado momento da noite, você olha em volta e quedê o amigo, o motivo – não raras vezes – de você estar ali naquela balbúrdia (olááááá, desgoverno brasileiro), cercada de gente que você gosta-mais-ou-menos (bem feito), de rímel, cinta, sutião MASP e, Deus que me perdoe, corretivo.

Sim, ele foi embora e inda te restam horas de socialização. Graçadeus que egípcios e mesopotâmicos e os caras espertos que vieram antes deles inventaram o álcool.

Me lembrei disso porque esse sábado tive a oportunidade de ver uma moça – que nao é minha amiga, só conhecida de olás – passar por isso. Dessa vez, eu era a balbúrdia, o povaréu, as gentes de quem ela não gosta, o pano de fundo que justificou que ela enfrentasse spandex, salto e sombra com glitter para se encontrar – com o coração aos pulos – com um lamentável e emasculado primata. Me vi de fora da cena e doeu para caráleo, torcida brasileira. Ele chegou, foi simpático com ela por bem uns douuuze segundos, se afastou, circulou por umas cinco rodinhas de parvos e zás, foi-se, desaparecido no éter. E eu, na encolha, covardemente testemunhei o e-x-a-t-o momento em que ela se deu conta de que ele tinha ido embora sem se despedir. Protagonizei a mesma patetice umas duas ou três vezes em bares d’outrora, quero acreditar que para nunca mais. Se ela reclamar com ele amanhã (cabe aqui um imenso “se”, além da nossa proverbial covardia, realmente cremos não ter esse direito), ele vai dizer que a. foi distração b. não queria incomodá-la, ela parecia tão feliz com os outros amigos c. ele teve uma semana infernal, blablablá, estilo “filha, você teve sorte de eu ter aparecido”.

Não confirmo e não nego que umas lagriminhas me assombraram quando vi a cena. Eu devia ter sido uma pessoa melhor, ido até ela e dito alguma coisa do tipo “Querida, é um covarde, parta para outra, ou, se você estiver na mesma situação que eu, para nenhuma”, mas já contei que sou uma covarde. Catei minha linda (linda, linda) bolsa, acenei pro meu amigo carona, um gesto sutil e doce e meigo e discreto que quer dizer mais ou menos “Vamos embora daqui, caralho” e, indo até ela, passei a mão em suas costas e disse: “Minha querida, preciso voltar para São Paulo, mas não podia ir sem me despedir” – porque posso não ser boa, mas não fui criada por lobos.

Identificação, sua danadinha.

*

A Flavia Penido ensinou a fazer download do Coltrane e agora preciso urgentemente que Leandro&Leonardo arrume meu celular preu entupir minha Barbie Fada com o som do velho. Não quero mais ouvir tracousa.

*

Alexandre adorava Djavan. Como é que pode, né gente? Um homem culto daqueles? Poeta maravilhoso, ouvido absoluto, cheio de delicadezas. E adorava Djavan, meu Deus do céu. De quando em vez, a Verô e eu paramos para nos lembrar disso, para nos abraçar e rir da cara dele. Djavan, puta que pariu.

*

O frio voltou. Sequer tenho palavras para agradecer pelo momento. Estou usando duas meias em cada pé, calça de lã e camisa de lenhador. Camisa xadrez, em mulheres da minha feiura, costuma ser um atentado estético, mas no inverno, podemos. No inverno e na casa vazia, evidentemente.

Bebo chá mate morno com leite, vestida como uma mendiga e feliz como uma… o que é feliz, ainda, neste mundo horrendo? Bem, seja lá o que for, neste frio sou feliz como essa coisa feliz que desconheço.

*

A república acabou. Minha mãe me perguntou quando cheguei se podemos chamar de ditadura ou se inda tem algum protocolo a ser seguido antes da liberação do termo. Ela enfrentou uma. Foi espancada e quase morreu.

Maliu reconhece cada sinal e tem cantado antecipadamente cada passo dessa gente escrota com semanas de antecedência. Chegada fosse a uma picaretagem, podia abrir um express do “Mãe Maliu: presente, passado e futuro” e ganhar uma grana com seus poderes premonitórios.

*

A casa tem dado de dez a zero em mim e não é de hoje. Impraticável chamar gente aqui pura e simplesmente porque não dou conta. De gente, da casa, de mim. Aprender a desamar aos cinquenta, senhores, é coisa que não recomendo. Sofremos mais do que adolescentes e não temos ninguém para preparar nosso jantar.

*

Tenho uma médica daquelas chegadas à sinceridade. Ela me aconselhou a fazer planos de oito meses no máximo. E eu adoro gente assim, que chega e “Pá!”. Ao menos quando dentro dum consultório.

*

Curto a segunda temporada de Trapped com moderação que é para fazer durar. No intervalo vi Case, excelente e que, ora, tinha escapado do meu radar.

Durante quatro semanas, a newsletter do Drops, Noticinhas do Drops, mandou para os assinantes esquemas enxutos de aula de redação para concursos e Enem. Foi uma nova experiência, num novo formato, dentro da news do Drops, que sempre foi mais literária e metida a diarinho.

Adoramos a disponibilidade de vocês, o acolhimento de escritores experientes como a Vera Guimarães, o olhar querido com que vocês se dispuseram a receber essa nossa invenção e as indicações muitas, que nos trouxeram um monte de novos assinantes.

Foi divertido e outras viagenzinhas virão.

A última newsletter dessa sequência era um presente e a querida Renata Lins, a leitora mais rápida do Velho Oeste, levou. 🙂

Obrigada a todo mundo pelo carinho.

Quarta-feira a newsletter do Drops alcança vocês de novo.

Quem quiser assinar, vem cá: https://tinyletter.com/DropsdaFal

Fal&Suzi

Querido diário Querida Dani

Querida minha: 20 de maio. O frio chegou, mas nem tão convicto. A alergia misteriosa vai e vem. Como o seu, meu corpo também está tentando se livrar de alguma coisa. Acho que é de mim. Continuo tristonha. Amiga tá meio estranha e eu, com a minha sensibilidade nula, não sei se ela está gentilmente me dizendo que nao quer mais ser minha miga. Odeio não entender sinais. Que bom que a discussão sobre Kafka foi boa, de verdade. Tou que nem você, sem paciência, sem coragem e, Deus por minha testemunha, sem condição nem de brigar. Sim, tou um cado mais ativa no grupo. Longe do ideal, mas é o que tenho dado conta. No tuinto também. Opa, pausa pra eu reclamar: todo dia o caminhão do reciclado passa tardão. Hoje que eu enrolei, ele tá passando nesse instante. Como meu joelho direito (que se chama Herodes) e eu não daremos conta de nos arrastar até o portão em tempo, reclamo aqui com você. Tá. Voltando. Pessoas, opiniões, gentes, você sabe. E apesar de ser um trator, eu não quero ser um trator. Quero ser uma pessoa doce e primaveril, quero sorrir, quero lançar gentilezas ao redor, quero ser querida. Mas como isso não passa de ilusão, refreio minha vontade de dar opinião sobre tudo. Menos no Drops, porque é para isso que ele existe e aqui, porque essa é a sua cruz, hahahaha. E sobre a endorfina: ela é uma danadinha 🙂 Falta muito para o Natal?

Horóscopo Drops do Dias das Mães

O filho de Áries é um incompreendido. Usa o pijama um dia do avesso outro do direito por uma questão de liberdade e menor esforço. Poupa energia para tarefas mais nobres, como videogames, por exemplo. É quase uma filosofia.

Filho de Virgem, quando a mãe chamar para almoçar, não vai na primeira chamada que é golpe. É para pôr a mesa.

O filho de Gêmeos é conectado com a natureza. Na necessidade de um despertador, ele compra um galo. E tendo a casa furtada, providencia um ganso. Glória do Greenpeace.

O filho de Aquário vira vegano de repente e daí liga pra mãe pra choramingar que tá com o freezer cheio de carneiro e leitão.

A filha de Câncer, depois de anos e anos de conselhos que diziam “não se case com ele, é roubada”, se casa, sim, com ele, entra na maior roubada e, depois de se separar, vira pra mãe e diz “POR QUE VOCÊ NÃO ME AVISOOOOOU?”.

O filho de Leão é acima de tudo, honesto. À meia noite de domingo liga do colégio interno a cobrar, claro, para a mãe, avisando: “Mãe, amanhã o diretor vai te ligar e, ó: fui eu.”

O filho de Capricórnio é narrador e crítico da direção da mãe.  “Por que essa pista?”, “Nossa, que devagar!”, “É assim que você usa o freio de mão?”. Cuidado, pois, se a mãe for de Peixes, periga você ser largado a dez quilômetros da escola numa manhã de inverno. Lei do retorno que chama.

O filho de Escorpião liga da faculdade a cobrar, claro, para a mãe e manda: “Mãe, a Marina tá grávida e arrumei um emprego de garçom pois a família dela quer que a gente case. E tranquei a matrícula. Mas fica feliz que são gêmeos!”. Enquanto o cérebro da mãe ainda processa as informações, o fedazunha grita: “Mentirrraaaa, mããeeee!! Tirei 1,5 em cálculo!!”.

O filho de Touro não liga no Natal, não liga no aniversário, não liga na Páscoa, não liga no Dia das Mães. Claro que o filho de Touro é o filhinho preferido.

O filho de Libra ao receber a polícia que foi acionada pelos vizinhos, às duas da manhã, temperatura dois graus, por som alto na festa da república, bate palmas devagar e berra pro oficial que entrou no carro e desligou o som: “Parabéns, sargento! O senhor sabia que não pode entrar num carro sem mandado?”.  A seguir, para a mãe, ligando da delegacia: “Meus direitos, você que me ensinou!”. Filho de Libra, na ditadura, não dura dez minutos.

A filha de Sagitário considera brigadeiro e Yakult doses únicas. Não peça uma mordida e um gole que ela não dá. Nem pra mãe.

O filho de Peixes tem amigos em todos os bairros da cidade e depois do treino promete carona para geral. No carro da mãe, com a mãe de motorista. Sem avisar, claro.

Domingo-caderninho

Gata na prateleira, aguinha de laranja, um olho na Ana, outro na Suzi, série de zumbi-engaçadinho rolando na tevê, trabalhando. Existem domingos melhores, eu sei, mas já tive domingos bem piores. Bem mesmo.

*

A paixão longa e sofrida é substituída por uma amizade sem graça e vã, do tipo em que o silêncio se faz não por excesso de intimidade, mas por total falta do que dizer. E qualquer comentário idiota, megalômano, babaca e descuidado faz você chorar até ficar sem respiração.

Não recomendo.

*

Chuva, finalmente. O Brócolis não via chuva há muito tempo. Espero que esfrie, espero que melhore, espero que exista. Espero existir.

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Saber que existem opções. Talvez você não possa elegê-las, talvez não queira tomá-las, talvez nem lhe sirvam. Mas estão lá as opções. Fui lembrada disso agora à tarde, em meio a um trabalho insano. Há opções.

*

Fui chama de “querida”, “amiga querida” e “querida amiga” na mesma semana. Evidentemente eu mereço.

*


Durante a semana, tirei do lugar uma prateleira e seus respectivos livros, que não saíam dali há onze anos e pouco. Tudo bem, um livro ou outro de quando em vez sai dali e depois volta, mas não todos, não ao mesmo tempo. Um pó cinzento e espesso se gruda aos muitos panos molhados que foram necessários para limpá-la. Dez anos de poeira e poluição. O dia que essa prateleira foi posta no lugar, dois ou três dias antes de eu me mudar para cá, foi o dia em que arrumei ali meus livros. Minha vida tinha mudado enormemente e eu arrumei ali livros, um ao lado do outro, como se estivesse tudo tranquilo e eu soubesse exatamente o que fazia. A vida muda de novo agora e inda não sei o que estou fazendo.

*

“Caso você se esqueça, olhe pela janela”, acaba de dizer minha amiga mais sábia.

“O pequeno mundo blogueiro em debate
O Grande Mapa Dahmer da Blogosfera Brasileira foi especialmente desenhado para alimentar brigas por coisas pequenas”. Daqui.

No mapa original tinha os linques. Ainda tem, né, mas a maioria (ou todos?), dá em lugar algum.



Mas não hoje

O mundo-lá-fora, aquele lugar tão esquisito. Tem pessoas lá, e elas fazem coisas. Jamais entenderei.

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“Você se sente feliz por estar viva, não é?”. As pessoas falam assim na vida real. Bão, algumas. Só olho prelas, cara meio abobada, e aceno vagamente com a cabeça. Nem sei por onde começar, amiga.

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Tem cachorro-quente no mundo lá fora. Ponto pro mundo lá fora. Não consegui comer, virei uma dessas velhinhas ridículas que ficam enjoadas com qualquer coisinha, mas foi muito bom ver outras pessoa pedindo para colocar mais purê aí, tio e comendo seus lanches.

*

O mundo lá fora tem pessoas que pedem seus números: de casa, do documento e da carteirinha. Ah, e do telefone. E de não sei mais quê. E da guia. Sério? Reedito minha cara de tonta porque, gente. Não sei coisa alguma, amiga. E nem tou fazendo gênero, eu não sei mesmo.

*

Por algumas horas sem chave, sem carteira, sem celular. Não nego que é das coisas mais agradáveis.

*

Se eu tivesse dinheiro (é o que vivo dizendo), viveria numa cidade minúscula, minúscula e numa casa longe, longe. Mesmo que isso significasse que eu ia precisar ter um carro de novo. Andando por São Paulo, sempre relembro do motivo de meu desejo. Que horror, que horror. Sei que não é moderno e correto achar São Paulo um pavor, “a gente tem que amar a cidade da gente” e blablablááááá, mas Jesus, que horror. Alguém ganha logo na loteria e me salva, por favor.

*

Minha unhas estão roídas até o impraticável. Todas têm sangue nos cantinhos e a ponta de cada um de meus dedos lateja loucamente. Lavar a cabeça de noite vai ser uma aventura no reino da dor. Um dia desses será hora de eu parar de me punir. Mas não hoje.

Então nós também não nos incomodamos

É possível que um dia eu ligue aí no seu telefone cantando baixinho eu nunca sonhei com você, nunca fui ao cinema. Você, do seu lado da linha fique firme, nem pisque.

O seu nome, não sei, babe, mas seu maldito número? Não consigo esquecer.

*

Loja de unicórnios é uma daquelas bobagens que você sabe muito bem como vai terminar. Você sabe, sim. O filme é cheio de clichês, first world problems, o mundo é injusto e não entende a minha arte e tal e tal. E apesar disso você assiste, ama, bate palmas porque acredita em fadas, torce pro Samuel L. Jackson mandar uma cartinha lá no emprego que você odeia e também torce pro Josh, do The west wing, ser seu amigo de canoagem (amigo, né, genza, que ele não poderia ser o pai de yours truly).

O filme é uma droga, o filme é lindo.

*

– Mã, vou logo avisando que essa nova arrumação dos livros, os Eco vão todos juntos: crítica, ensaio, memórias e ficção.

– Você acha que o velho ia se importar?

– Claro que não.

– Então nós também não nos incomodamos.

*

Limpar geladeira, essa arte perdida. Como é que uma pessoa que faz faxina há décadas pode ainda ser tão ruim nisso? Quero dizer, achei que a prática trouxesse, esqueça a perfeição, mas uma desenvoltura razoável na atividade. Mas não. Continuo péssima como no primeiro dia. Tropeço no balde, perco a garrafinha de Veja, espirro lustra-móveis no olho, bato com a cabeça na vassoura e caio no mesmo ponto do quintal, batendo o mesmo ponto da coluna na mesma quina do mesmo degrau. Sou meu próprio Buster Keaton, se ele fosse um imbecil.

*

E digo mais: se houver um campeonato de manchar a blusa de cândida, me inscrevam, apostem na minha pessoa e vejam o dinheiro de vocês se multiplicando. É impressionante. Se houver uma gotícula de cândida flutuando no universo, ela vai achar a camisa minha.

*

Em compensação a minha torta de cebola e queijo é de chorar de tão maravilhosa. Fiz duas, só porque sim.