Um Saturno definitivo

Bancos de imagens, a tinta na pele dos outros, ideias vagas,
velhas gravuras, rascunhos, “Fulano tem o braço fechado, pede a ele uma opinião”, antigas fixações. Roubei até um gatinho da Iara. E a conclusão é sempre a mesma, a única coisa que posso suportar em mim é você.

#domingo-caderninho


foto de: Ferdinand Schmutzer, 1905 . Como sempre, desconhecemos o nome da modelo. Pra que saber o nome da mulher, né, gente. Se alguém souber, me ensina.




Bom dia, seus lindos.

Ela, sim, a semana, começou.

E nós, sim, você e eu, começamos também.

Vamos ver que surpresas o país governado pelo twitter nos trará essa semana.

Coragem, gente. Muita.

Inventário

Minha caixa de cigarro tem 31 anos de uso

Saí hoje usando minha calça jeans. Na sala de espera, conversei com uma moça que precisa sair para comprar pijamas. Ela tem dezoito pijamas. Ela precisa de pijamas de inverno. Eu só tenho uma calça jeans. É uma pantalona e tem, sentem-se, vinte e dois anos. Usada, usadíssima. Tenho uma “bolsona”, daquelas gigantes, camurça (perdão aos amigos veganos que amo demais, mas é). Ela tem oito anos de uso comigo, mas antes disso, foi da minha mãe por doze anos. Tenho mais umas quatro, todas assim, velhonas. Tenho um par de saltos de inverno preto e dois marrons. Cada um deles, mais de quinze anos de uso (sei disso porque Alexandre era vivo quando os comprei e usei muito para sair com ele. Aliás, me desvio um segundo do assunto, para dizer que minha vida de viúva se divide em antes do Alê morrer / depois do Alê morrer. Não sei se isso é horrendo ou fofo ou patético, mas é assim). Minhas sapatilhas têm, com certeza, década e meia de uso. Tenho duas canetas tinteiro, uma que ganhei do Claudio Luiz, Ana Paula Medeiros e amigos (eles nem lembram disso mais) quando do lançamento do “Sonhei que a neve fervia”, em 2012, e uma que meu pai ganhou no ginásio, nos anos 1950. Uso as duas diariamente. Guardo o primeiro par de brincos que minha mãe me deu na terceira vez em que tentamos furar minha orelha, 1987, Lojas Americanas. Tenho catorze vestidos. Sim, o número me deixou aturdida. O mais novo foi comprado em 2000, o ano em que casei no papel, porque meu abençoado marido de Garanhuns não podia conceber “me tirar da casa de meu pai” e não me “dar uma situação”. Dar uma situação, pro Alê, era casar comigo no papel. O que fiz de vestido novo. Daí eu volto pra guria da sala de espera. Um amor de criatura. Não, esse não é um texto para “condenar o consumismo”, que não faço isso nunca, não panfleto nem quando sou paga. (Uma vez, numa mesa de bar, pensei alto sobre como me espanta ver crianças tão grandes andando de carrinho e que isso me parece um lance recente. Eu não estava criticando ninguém, nunca criei filhos, não entendo nada sobre isso. Só falei do que observo, vejo criançonas em carrinhos mais agora do que antes e me pergunto o motivo. Tinha um pai à mesa que, na defensiva, só faltou me bater. É isso, às vezes esqueço de explicar: sou uma observadora nessa vida, não estou falando mal, não estou julgando, não sei da vida de ninguém e uma mulher que tem a quantidade de livros que tenho, não pode falar do consumismo dos outros, ainda que fosse o caso). Mas, enfim, volto à minha amiguinha na sala de espera. Ela falou sobre os novos pijamas de que ela precisa (tudo bem, sou mala, critico um pouco nosso uso do verbo “precisar”: preciso de férias, preciso de pijamas, preciso de livros). De qualquer forma, fui escutando a guria e pensando que, do mesmo jeito que tem gente nesse mundo que ama uma coisa nova, deve ter toda uma categoria de gente que nem eu, que sente prazer em usar coisa velha. Não estamos certos, não estamos errados, só gostamos do que gostamos. Olho pra minha bolsa de vinte anos e sorrio quando me lembro que vou usá-la amanhã. Amos meus vestidos, amo ainda caber no meu jeans, porque, diabos, que alegria do caralho usar uma calça que ia comigo para a faculdade, para a produtora, para Barcelona, para os museus, para o Piccolo, para o ambulatório de Viagra (sou de humanas, tive empregos que vocês não acreditariam), para os shows do Premê. Amo minhas sapatilhas velhas e lindas e sofro quando cada uma delas morre e vai pro céu dos sapatinhos de lacinhos. Era isso só. Procura-se alma-gêmea pra ter com quem conversar sobre a imensa alegria que sentimos ao usar uma camiseta de 2008, ler um livro meio mofado dos anos 1960, sentar sob o sol usando a mesma saia que usávamos nos anos 1990 para ferver na Franz Schubert. Vou dormir agora (são 20h, não fervo mais um lugar algum), com um pijama que tem mais de onze anos. Amo vocês, estava com saudades. Devagar a vida volta.

PS: Nem perguntem sobre a situação dos meus pijamas. Vamos permitir que algum mistério sobreviva entre nós.