Domingo-caderninho

Letras, ideias, suspiros, um golpe bem dado, fotos perdidas, uma ideia que não tinha mesmo como dar certo, a grade vermelha, a espera dos dias, outro golpe, um apelido secreto, torta de limão da padaria, caneta verde, golpe, golpe, golpe, desvio do golpe, golpe.

Contrate um escritor


Quando falo isso – e sempre falo isso – amigos reviram os olhinhos, dão fungadelas e têm fantasias sobre me atirar no poço do elevador. Eles sabem, porém, que tenho razão.
Você, você aí, que teve uma boa ideia, que tem uma bela plataforma, que espera fazer a diferença. Contrate um escritor.
Tem um punhadão de escritores aptos a ajudá-lo em seu projeto. Contrate um escritor. Deixe que nós, a partir das suas próprias palavras, ideias e convicções, escrevamos seus discursos, sua palestra, seu texto de apresentação, suas possíveis respostas para o debate. Deixe-nos ajudar (não fazer por você, antes que os afoitinhos de plantão venham me procurar com tochas acesas) na preparação dos originais do seu livro, da sua monografia, da sua tese. Não é vergonha alguma receber ajuda, é da vida, cada um de nós tem uma função. A nossa é escrever.
Por favor, por você, contrate um escritor.

Trabalhamos com nota fiscal, fazemos contrato, damos satisfação de como vai o trabalho, lemos e aproveitamos suas primeiras anotações, ajudamos com a pesquisa, tudo bonitinho. Dê o primeiro passo, peça ajuda, admita que não pode lidar sozinho com a vida, vem cá. Contrate um escritor.

Você, você aí, que teve uma boa ideia, que tem uma bela plataforma, que espera fazer a diferença. Contrate um escritor.

Tem um punhadão de escritores aptos a ajudá-lo em seu projeto. Contrate um escritor. Deixe que nós, a partir das suas próprias palavras, ideias e convicções, escrevamos seus discursos, sua palestra, seu texto de apresentação, suas possíveis respostas para o debate. Deixe-nos ajudar na preparação dos originais do seu livro, da sua monografia, da sua tese. Não é vergonha alguma receber ajuda, é da vida, cada um de nós tem uma função. A nossa é escrever.
Por favor, por você, contrate um escritor.

Trabalhamos com nota fiscal, fazemos contrato, damos satisfação de como vai o trabalho, lemos e aproveitamos suas notas, ajudamos com a pesquisa, tudo bonitinho. Dê o primeiro passo, peça ajuda, admita que não pode lidar sozinho com a vida, vem cá. Contrate um escritor.

Diário de um mundo que acabou: ervilhas, genocídios e cadeados

Às vezes a pessoa é desnecessariamente grosseira para que você deixe de procurá-la, mas olha, não precisa. Mesmo. A dor dá conta demais desse recado. Você não precisa nem piscar, meu caro.

*

Perdi alguém na semana passada. Querido. Amigo, inimigo, bom de briga, bom de cama, bom de dividir livro e projeto.
Perdemos alguém hoje, Maliu e eu. Querido. Jovem. Todo sarado. Feliz, apaixonado.

Perdemos, em menos de uma semana, dois alguéns para essa maldita pandemia que os bobos alegres de plantão minimizam aos gritos, berrando na av. Paulista e no meu ouvido, sendo completamente idiotas como, aliás, seu líder máximo.
Minha dor só não é maior do que meu ódio por esse governo homicida. E minha indignação com os que o apoiam, minha decepção e minha tristeza com essa gente, não cabem no peito.
*

Assisti Leave No Trace (Sem rastros) e fiquei muito encantada com a história, com a fotografia, com a construção do relacionamento daquele pai, daquela filha, com a vida deles. E também tou aqui pensando que aquela comunidade no meio do nada, com aqueles bicho-grilos velhos, tocando violão sem afinação e vivendo cada um em sua cabaninha, seria a única comunidade de carne e osso da qual me encantaria participar.

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“Vocês não têm ideia da importância das…” “Vocês não sabem do…” “Vocês não têm noção do que é…”. É, lindão, não temos, você é mesmo o dono lacrador da realidade. Ilumine nossas pobres mente, imploramos.
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“O cadeado”, diz minha mãe, “tem duas chaves” e aí eu começo a rir e aí ela começa a rir, porque nós duas sabemos que vou perder as duas chaves.
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“Silenciar o perfil” é um gesto lindo que significa “quero continuar te amando apesar da sua afeição por genocidas”. As pessoas não me dão o devido valor.
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O Brasil me obriga a concordar com o Rodrigo Maia. Nem sei mais quem sou.
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A quarentena parece tanto com a minha vida normal que evito reclamar.
Meu medo do futuro por viver sob uma pandemia e sob um governo que não tem qualquer interesse em cuidar de mim, da minha saúde ou das minhas contas a pagar, somatiza-se numa alergia misteriosa que corrói minha pele nos antebraços e colo.
Meu sono, porém, minha velha e boa fuga, está cada dia mais profundo.

Morro a cada noite, renasço (mais ou menos) a cada manhã. Sonho com você na maior parte das madrugadas, apesar de todas as suas demonstrações de “Desapareça”. Como explicar seu nojo pro meu inconsciente?
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Maliu estava trocando os canais da tevê e caiu no sono, controle remoto em punho. A tevê num canal daqueles que tem gente em diferentes janelinhas cantando gritado. Deus me livre. Troquei pro canal do Bobigorén.
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Estou assistido tanta coisa boa, tanta, que vou voltar a fazer listas.
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Vizinhos em rodinhas, vizinhos em lambretas, vizinhos jogando vôlei no meio da rua. É o maravilhoso mundo da negação.
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Tenho feito tortas de cebola e queijo cada dia mais lindas e fofas. Não melhora em nada a vida do país, mas dá um alento enorme.
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Leio aqui que “o novo ministro da Saúde não vai participar do anúncio dos dados atualizados do novo coronavírus em Brasília”.
Como elegeram essa escrotidão de governo? Como?
Irresponsáveis.
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Não, gente, água tônica antártica não vai salvar a vida de ninguém.
*

Quando a dinâmica se perde, a dinâmica se perde. As pessoas são boas e gentis (quando não estão em grupo) e tentam, mas a dinâmica se foi.

*
Os minutos, miados, sachê de ração dum gatinho desdentado, os baldes de água com cândida, freelas, aulas, projetos, amigos, as perdas irreparáveis, fileirinhas de ervilha em lata, ovos fritos cenográficos, teorias da conspiração, copos de suco de uva, a imensa falta que sinto do que não fomos, panos de prato fervidos e quarados, potes de geleia, sprays de SBP, galhos de eucalipto, gotinhas de vapor, sanduíches de queijos, escritos do Allan, sustos petiticos e enormes, dorzinhas finas no meio do peito.

Os instantes de cada dia, de cada cor, da espera, do inevitável, do que é cruel e irrevogável.

Os dias aqui.

Neste mundo que, sim, acabou.

Domingo Caderninho 11

Domingo Caderninho 11
De muitos pedacicos e colagens e histórias e fazeres e papelitos coloridos e embalagens de mequidônis se conta uma história como a nossa. Rótulos dos vinhos que não bebemos, histórias de infância que não compartilhamos, telefonemas interrompidos e pastilhas para dor de garganta. Sinto sua falta, mas a tristeza é tão maior. Hoje chorei no meio da rua, como não fez a mocinha da música do Vanzolini. Vim andando, chorando, alarmando os moradores pacatos deste bairro surreal. Decidi com quem me é mais cara e próxima que vamos trabalhar com colagens, uma forma bonitinha e bem-humorada de colar pedaços dolorosos, quase invisíveis de tão dolorosos, quase azuis de tão dolorosos, de tanto que queimam e trepidam e levitam e suspendem.

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Ligue para mim


Ligue para mim. Ligue para mim bem cedo, quando o céu é cinza-escuro e um cãozinho solitário uiva lá longe e a 23 de Maio ainda não brilha em vermelho intermitente. Ligue para mim às onze da manhã, quando já estamos morrendo de fome e ainda é cedo para o almoço, mas que diabos, almoçamos, porque é sempre Dois Córregos em algum lugar do Império Britânico. Ligue para mim quando a dor é tão gigantesca que mal posso respirar ou concatenar um pensamento a outro e nem posso me lembrar do motivo de estarmos aqui e não consigo manter os olhos abertos, mas então vem a aula das Sandra às nove e meia e depois os e-mails para redigir e toda aquela história para acertar com a Suzi e o cãozinho para alimentar (de novo) e então, e então, e então são dez da noite e tenho de tomar banho e dormir e dormir, porque devo falar com “el Noruego” às seis da matina e nada, nada, nada além disso me espera. Ligue para mim dizendo no todo está perdido, embora nós dois estejamos cientes de que está sim. Digite meu número momentos antes de chegar em casa e fale comigo apressado e aflito enquanto sobe os degraus. Desligue bruscamente antes de pousar a mão na maçaneta e sorria como se nada tivesse acontecido, porque sabemos, realmente não aconteceu. Ligue para mim para rasgar meu coração, para me dar a mais terrível das notícias sem perceber que o fez, ou percebendo, nem sei o que é pior, o que dói mais, e continue falando e falando e falando até eu desligar o telefone na sua cara no meio do “recomendações à senhora sua mãe”, porque, sinceramente, eu precisava gritar no travesseiro. Ligue para mim e seja cruel, seja muito, muito cruel, diga coisas malvadas enquanto franze a testa despreocupadamente e fala da peça e comenta sobre o clima e lamenta que Ipanema não mais seja só felicidade. Ligue para mim. Ligue para mim quando eu não for convidada. Ligue para mim e faça um relatório da vida que eu poderia ter e jamais tive. Ligue. Ligue. Mantenha-me informada da minha dor, da sua alegria, ligue para mim. Ligue para mim quando eu não quiser falar com você e nunca quero e sempre quero. Ligue para mim e cante uma musiquinha em castelhano no meu aniversário, ligue para mim quando for tarde demais para que qualquer atitude seja tomada, ligue para mim quando eu descobrir que meu irmão me odeia. Ligue para mim quando houver luz demais, quando a barulheira da madrugada não permitir que qualquer um de nós durma, quando eu entender que não importo para ninguém. Ligue, ligue para mim quando meu telefone estiver descarregado, quando eu não puder fazer qualquer coisa por quem quer que seja, quando o Paulinho da Viola fizer você chorar com soluços altos, quando tudo estiver perdido. Ligue para mim quando tudo estiver perdido. Quando houver sangue na calçada, no poente, em suas mãos. Quando a perda for irrevogável, quando você não puder mais me suportar sequer por um segundo. Ligue para mim.

DropsdaFal_DomingoCaderninho

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Ainda é manhã de terça-feira, Batman.

Alguma coisa tem me incomodado profundamente. Nem estou falando do Brasil, porque o Brasil e eu desistimos um do outro faz tanto tempo. Num universo minúsculo, caseiro, pessoal e absolutamente limitado, tenho me sentido incomodada. Como se a gola da vida raspasse em meu pescoço. Meu blog. Meu blog tem me incomodado profundamente. As coisas que digo me incomodam. As escolhas que fiz. Que faço. Seu nome na boca de pessoas que eu nem gosto tanto assim? Me incomoda demais. Os horários. Os horários me incomodam. As mudanças. Alterações. A enorme quantidade de coisas em que devo me concentrar me incomoda muitíssimo. Não enxergar o essencial? Ah, incomoda sim. Velhos refrões, jargões e frases cretinas de propagandas dos anos 1990 me incomodam como se fossem moscas azuladas nojentas. Não me lembrar quando foi a última vez que nos vimos me incomoda demais. Quase certeza de que foi na casa dos amigos. Foi? Eu não me lembro. As coisas que não mudam me incomodam tanto quanto as que mudam. O momento da revelação. Amizades terceirizadas. O lacre da garrafa de leite. As garantias, a falta delas. Os vasinhos novos dos cactus. A inclusão dos outros na história. Os barquinhos. Palavras que não são minhas me deixam sem voz. Ando triste e cansada E sem voz. E incomodada.

Domingo Caderninho

Gata na prateleira, aguinha de laranja, um olho na Ana, outro na Suzi, série de zumbi-engraçadinho rolando na tevê, trabalhando.
Existem domingos melhores, eu sei, mas já tive domingos bem piores.
Bem mesmo.


#DropsdaFal_DomingoCaderninho

Um Coltrane da Flavia Penido, uma Maliu esotérica numa república morta

Achei um “menta-alecrim” bão de substituir o Bulgari de limão que não fabricam mais. Não que eu fosse ter grana prum Bulgari a essa altura da minha assustadora vida financeira, mas né.

Enfim, ganhei um vidro da minha educadíssima anfitriã e agradeci porque também sou algo educada, mas sem esperança em meu coração calejado pela dor e saudade de meu amado Bulgari Vert. Porém, contudo, todavia, eis que com garbo e elegância ranco a tampa e, voilà, é um cítrico muitíssimo digno. Eita Granado que não nos falha.

*

Aquele amigo que vai embora sem se despedir. Não somos (ou, pelo menos, eu não sou, malandragem) dignos da despedida, da atenção, do gesto, da delicadeza do “Meu bem, chegou a hora, adeus”.

“Já bebi, já comi, quiéquieu tou fazendo aqui?”, nos ensinava a declamar o nosso bárbaro pai ante o olhar horrorizado de nossa mãe, a grega.

Num determinado momento da noite, você olha em volta e quedê o amigo, o motivo – não raras vezes – de você estar ali naquela balbúrdia (olááááá, desgoverno brasileiro), cercada de gente que você gosta-mais-ou-menos (bem feito), de rímel, cinta, sutião MASP e, Deus que me perdoe, corretivo.

Sim, ele foi embora e inda te restam horas de socialização. Graçadeus que egípcios e mesopotâmicos e os caras espertos que vieram antes deles inventaram o álcool.

Me lembrei disso porque esse sábado tive a oportunidade de ver uma moça – que nao é minha amiga, só conhecida de olás – passar por isso. Dessa vez, eu era a balbúrdia, o povaréu, as gentes de quem ela não gosta, o pano de fundo que justificou que ela enfrentasse spandex, salto e sombra com glitter para se encontrar – com o coração aos pulos – com um lamentável e emasculado primata. Me vi de fora da cena e doeu para caráleo, torcida brasileira. Ele chegou, foi simpático com ela por bem uns douuuze segundos, se afastou, circulou por umas cinco rodinhas de parvos e zás, foi-se, desaparecido no éter. E eu, na encolha, covardemente testemunhei o e-x-a-t-o momento em que ela se deu conta de que ele tinha ido embora sem se despedir. Protagonizei a mesma patetice umas duas ou três vezes em bares d’outrora, quero acreditar que para nunca mais. Se ela reclamar com ele amanhã (cabe aqui um imenso “se”, além da nossa proverbial covardia, realmente cremos não ter esse direito), ele vai dizer que a. foi distração b. não queria incomodá-la, ela parecia tão feliz com os outros amigos c. ele teve uma semana infernal, blablablá, estilo “filha, você teve sorte de eu ter aparecido”.

Não confirmo e não nego que umas lagriminhas me assombraram quando vi a cena. Eu devia ter sido uma pessoa melhor, ido até ela e dito alguma coisa do tipo “Querida, é um covarde, parta para outra, ou, se você estiver na mesma situação que eu, para nenhuma”, mas já contei que sou uma covarde. Catei minha linda (linda, linda) bolsa, acenei pro meu amigo carona, um gesto sutil e doce e meigo e discreto que quer dizer mais ou menos “Vamos embora daqui, caralho” e, indo até ela, passei a mão em suas costas e disse: “Minha querida, preciso voltar para São Paulo, mas não podia ir sem me despedir” – porque posso não ser boa, mas não fui criada por lobos.

Identificação, sua danadinha.

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A Flavia Penido ensinou a fazer download do Coltrane e agora preciso urgentemente que Leandro&Leonardo arrume meu celular preu entupir minha Barbie Fada com o som do velho. Não quero mais ouvir tracousa.

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Alexandre adorava Djavan. Como é que pode, né gente? Um homem culto daqueles? Poeta maravilhoso, ouvido absoluto, cheio de delicadezas. E adorava Djavan, meu Deus do céu. De quando em vez, a Verô e eu paramos para nos lembrar disso, para nos abraçar e rir da cara dele. Djavan, puta que pariu.

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O frio voltou. Sequer tenho palavras para agradecer pelo momento. Estou usando duas meias em cada pé, calça de lã e camisa de lenhador. Camisa xadrez, em mulheres da minha feiura, costuma ser um atentado estético, mas no inverno, podemos. No inverno e na casa vazia, evidentemente.

Bebo chá mate morno com leite, vestida como uma mendiga e feliz como uma… o que é feliz, ainda, neste mundo horrendo? Bem, seja lá o que for, neste frio sou feliz como essa coisa feliz que desconheço.

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A república acabou. Minha mãe me perguntou quando cheguei se podemos chamar de ditadura ou se inda tem algum protocolo a ser seguido antes da liberação do termo. Ela enfrentou uma. Foi espancada e quase morreu.

Maliu reconhece cada sinal e tem cantado antecipadamente cada passo dessa gente escrota com semanas de antecedência. Chegada fosse a uma picaretagem, podia abrir um express do “Mãe Maliu: presente, passado e futuro” e ganhar uma grana com seus poderes premonitórios.

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A casa tem dado de dez a zero em mim e não é de hoje. Impraticável chamar gente aqui pura e simplesmente porque não dou conta. De gente, da casa, de mim. Aprender a desamar aos cinquenta, senhores, é coisa que não recomendo. Sofremos mais do que adolescentes e não temos ninguém para preparar nosso jantar.

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Tenho uma médica daquelas chegadas à sinceridade. Ela me aconselhou a fazer planos de oito meses no máximo. E eu adoro gente assim, que chega e “Pá!”. Ao menos quando dentro dum consultório.

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Curto a segunda temporada de Trapped com moderação que é para fazer durar. No intervalo vi Case, excelente e que, ora, tinha escapado do meu radar.

Os muitos nadas dessa vida

O erre do meu computador está emperrado. Como se minha digitação claudicante precisasse de mais boicote.

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Admitir em voz alta “não vou dar conta de tudo” é horrível, mas libertador.

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Estou dopando meu joelho. Dane-se.

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Conversa com J. Ele está em busca do tom exato pro texto exato, e essa é uma busca que sempre me comove. Falei com ele sobre leitura em voz alta e matraqueei sem parar sobre registro. Registro, registro, sou um disco riscado, a agulha pula e volta pro mesmo lugar.

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Programas de decoração. O youtube é um ninho deles. Eu, que mal ponho as lombadas dos livros pro lado certo, sou fascinada, sabe-se lá o motivo. O tom certo de cinza pra parede da cozinha alheia me consome. Vou montar um grupo de ajuda muito específico: Viciados em programas de decoração e em analgésico pro joelho e bagunceiros procrastinadores compulsivos anônimos. Serei o único membro, mas Chico, o gato, vai frequentar em solidariedade.

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“Olá, notamos que você tem um bloqueador de anúncios! Desabilite, para ter acesso às dez matérias desbloqueadas por mês e…”

Enfia essa reportagem no seu cu.

Grata.

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O décimo homem, na Netflica. Que filme maluco da caralha. Adorei, adorei.

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O melhor que podemos fazer uns pelos outros é não nos conhecer muito bem.

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A pessoa não sabe o que quer, mas espera que você não apenas saiba o que ela quer, mas faça do jeito que ela faria se soubesse o que quer.

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Depois de tantos, tantos anos no mesmo esquema, nossa romancista não sabe bem o que escrever quando não é para o seu olhar.

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Tenho quase cinquenta anos e minha mãe vai ao mercado e compra iacúlti pra mim. Eu me envergonho disso? Não.

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Tem coisa mais patética do que achar que o recado, a fofura, a graça, a foto, o comentário eram para você e descobrir que não, não eram? Até tem, assim, na vida em geral, mas no momento particular da descoberta, não, não tem. A pessoa só quer morrer.

Joelho, uma nova turma e a fronha azul em: querido diário

Inventei novas personagens, uma outra turma. Falta registrar e depois enlouquecer a pobre da Suzi com meus desenhos lamentáveis.

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Tenho aconselhado – com ar seríssimo e voz de óculos-na-ponta-do-nariz, que as pessoas façam diários, anotações diárias da própria vida, que registrem, registrem. Devo seguir meu próprio conselho, portanto, mas ui que a vida é um sem-fim de chatices e coisiquitas e aiaiais e o dia passa e o caderno não é aberto e sinto vergonha de mim mesma.

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Uma casa, falando em detalhes, chatices e sem-fins, é um não acabar de bagunças e coisas-não-feitas e banheiros que precisam de reforma e camas que depois, só depois, da troca de lençol descobre-se: uma fronha sumiu. Uma. A cama ali, linda e combinante e uma maldita fronha desapareceu. E não há a quem culpar além de você.

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A pessoa não dá um centímetro de satisfação e finge, com graça, que está fazendo um favor a você quando escuta um “e aí, meu bem?”.

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Não vai ter uma sexta temporada de Z Nation e eu lamento demais. O fim da 5ª tempô ficou uma chatice.

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Joelho, essa coisa frágil e tola, está dando defeitos inimagináveis.

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Programas de decoração. Que vício, que vício.

Domingo-caderninho

Gata na prateleira, aguinha de laranja, um olho na Ana, outro na Suzi, série de zumbi-engaçadinho rolando na tevê, trabalhando. Existem domingos melhores, eu sei, mas já tive domingos bem piores. Bem mesmo.

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A paixão longa e sofrida é substituída por uma amizade sem graça e vã, do tipo em que o silêncio se faz não por excesso de intimidade, mas por total falta do que dizer. E qualquer comentário idiota, megalômano, babaca e descuidado faz você chorar até ficar sem respiração.

Não recomendo.

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Chuva, finalmente. O Brócolis não via chuva há muito tempo. Espero que esfrie, espero que melhore, espero que exista. Espero existir.

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Saber que existem opções. Talvez você não possa elegê-las, talvez não queira tomá-las, talvez nem lhe sirvam. Mas estão lá as opções. Fui lembrada disso agora à tarde, em meio a um trabalho insano. Há opções.

*

Fui chama de “querida”, “amiga querida” e “querida amiga” na mesma semana. Evidentemente eu mereço.

*


Durante a semana, tirei do lugar uma prateleira e seus respectivos livros, que não saíam dali há onze anos e pouco. Tudo bem, um livro ou outro de quando em vez sai dali e depois volta, mas não todos, não ao mesmo tempo. Um pó cinzento e espesso se gruda aos muitos panos molhados que foram necessários para limpá-la. Dez anos de poeira e poluição. O dia que essa prateleira foi posta no lugar, dois ou três dias antes de eu me mudar para cá, foi o dia em que arrumei ali meus livros. Minha vida tinha mudado enormemente e eu arrumei ali livros, um ao lado do outro, como se estivesse tudo tranquilo e eu soubesse exatamente o que fazia. A vida muda de novo agora e inda não sei o que estou fazendo.

*

“Caso você se esqueça, olhe pela janela”, acaba de dizer minha amiga mais sábia.

Mas não hoje

O mundo-lá-fora, aquele lugar tão esquisito. Tem pessoas lá, e elas fazem coisas. Jamais entenderei.

*

“Você se sente feliz por estar viva, não é?”. As pessoas falam assim na vida real. Bão, algumas. Só olho prelas, cara meio abobada, e aceno vagamente com a cabeça. Nem sei por onde começar, amiga.

*

Tem cachorro-quente no mundo lá fora. Ponto pro mundo lá fora. Não consegui comer, virei uma dessas velhinhas ridículas que ficam enjoadas com qualquer coisinha, mas foi muito bom ver outras pessoa pedindo para colocar mais purê aí, tio e comendo seus lanches.

*

O mundo lá fora tem pessoas que pedem seus números: de casa, do documento e da carteirinha. Ah, e do telefone. E de não sei mais quê. E da guia. Sério? Reedito minha cara de tonta porque, gente. Não sei coisa alguma, amiga. E nem tou fazendo gênero, eu não sei mesmo.

*

Por algumas horas sem chave, sem carteira, sem celular. Não nego que é das coisas mais agradáveis.

*

Se eu tivesse dinheiro (é o que vivo dizendo), viveria numa cidade minúscula, minúscula e numa casa longe, longe. Mesmo que isso significasse que eu ia precisar ter um carro de novo. Andando por São Paulo, sempre relembro do motivo de meu desejo. Que horror, que horror. Sei que não é moderno e correto achar São Paulo um pavor, “a gente tem que amar a cidade da gente” e blablablááááá, mas Jesus, que horror. Alguém ganha logo na loteria e me salva, por favor.

*

Minha unhas estão roídas até o impraticável. Todas têm sangue nos cantinhos e a ponta de cada um de meus dedos lateja loucamente. Lavar a cabeça de noite vai ser uma aventura no reino da dor. Um dia desses será hora de eu parar de me punir. Mas não hoje.

Um Saturno definitivo

Bancos de imagens, a tinta na pele dos outros, ideias vagas,
velhas gravuras, rascunhos, “Fulano tem o braço fechado, pede a ele uma opinião”, antigas fixações. Roubei até um gatinho da Iara. E a conclusão é sempre a mesma, a única coisa que posso suportar em mim é você.

#domingo-caderninho

Tintureiro blues



W., quase tudo, sempre. Sherlock Holmes, livros de paleontologia de meu pai, você trabalhando em silêncio comigo no skype de microfone aberto, como se fosse na mesma sala, mas eu não tenho que pentear o cabelo. Ricota, salsinha, melão. Brigadeiro, jabuticaba, limão. Pilhas AAA, peça pro DVD, mil saquinhos de cravo. Chuva, não muita. Calor, muito. Dor no coração. Fones, lenços, um presente para o Tavo. Falta do que não existe, como escreveu a moça, aquela, sobre a eterna ausência que está lá. Célia, esmalte, um livro do Almeida Reis. Cigarros, brinquedos para o gatinho. Saudade de você. Doces no japonês. Caramelos. Recarregador do celular que some, que reaparece, que some, que some. Tradução de cenas que fariam corar um fiscal de saúde pública. Viúvas idosas e senis não deveriam sequer ler, que dirá traduzir tais coisas. Você cantou para mim no dia do meu aniversário e eu chorei em silêncio com a boca no telefone. Mouse vermelho quebrado, água tônica gelada, filme do Toranques dez mil vezes por dia. A promessa de um almoço dia 9, com abraços e suspiros. Tintureiro (quem me vê escrevendo procê, W., vai logo pensar que vivo em bailes, reparou que sempre te conto que tou, fui ou vou ao tintureiro?). Frases novas do velho Frost, porque sem ele não dá nem para começar, como me lembrou  V. Rugas nos cantos dos meus olhos, manchas senis, poros aberto, um inventário de fatalidades. Choro no travesseiro de quando em vez, de manhã finjo que não. Choro no ônibus, três dias atrás, uma senhora gorda (nós duas naquele banco era coisa de se ver), parecida com minha Dada, colocou a mão sobre a minha na Paulista e só tirou na Estação São Judas. Descemos, ela perguntou se eu ia direito para casa, e eu menti que sim. Ela fez um sinal da cruz na minha testa. Quando estranhos piedosos começam a encomendar sua alma numa calçada imunda da avenida Jabaquara é hora de deixar os negócios em ordem. Esperei que ela descesse a escada no metrô. Cirurgia na gata, banho no cachorro. Um tinteiro de cristal. Relógio. Falei da água tônica? Falei da dor no coração? Me dá pela milésima vez seu celular e me diz que posso ligar uma vez a cada morte de papa na hora do seu almoço (se é que vocês, os guerreiros da liberdade, almoçam).

*

Nunca liguei. Nunca. Quer dizer, liguei sem querer, meio tropeçando, descendo a escada de soquinhos, carregando celular, três canecas e o restinho da minha dignidade, batendo nos móveis, tropeçando nas flores do tapete, protagonizando cenas de humor físico que fariam o velho e bom pai Freud reescrever uns três ou quatro livros. Mas nunca liguei de propósito. Gosto de dizer que era “medo de incomodar”, mas ambos sabemos, era medo da inevitável rejeição.

Nunca liguei, mas escrevi para você. Por anos.

Teve um tempo em que eu escrevia para você, como se isso fosse uma coisa que alguém como eu pudesse fazer. Hoje, a consciência da minha falta de noção naquela época me faz encolher os dedos dos pés. Eu não enxergava o ridículo, mesmo, nunca me dei conta.

Eu tinha um apelido pra você naquele tempo, devidamente roubado pelo ladrão de biografias, um apelido que deixei de usar no mesmo instante em que notei o latrocínio. Agora você é W., um codinome de espião da Segunda Guerra, não parece? .


Mudei a trilha sonora do blog, mudei seu nome na lista do gerenciador (o único ato de rebeldia que posso bancar no momento), mudei a eterna cor do esmalte e o lugar da cama do cãozinho. Chegou a hora de produzir ficção, diria um velho treinador de textos que tive há muito tempo. No meu caso, chegou a hora de produzir uma ficção que não envolva você e as coisas que escrevi para você.


foto de: Ferdinand Schmutzer, 1905 . Como sempre, desconhecemos o nome da modelo. Pra que saber o nome da mulher, né, gente. Se alguém souber, me ensina.




Bom dia, seus lindos.

Ela, sim, a semana, começou.

E nós, sim, você e eu, começamos também.

Vamos ver que surpresas o país governado pelo twitter nos trará essa semana.

Coragem, gente. Muita.