Contrate um escritor


Quando falo isso – e sempre falo isso – amigos reviram os olhinhos, dão fungadelas e têm fantasias sobre me atirar no poço do elevador. Eles sabem, porém, que tenho razão.
Você, você aí, que teve uma boa ideia, que tem uma bela plataforma, que espera fazer a diferença. Contrate um escritor.
Tem um punhadão de escritores aptos a ajudá-lo em seu projeto. Contrate um escritor. Deixe que nós, a partir das suas próprias palavras, ideias e convicções, escrevamos seus discursos, sua palestra, seu texto de apresentação, suas possíveis respostas para o debate. Deixe-nos ajudar (não fazer por você, antes que os afoitinhos de plantão venham me procurar com tochas acesas) na preparação dos originais do seu livro, da sua monografia, da sua tese. Não é vergonha alguma receber ajuda, é da vida, cada um de nós tem uma função. A nossa é escrever.
Por favor, por você, contrate um escritor.

Trabalhamos com nota fiscal, fazemos contrato, damos satisfação de como vai o trabalho, lemos e aproveitamos suas primeiras anotações, ajudamos com a pesquisa, tudo bonitinho. Dê o primeiro passo, peça ajuda, admita que não pode lidar sozinho com a vida, vem cá. Contrate um escritor.

Você, você aí, que teve uma boa ideia, que tem uma bela plataforma, que espera fazer a diferença. Contrate um escritor.

Tem um punhadão de escritores aptos a ajudá-lo em seu projeto. Contrate um escritor. Deixe que nós, a partir das suas próprias palavras, ideias e convicções, escrevamos seus discursos, sua palestra, seu texto de apresentação, suas possíveis respostas para o debate. Deixe-nos ajudar na preparação dos originais do seu livro, da sua monografia, da sua tese. Não é vergonha alguma receber ajuda, é da vida, cada um de nós tem uma função. A nossa é escrever.
Por favor, por você, contrate um escritor.

Trabalhamos com nota fiscal, fazemos contrato, damos satisfação de como vai o trabalho, lemos e aproveitamos suas notas, ajudamos com a pesquisa, tudo bonitinho. Dê o primeiro passo, peça ajuda, admita que não pode lidar sozinho com a vida, vem cá. Contrate um escritor.

Domingo-caderninho

Caderninhos cheios de memória (e fúria e som), da minha letra irregular, da chuva que o domingo promete, de vírgulas malucas, de parágrafos sem rumo, do seu apelido secreto que me tomaram, então inventei outro, mas agora não tenho coragem de usar, porque tudo mudou. Caderninhos que chegam ao fim e não acabam nunca, como tudo que sinto.

Uma palavra tão definitiva

Uma palavra tão definitiva
Perda.
É assim mesmo, né?
Definitiva.
Final.
Sem direito a qualquer recurso.
E está certo quem crê nisso.
A perda é sempre definitiva, ainda que pareça insignificante, ainda que um clips, um elástico de cabelo, um suspiro, uma ilusão petitica.

Perda. Perda.
Até o jeito que nós a dizemos é mortalmente sério.
Não admite discussão, não dá espaço para manobra.
Fala comigo: per-da.
Não há o que fazer.
Cabô.

Nas raras vezes em que o perdido é encontrado, volta mudado, volta outro, porque nós mudamos no processo de não mais tê-lo nas mãos, sob a vista, no lugar onde costumava ficar.
O clips foi encontrado, nós não somos os mesmos.
Cabô.

E passados os anos de pensamento mágico, conforme a realidade estilhaça nosso queixo vezes sem fim, aprendemos que:
Sim, toda perda é, a seu próprio modo, definitiva.
Não, não tem volta.
Sim, dói. Quase sempre, dói.
Não, nada ocupa o lugar do que foi perdido.
Quando muito, o novo cavuca um lugarzinho para si mesmo, um novo lugarzinho.

Aprendemos, também, que se pode perder de um tudo: reinos, rumo, cães felpudos, o amor da nossa vida, o cartão do banco, o RG (eu, três vezes), o novo amor da nossa vida, a hora, o papelzinho com o endereço, o medo, a coragem.

E, assustados, mais para perto do fim do que do começo, nós nos damos conta de que somos, ahá, perdíveis.
Nós.
Cada um de nós a seu tempo, ou todos no mesmo segundo (caso nos tome de assalto o apocalipse zumbi).

A perda, diz nossa tia-avó, com seu cabelo em variados tons de lilás, pince-nez na ponta do nariz e xale de tricô (a tia-avó de vocês, não sei, a minha tia-avó imaginária é assinzinha) nos levará a todos e nos perderemos uns dos outros.

Quando faço uma pausa no trabalho, eu me sento nos degraus da garagem tomando chá e fingindo que sei fumar meu mentolado.
Quase sempre é madrugada, quase sempre a rua está quieta e, olha, perda é a última coisa na qual quero pensar.
Fabrico uma velha tia-avó e seus ditados, sopro o chá, o cigarro se queima sozinho, choraminga a gatinha selvaginha, roncam o gatão pelancudo e a gatona tartaruga, saltita o gatinho maluquinho e penso no resto: as cidades pronde eu gostaria de ir, as tarefas de amanhã, se comprei limão, qual era mesmo o nome da música e, antes que eu me dê conta, penso em você.
Que está e não está. Essa perda tão profunda, tão definitiva, tão minha.
Minha tia-avó tem toda razão: nós nos perderemos uns dos outros de novo e novo e novo.

Domingo Caderninho 11

Domingo Caderninho 11
De muitos pedacicos e colagens e histórias e fazeres e papelitos coloridos e embalagens de mequidônis se conta uma história como a nossa. Rótulos dos vinhos que não bebemos, histórias de infância que não compartilhamos, telefonemas interrompidos e pastilhas para dor de garganta. Sinto sua falta, mas a tristeza é tão maior. Hoje chorei no meio da rua, como não fez a mocinha da música do Vanzolini. Vim andando, chorando, alarmando os moradores pacatos deste bairro surreal. Decidi com quem me é mais cara e próxima que vamos trabalhar com colagens, uma forma bonitinha e bem-humorada de colar pedaços dolorosos, quase invisíveis de tão dolorosos, quase azuis de tão dolorosos, de tanto que queimam e trepidam e levitam e suspendem.

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Ligue para mim


Ligue para mim. Ligue para mim bem cedo, quando o céu é cinza-escuro e um cãozinho solitário uiva lá longe e a 23 de Maio ainda não brilha em vermelho intermitente. Ligue para mim às onze da manhã, quando já estamos morrendo de fome e ainda é cedo para o almoço, mas que diabos, almoçamos, porque é sempre Dois Córregos em algum lugar do Império Britânico. Ligue para mim quando a dor é tão gigantesca que mal posso respirar ou concatenar um pensamento a outro e nem posso me lembrar do motivo de estarmos aqui e não consigo manter os olhos abertos, mas então vem a aula das Sandra às nove e meia e depois os e-mails para redigir e toda aquela história para acertar com a Suzi e o cãozinho para alimentar (de novo) e então, e então, e então são dez da noite e tenho de tomar banho e dormir e dormir, porque devo falar com “el Noruego” às seis da matina e nada, nada, nada além disso me espera. Ligue para mim dizendo no todo está perdido, embora nós dois estejamos cientes de que está sim. Digite meu número momentos antes de chegar em casa e fale comigo apressado e aflito enquanto sobe os degraus. Desligue bruscamente antes de pousar a mão na maçaneta e sorria como se nada tivesse acontecido, porque sabemos, realmente não aconteceu. Ligue para mim para rasgar meu coração, para me dar a mais terrível das notícias sem perceber que o fez, ou percebendo, nem sei o que é pior, o que dói mais, e continue falando e falando e falando até eu desligar o telefone na sua cara no meio do “recomendações à senhora sua mãe”, porque, sinceramente, eu precisava gritar no travesseiro. Ligue para mim e seja cruel, seja muito, muito cruel, diga coisas malvadas enquanto franze a testa despreocupadamente e fala da peça e comenta sobre o clima e lamenta que Ipanema não mais seja só felicidade. Ligue para mim. Ligue para mim quando eu não for convidada. Ligue para mim e faça um relatório da vida que eu poderia ter e jamais tive. Ligue. Ligue. Mantenha-me informada da minha dor, da sua alegria, ligue para mim. Ligue para mim quando eu não quiser falar com você e nunca quero e sempre quero. Ligue para mim e cante uma musiquinha em castelhano no meu aniversário, ligue para mim quando for tarde demais para que qualquer atitude seja tomada, ligue para mim quando eu descobrir que meu irmão me odeia. Ligue para mim quando houver luz demais, quando a barulheira da madrugada não permitir que qualquer um de nós durma, quando eu entender que não importo para ninguém. Ligue, ligue para mim quando meu telefone estiver descarregado, quando eu não puder fazer qualquer coisa por quem quer que seja, quando o Paulinho da Viola fizer você chorar com soluços altos, quando tudo estiver perdido. Ligue para mim quando tudo estiver perdido. Quando houver sangue na calçada, no poente, em suas mãos. Quando a perda for irrevogável, quando você não puder mais me suportar sequer por um segundo. Ligue para mim.

DropsdaFal_DomingoCaderninho

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Domingo Caderninho

Gata na prateleira, aguinha de laranja, um olho na Ana, outro na Suzi, série de zumbi-engraçadinho rolando na tevê, trabalhando.
Existem domingos melhores, eu sei, mas já tive domingos bem piores.
Bem mesmo.


#DropsdaFal_DomingoCaderninho

Um Coltrane da Flavia Penido, uma Maliu esotérica numa república morta

Achei um “menta-alecrim” bão de substituir o Bulgari de limão que não fabricam mais. Não que eu fosse ter grana prum Bulgari a essa altura da minha assustadora vida financeira, mas né.

Enfim, ganhei um vidro da minha educadíssima anfitriã e agradeci porque também sou algo educada, mas sem esperança em meu coração calejado pela dor e saudade de meu amado Bulgari Vert. Porém, contudo, todavia, eis que com garbo e elegância ranco a tampa e, voilà, é um cítrico muitíssimo digno. Eita Granado que não nos falha.

*

Aquele amigo que vai embora sem se despedir. Não somos (ou, pelo menos, eu não sou, malandragem) dignos da despedida, da atenção, do gesto, da delicadeza do “Meu bem, chegou a hora, adeus”.

“Já bebi, já comi, quiéquieu tou fazendo aqui?”, nos ensinava a declamar o nosso bárbaro pai ante o olhar horrorizado de nossa mãe, a grega.

Num determinado momento da noite, você olha em volta e quedê o amigo, o motivo – não raras vezes – de você estar ali naquela balbúrdia (olááááá, desgoverno brasileiro), cercada de gente que você gosta-mais-ou-menos (bem feito), de rímel, cinta, sutião MASP e, Deus que me perdoe, corretivo.

Sim, ele foi embora e inda te restam horas de socialização. Graçadeus que egípcios e mesopotâmicos e os caras espertos que vieram antes deles inventaram o álcool.

Me lembrei disso porque esse sábado tive a oportunidade de ver uma moça – que nao é minha amiga, só conhecida de olás – passar por isso. Dessa vez, eu era a balbúrdia, o povaréu, as gentes de quem ela não gosta, o pano de fundo que justificou que ela enfrentasse spandex, salto e sombra com glitter para se encontrar – com o coração aos pulos – com um lamentável e emasculado primata. Me vi de fora da cena e doeu para caráleo, torcida brasileira. Ele chegou, foi simpático com ela por bem uns douuuze segundos, se afastou, circulou por umas cinco rodinhas de parvos e zás, foi-se, desaparecido no éter. E eu, na encolha, covardemente testemunhei o e-x-a-t-o momento em que ela se deu conta de que ele tinha ido embora sem se despedir. Protagonizei a mesma patetice umas duas ou três vezes em bares d’outrora, quero acreditar que para nunca mais. Se ela reclamar com ele amanhã (cabe aqui um imenso “se”, além da nossa proverbial covardia, realmente cremos não ter esse direito), ele vai dizer que a. foi distração b. não queria incomodá-la, ela parecia tão feliz com os outros amigos c. ele teve uma semana infernal, blablablá, estilo “filha, você teve sorte de eu ter aparecido”.

Não confirmo e não nego que umas lagriminhas me assombraram quando vi a cena. Eu devia ter sido uma pessoa melhor, ido até ela e dito alguma coisa do tipo “Querida, é um covarde, parta para outra, ou, se você estiver na mesma situação que eu, para nenhuma”, mas já contei que sou uma covarde. Catei minha linda (linda, linda) bolsa, acenei pro meu amigo carona, um gesto sutil e doce e meigo e discreto que quer dizer mais ou menos “Vamos embora daqui, caralho” e, indo até ela, passei a mão em suas costas e disse: “Minha querida, preciso voltar para São Paulo, mas não podia ir sem me despedir” – porque posso não ser boa, mas não fui criada por lobos.

Identificação, sua danadinha.

*

A Flavia Penido ensinou a fazer download do Coltrane e agora preciso urgentemente que Leandro&Leonardo arrume meu celular preu entupir minha Barbie Fada com o som do velho. Não quero mais ouvir tracousa.

*

Alexandre adorava Djavan. Como é que pode, né gente? Um homem culto daqueles? Poeta maravilhoso, ouvido absoluto, cheio de delicadezas. E adorava Djavan, meu Deus do céu. De quando em vez, a Verô e eu paramos para nos lembrar disso, para nos abraçar e rir da cara dele. Djavan, puta que pariu.

*

O frio voltou. Sequer tenho palavras para agradecer pelo momento. Estou usando duas meias em cada pé, calça de lã e camisa de lenhador. Camisa xadrez, em mulheres da minha feiura, costuma ser um atentado estético, mas no inverno, podemos. No inverno e na casa vazia, evidentemente.

Bebo chá mate morno com leite, vestida como uma mendiga e feliz como uma… o que é feliz, ainda, neste mundo horrendo? Bem, seja lá o que for, neste frio sou feliz como essa coisa feliz que desconheço.

*

A república acabou. Minha mãe me perguntou quando cheguei se podemos chamar de ditadura ou se inda tem algum protocolo a ser seguido antes da liberação do termo. Ela enfrentou uma. Foi espancada e quase morreu.

Maliu reconhece cada sinal e tem cantado antecipadamente cada passo dessa gente escrota com semanas de antecedência. Chegada fosse a uma picaretagem, podia abrir um express do “Mãe Maliu: presente, passado e futuro” e ganhar uma grana com seus poderes premonitórios.

*

A casa tem dado de dez a zero em mim e não é de hoje. Impraticável chamar gente aqui pura e simplesmente porque não dou conta. De gente, da casa, de mim. Aprender a desamar aos cinquenta, senhores, é coisa que não recomendo. Sofremos mais do que adolescentes e não temos ninguém para preparar nosso jantar.

*

Tenho uma médica daquelas chegadas à sinceridade. Ela me aconselhou a fazer planos de oito meses no máximo. E eu adoro gente assim, que chega e “Pá!”. Ao menos quando dentro dum consultório.

*

Curto a segunda temporada de Trapped com moderação que é para fazer durar. No intervalo vi Case, excelente e que, ora, tinha escapado do meu radar.

Ontem chorei até dormir. Não me orgulho, não me envergonho. Essa sou eu. Num país que fica menor e mais triste, mais sombrio e burro a cada instante que passa, acho mesmo que não podemos ter um João Gilberto. Você não precisa realmente concordar ou discordar. Esse é o meu registro, sugiro que você faça o seu. Prometo não ler. Chorei ontem até dormir, senti a morte dele como se sente a morte de alguém que fez parte da infância da gente. Alexandre imitava o João Gilberto cantando “Tim tim por tim tim” (lembra Ivanise Zel, querida?) e estaria devastado hoje. Talvez parte da minha tristeza, talvez parte da minha insistência com essa canção venham daí. Não sei. Esse é um registro, não uma análise. Chorei até dormir.

Querido diário Querida Dani

Querida minha: 20 de maio. O frio chegou, mas nem tão convicto. A alergia misteriosa vai e vem. Como o seu, meu corpo também está tentando se livrar de alguma coisa. Acho que é de mim. Continuo tristonha. Amiga tá meio estranha e eu, com a minha sensibilidade nula, não sei se ela está gentilmente me dizendo que nao quer mais ser minha miga. Odeio não entender sinais. Que bom que a discussão sobre Kafka foi boa, de verdade. Tou que nem você, sem paciência, sem coragem e, Deus por minha testemunha, sem condição nem de brigar. Sim, tou um cado mais ativa no grupo. Longe do ideal, mas é o que tenho dado conta. No tuinto também. Opa, pausa pra eu reclamar: todo dia o caminhão do reciclado passa tardão. Hoje que eu enrolei, ele tá passando nesse instante. Como meu joelho direito (que se chama Herodes) e eu não daremos conta de nos arrastar até o portão em tempo, reclamo aqui com você. Tá. Voltando. Pessoas, opiniões, gentes, você sabe. E apesar de ser um trator, eu não quero ser um trator. Quero ser uma pessoa doce e primaveril, quero sorrir, quero lançar gentilezas ao redor, quero ser querida. Mas como isso não passa de ilusão, refreio minha vontade de dar opinião sobre tudo. Menos no Drops, porque é para isso que ele existe e aqui, porque essa é a sua cruz, hahahaha. E sobre a endorfina: ela é uma danadinha 🙂 Falta muito para o Natal?

Joelho, uma nova turma e a fronha azul em: querido diário

Inventei novas personagens, uma outra turma. Falta registrar e depois enlouquecer a pobre da Suzi com meus desenhos lamentáveis.

*

Tenho aconselhado – com ar seríssimo e voz de óculos-na-ponta-do-nariz, que as pessoas façam diários, anotações diárias da própria vida, que registrem, registrem. Devo seguir meu próprio conselho, portanto, mas ui que a vida é um sem-fim de chatices e coisiquitas e aiaiais e o dia passa e o caderno não é aberto e sinto vergonha de mim mesma.

*

Uma casa, falando em detalhes, chatices e sem-fins, é um não acabar de bagunças e coisas-não-feitas e banheiros que precisam de reforma e camas que depois, só depois, da troca de lençol descobre-se: uma fronha sumiu. Uma. A cama ali, linda e combinante e uma maldita fronha desapareceu. E não há a quem culpar além de você.

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A pessoa não dá um centímetro de satisfação e finge, com graça, que está fazendo um favor a você quando escuta um “e aí, meu bem?”.

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Não vai ter uma sexta temporada de Z Nation e eu lamento demais. O fim da 5ª tempô ficou uma chatice.

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Joelho, essa coisa frágil e tola, está dando defeitos inimagináveis.

*

Programas de decoração. Que vício, que vício.

Horóscopo Drops do Dias das Mães

O filho de Áries é um incompreendido. Usa o pijama um dia do avesso outro do direito por uma questão de liberdade e menor esforço. Poupa energia para tarefas mais nobres, como videogames, por exemplo. É quase uma filosofia.

Filho de Virgem, quando a mãe chamar para almoçar, não vai na primeira chamada que é golpe. É para pôr a mesa.

O filho de Gêmeos é conectado com a natureza. Na necessidade de um despertador, ele compra um galo. E tendo a casa furtada, providencia um ganso. Glória do Greenpeace.

O filho de Aquário vira vegano de repente e daí liga pra mãe pra choramingar que tá com o freezer cheio de carneiro e leitão.

A filha de Câncer, depois de anos e anos de conselhos que diziam “não se case com ele, é roubada”, se casa, sim, com ele, entra na maior roubada e, depois de se separar, vira pra mãe e diz “POR QUE VOCÊ NÃO ME AVISOOOOOU?”.

O filho de Leão é acima de tudo, honesto. À meia noite de domingo liga do colégio interno a cobrar, claro, para a mãe, avisando: “Mãe, amanhã o diretor vai te ligar e, ó: fui eu.”

O filho de Capricórnio é narrador e crítico da direção da mãe.  “Por que essa pista?”, “Nossa, que devagar!”, “É assim que você usa o freio de mão?”. Cuidado, pois, se a mãe for de Peixes, periga você ser largado a dez quilômetros da escola numa manhã de inverno. Lei do retorno que chama.

O filho de Escorpião liga da faculdade a cobrar, claro, para a mãe e manda: “Mãe, a Marina tá grávida e arrumei um emprego de garçom pois a família dela quer que a gente case. E tranquei a matrícula. Mas fica feliz que são gêmeos!”. Enquanto o cérebro da mãe ainda processa as informações, o fedazunha grita: “Mentirrraaaa, mããeeee!! Tirei 1,5 em cálculo!!”.

O filho de Touro não liga no Natal, não liga no aniversário, não liga na Páscoa, não liga no Dia das Mães. Claro que o filho de Touro é o filhinho preferido.

O filho de Libra ao receber a polícia que foi acionada pelos vizinhos, às duas da manhã, temperatura dois graus, por som alto na festa da república, bate palmas devagar e berra pro oficial que entrou no carro e desligou o som: “Parabéns, sargento! O senhor sabia que não pode entrar num carro sem mandado?”.  A seguir, para a mãe, ligando da delegacia: “Meus direitos, você que me ensinou!”. Filho de Libra, na ditadura, não dura dez minutos.

A filha de Sagitário considera brigadeiro e Yakult doses únicas. Não peça uma mordida e um gole que ela não dá. Nem pra mãe.

O filho de Peixes tem amigos em todos os bairros da cidade e depois do treino promete carona para geral. No carro da mãe, com a mãe de motorista. Sem avisar, claro.

Domingo-caderninho

Gata na prateleira, aguinha de laranja, um olho na Ana, outro na Suzi, série de zumbi-engaçadinho rolando na tevê, trabalhando. Existem domingos melhores, eu sei, mas já tive domingos bem piores. Bem mesmo.

*

A paixão longa e sofrida é substituída por uma amizade sem graça e vã, do tipo em que o silêncio se faz não por excesso de intimidade, mas por total falta do que dizer. E qualquer comentário idiota, megalômano, babaca e descuidado faz você chorar até ficar sem respiração.

Não recomendo.

*

Chuva, finalmente. O Brócolis não via chuva há muito tempo. Espero que esfrie, espero que melhore, espero que exista. Espero existir.

*

Saber que existem opções. Talvez você não possa elegê-las, talvez não queira tomá-las, talvez nem lhe sirvam. Mas estão lá as opções. Fui lembrada disso agora à tarde, em meio a um trabalho insano. Há opções.

*

Fui chama de “querida”, “amiga querida” e “querida amiga” na mesma semana. Evidentemente eu mereço.

*


Durante a semana, tirei do lugar uma prateleira e seus respectivos livros, que não saíam dali há onze anos e pouco. Tudo bem, um livro ou outro de quando em vez sai dali e depois volta, mas não todos, não ao mesmo tempo. Um pó cinzento e espesso se gruda aos muitos panos molhados que foram necessários para limpá-la. Dez anos de poeira e poluição. O dia que essa prateleira foi posta no lugar, dois ou três dias antes de eu me mudar para cá, foi o dia em que arrumei ali meus livros. Minha vida tinha mudado enormemente e eu arrumei ali livros, um ao lado do outro, como se estivesse tudo tranquilo e eu soubesse exatamente o que fazia. A vida muda de novo agora e inda não sei o que estou fazendo.

*

“Caso você se esqueça, olhe pela janela”, acaba de dizer minha amiga mais sábia.

Mas não hoje

O mundo-lá-fora, aquele lugar tão esquisito. Tem pessoas lá, e elas fazem coisas. Jamais entenderei.

*

“Você se sente feliz por estar viva, não é?”. As pessoas falam assim na vida real. Bão, algumas. Só olho prelas, cara meio abobada, e aceno vagamente com a cabeça. Nem sei por onde começar, amiga.

*

Tem cachorro-quente no mundo lá fora. Ponto pro mundo lá fora. Não consegui comer, virei uma dessas velhinhas ridículas que ficam enjoadas com qualquer coisinha, mas foi muito bom ver outras pessoa pedindo para colocar mais purê aí, tio e comendo seus lanches.

*

O mundo lá fora tem pessoas que pedem seus números: de casa, do documento e da carteirinha. Ah, e do telefone. E de não sei mais quê. E da guia. Sério? Reedito minha cara de tonta porque, gente. Não sei coisa alguma, amiga. E nem tou fazendo gênero, eu não sei mesmo.

*

Por algumas horas sem chave, sem carteira, sem celular. Não nego que é das coisas mais agradáveis.

*

Se eu tivesse dinheiro (é o que vivo dizendo), viveria numa cidade minúscula, minúscula e numa casa longe, longe. Mesmo que isso significasse que eu ia precisar ter um carro de novo. Andando por São Paulo, sempre relembro do motivo de meu desejo. Que horror, que horror. Sei que não é moderno e correto achar São Paulo um pavor, “a gente tem que amar a cidade da gente” e blablablááááá, mas Jesus, que horror. Alguém ganha logo na loteria e me salva, por favor.

*

Minha unhas estão roídas até o impraticável. Todas têm sangue nos cantinhos e a ponta de cada um de meus dedos lateja loucamente. Lavar a cabeça de noite vai ser uma aventura no reino da dor. Um dia desses será hora de eu parar de me punir. Mas não hoje.

Um Saturno definitivo

Bancos de imagens, a tinta na pele dos outros, ideias vagas,
velhas gravuras, rascunhos, “Fulano tem o braço fechado, pede a ele uma opinião”, antigas fixações. Roubei até um gatinho da Iara. E a conclusão é sempre a mesma, a única coisa que posso suportar em mim é você.

#domingo-caderninho


foto de: Ferdinand Schmutzer, 1905 . Como sempre, desconhecemos o nome da modelo. Pra que saber o nome da mulher, né, gente. Se alguém souber, me ensina.




Bom dia, seus lindos.

Ela, sim, a semana, começou.

E nós, sim, você e eu, começamos também.

Vamos ver que surpresas o país governado pelo twitter nos trará essa semana.

Coragem, gente. Muita.