Domingo Caderninho 11

Domingo Caderninho 11
De muitos pedacicos e colagens e histórias e fazeres e papelitos coloridos e embalagens de mequidônis se conta uma história como a nossa. Rótulos dos vinhos que não bebemos, histórias de infância que não compartilhamos, telefonemas interrompidos e pastilhas para dor de garganta. Sinto sua falta, mas a tristeza é tão maior. Hoje chorei no meio da rua, como não fez a mocinha da música do Vanzolini. Vim andando, chorando, alarmando os moradores pacatos deste bairro surreal. Decidi com quem me é mais cara e próxima que vamos trabalhar com colagens, uma forma bonitinha e bem-humorada de colar pedaços dolorosos, quase invisíveis de tão dolorosos, quase azuis de tão dolorosos, de tanto que queimam e trepidam e levitam e suspendem.

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Ligue para mim. Ligue para mim bem cedo, quando o céu é cinza-escuro e um cãozinho solitário uiva lá longe e a 23 de Maio ainda não brilha em vermelho intermitente. Ligue para mim às onze da manhã, quando já estamos morrendo de fome e ainda é cedo para o almoço, mas que diabos, almoçamos, porque é sempre Dois Córregos em algum lugar do Império Britânico. Ligue para mim quando a dor é tão gigantesca que mal posso respirar ou concatenar um pensamento a outro e nem posso me lembrar do motivo de estarmos aqui e não consigo manter os olhos abertos, mas então vem a aula das Sandra às nove e meia e depois os e-mails para redigir e toda aquela história para acertar com a Suzi e o cãozinho para alimentar (de novo) e então, e então, e então são dez da noite e tenho de tomar banho e dormir e dormir, porque devo falar com “el Noruego” às seis da matina e nada, nada, nada além disso me espera. Ligue para mim dizendo no todo está perdido, embora nós dois estejamos cientes de que está sim. Digite meu número momentos antes de chegar em casa e fale comigo apressado e aflito enquanto sobe os degraus. Desligue bruscamente antes de pousar a mão na maçaneta e sorria como se nada tivesse acontecido, porque sabemos, realmente não aconteceu. Ligue para mim para rasgar meu coração, para me dar a mais terrível das notícias sem perceber que o fez, ou percebendo, nem sei o que é pior, o que dói mais, e continue falando e falando e falando até eu desligar o telefone na sua cara no meio do “recomendações à senhora sua mãe”, porque, sinceramente, eu precisava gritar no travesseiro. Ligue para mim e seja cruel, seja muito, muito cruel, diga coisas malvadas enquanto franze a testa despreocupadamente e fala da peça e comenta sobre o clima e lamenta que Ipanema não mais seja só felicidade. Ligue para mim. Ligue para mim quando eu não for convidada. Ligue para mim e faça um relatório da vida que eu poderia ter e jamais tive. Ligue. Ligue. Mantenha-me informada da minha dor, da sua alegria, ligue para mim. Ligue para mim quando eu não quiser falar com você e nunca quero e sempre quero. Ligue para mim e cante uma musiquinha em castelhano no meu aniversário, ligue para mim quando for tarde demais para que qualquer atitude seja tomada, ligue para mim quando eu descobrir que meu irmão me odeia. Ligue para mim quando houver luz demais, quando a barulheira da madrugada não permitir que qualquer um de nós durma, quando eu entender que não importo para ninguém. Ligue, ligue para mim quando meu telefone estiver descarregado, quando eu não puder fazer qualquer coisa por quem quer que seja, quando o Paulinho da Viola fizer você chorar com soluços altos, quando tudo estiver perdido. Ligue para mim quando tudo estiver perdido. Quando houver sangue na calçada, no poente, em suas mãos. Quando a perda for irrevogável, quando você não puder mais me suportar sequer por um segundo. Ligue para mim.

DropsdaFal_DomingoCaderninho

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Ainda é manhã de terça-feira, Batman.

Alguma coisa tem me incomodado profundamente. Nem estou falando do Brasil, porque o Brasil e eu desistimos um do outro faz tanto tempo. Num universo minúsculo, caseiro, pessoal e absolutamente limitado, tenho me sentido incomodada. Como se a gola da vida raspasse em meu pescoço. Meu blog. Meu blog tem me incomodado profundamente. As coisas que digo me incomodam. As escolhas que fiz. Que faço. Seu nome na boca de pessoas que eu nem gosto tanto assim? Me incomoda demais. Os horários. Os horários me incomodam. As mudanças. Alterações. A enorme quantidade de coisas em que devo me concentrar me incomoda muitíssimo. Não enxergar o essencial? Ah, incomoda sim. Velhos refrões, jargões e frases cretinas de propagandas dos anos 1990 me incomodam como se fossem moscas azuladas nojentas. Não me lembrar quando foi a última vez que nos vimos me incomoda demais. Quase certeza de que foi na casa dos amigos. Foi? Eu não me lembro. As coisas que não mudam me incomodam tanto quanto as que mudam. O momento da revelação. Amizades terceirizadas. O lacre da garrafa de leite. As garantias, a falta delas. Os vasinhos novos dos cactus. A inclusão dos outros na história. Os barquinhos. Palavras que não são minhas me deixam sem voz. Ando triste e cansada E sem voz. E incomodada.

Domingo Caderninho

Gata na prateleira, aguinha de laranja, um olho na Ana, outro na Suzi, série de zumbi-engraçadinho rolando na tevê, trabalhando.
Existem domingos melhores, eu sei, mas já tive domingos bem piores.
Bem mesmo.


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Um Coltrane da Flavia Penido, uma Maliu esotérica numa república morta

Achei um “menta-alecrim” bão de substituir o Bulgari de limão que não fabricam mais. Não que eu fosse ter grana prum Bulgari a essa altura da minha assustadora vida financeira, mas né.

Enfim, ganhei um vidro da minha educadíssima anfitriã e agradeci porque também sou algo educada, mas sem esperança em meu coração calejado pela dor e saudade de meu amado Bulgari Vert. Porém, contudo, todavia, eis que com garbo e elegância ranco a tampa e, voilà, é um cítrico muitíssimo digno. Eita Granado que não nos falha.

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Aquele amigo que vai embora sem se despedir. Não somos (ou, pelo menos, eu não sou, malandragem) dignos da despedida, da atenção, do gesto, da delicadeza do “Meu bem, chegou a hora, adeus”.

“Já bebi, já comi, quiéquieu tou fazendo aqui?”, nos ensinava a declamar o nosso bárbaro pai ante o olhar horrorizado de nossa mãe, a grega.

Num determinado momento da noite, você olha em volta e quedê o amigo, o motivo – não raras vezes – de você estar ali naquela balbúrdia (olááááá, desgoverno brasileiro), cercada de gente que você gosta-mais-ou-menos (bem feito), de rímel, cinta, sutião MASP e, Deus que me perdoe, corretivo.

Sim, ele foi embora e inda te restam horas de socialização. Graçadeus que egípcios e mesopotâmicos e os caras espertos que vieram antes deles inventaram o álcool.

Me lembrei disso porque esse sábado tive a oportunidade de ver uma moça – que nao é minha amiga, só conhecida de olás – passar por isso. Dessa vez, eu era a balbúrdia, o povaréu, as gentes de quem ela não gosta, o pano de fundo que justificou que ela enfrentasse spandex, salto e sombra com glitter para se encontrar – com o coração aos pulos – com um lamentável e emasculado primata. Me vi de fora da cena e doeu para caráleo, torcida brasileira. Ele chegou, foi simpático com ela por bem uns douuuze segundos, se afastou, circulou por umas cinco rodinhas de parvos e zás, foi-se, desaparecido no éter. E eu, na encolha, covardemente testemunhei o e-x-a-t-o momento em que ela se deu conta de que ele tinha ido embora sem se despedir. Protagonizei a mesma patetice umas duas ou três vezes em bares d’outrora, quero acreditar que para nunca mais. Se ela reclamar com ele amanhã (cabe aqui um imenso “se”, além da nossa proverbial covardia, realmente cremos não ter esse direito), ele vai dizer que a. foi distração b. não queria incomodá-la, ela parecia tão feliz com os outros amigos c. ele teve uma semana infernal, blablablá, estilo “filha, você teve sorte de eu ter aparecido”.

Não confirmo e não nego que umas lagriminhas me assombraram quando vi a cena. Eu devia ter sido uma pessoa melhor, ido até ela e dito alguma coisa do tipo “Querida, é um covarde, parta para outra, ou, se você estiver na mesma situação que eu, para nenhuma”, mas já contei que sou uma covarde. Catei minha linda (linda, linda) bolsa, acenei pro meu amigo carona, um gesto sutil e doce e meigo e discreto que quer dizer mais ou menos “Vamos embora daqui, caralho” e, indo até ela, passei a mão em suas costas e disse: “Minha querida, preciso voltar para São Paulo, mas não podia ir sem me despedir” – porque posso não ser boa, mas não fui criada por lobos.

Identificação, sua danadinha.

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A Flavia Penido ensinou a fazer download do Coltrane e agora preciso urgentemente que Leandro&Leonardo arrume meu celular preu entupir minha Barbie Fada com o som do velho. Não quero mais ouvir tracousa.

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Alexandre adorava Djavan. Como é que pode, né gente? Um homem culto daqueles? Poeta maravilhoso, ouvido absoluto, cheio de delicadezas. E adorava Djavan, meu Deus do céu. De quando em vez, a Verô e eu paramos para nos lembrar disso, para nos abraçar e rir da cara dele. Djavan, puta que pariu.

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O frio voltou. Sequer tenho palavras para agradecer pelo momento. Estou usando duas meias em cada pé, calça de lã e camisa de lenhador. Camisa xadrez, em mulheres da minha feiura, costuma ser um atentado estético, mas no inverno, podemos. No inverno e na casa vazia, evidentemente.

Bebo chá mate morno com leite, vestida como uma mendiga e feliz como uma… o que é feliz, ainda, neste mundo horrendo? Bem, seja lá o que for, neste frio sou feliz como essa coisa feliz que desconheço.

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A república acabou. Minha mãe me perguntou quando cheguei se podemos chamar de ditadura ou se inda tem algum protocolo a ser seguido antes da liberação do termo. Ela enfrentou uma. Foi espancada e quase morreu.

Maliu reconhece cada sinal e tem cantado antecipadamente cada passo dessa gente escrota com semanas de antecedência. Chegada fosse a uma picaretagem, podia abrir um express do “Mãe Maliu: presente, passado e futuro” e ganhar uma grana com seus poderes premonitórios.

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A casa tem dado de dez a zero em mim e não é de hoje. Impraticável chamar gente aqui pura e simplesmente porque não dou conta. De gente, da casa, de mim. Aprender a desamar aos cinquenta, senhores, é coisa que não recomendo. Sofremos mais do que adolescentes e não temos ninguém para preparar nosso jantar.

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Tenho uma médica daquelas chegadas à sinceridade. Ela me aconselhou a fazer planos de oito meses no máximo. E eu adoro gente assim, que chega e “Pá!”. Ao menos quando dentro dum consultório.

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Curto a segunda temporada de Trapped com moderação que é para fazer durar. No intervalo vi Case, excelente e que, ora, tinha escapado do meu radar.

Os muitos nadas dessa vida

O erre do meu computador está emperrado. Como se minha digitação claudicante precisasse de mais boicote.

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Admitir em voz alta “não vou dar conta de tudo” é horrível, mas libertador.

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Estou dopando meu joelho. Dane-se.

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Conversa com J. Ele está em busca do tom exato pro texto exato, e essa é uma busca que sempre me comove. Falei com ele sobre leitura em voz alta e matraqueei sem parar sobre registro. Registro, registro, sou um disco riscado, a agulha pula e volta pro mesmo lugar.

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Programas de decoração. O youtube é um ninho deles. Eu, que mal ponho as lombadas dos livros pro lado certo, sou fascinada, sabe-se lá o motivo. O tom certo de cinza pra parede da cozinha alheia me consome. Vou montar um grupo de ajuda muito específico: Viciados em programas de decoração e em analgésico pro joelho e bagunceiros procrastinadores compulsivos anônimos. Serei o único membro, mas Chico, o gato, vai frequentar em solidariedade.

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“Olá, notamos que você tem um bloqueador de anúncios! Desabilite, para ter acesso às dez matérias desbloqueadas por mês e…”

Enfia essa reportagem no seu cu.

Grata.

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O décimo homem, na Netflica. Que filme maluco da caralha. Adorei, adorei.

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O melhor que podemos fazer uns pelos outros é não nos conhecer muito bem.

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A pessoa não sabe o que quer, mas espera que você não apenas saiba o que ela quer, mas faça do jeito que ela faria se soubesse o que quer.

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Depois de tantos, tantos anos no mesmo esquema, nossa romancista não sabe bem o que escrever quando não é para o seu olhar.

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Tenho quase cinquenta anos e minha mãe vai ao mercado e compra iacúlti pra mim. Eu me envergonho disso? Não.

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Tem coisa mais patética do que achar que o recado, a fofura, a graça, a foto, o comentário eram para você e descobrir que não, não eram? Até tem, assim, na vida em geral, mas no momento particular da descoberta, não, não tem. A pessoa só quer morrer.