Os muitos nadas dessa vida

O erre do meu computador está emperrado. Como se minha digitação claudicante precisasse de mais boicote.

*

Admitir em voz alta “não vou dar conta de tudo” é horrível, mas libertador.

*

Estou dopando meu joelho. Dane-se.

*

Conversa com J. Ele está em busca do tom exato pro texto exato, e essa é uma busca que sempre me comove. Falei com ele sobre leitura em voz alta e matraqueei sem parar sobre registro. Registro, registro, sou um disco riscado, a agulha pula e volta pro mesmo lugar.

*

Programas de decoração. O youtube é um ninho deles. Eu, que mal ponho as lombadas dos livros pro lado certo, sou fascinada, sabe-se lá o motivo. O tom certo de cinza pra parede da cozinha alheia me consome. Vou montar um grupo de ajuda muito específico: Viciados em programas de decoração e em analgésico pro joelho e bagunceiros procrastinadores compulsivos anônimos. Serei o único membro, mas Chico, o gato, vai frequentar em solidariedade.

*

“Olá, notamos que você tem um bloqueador de anúncios! Desabilite, para ter acesso às dez matérias desbloqueadas por mês e…”

Enfia essa reportagem no seu cu.

Grata.

*

O décimo homem, na Netflica. Que filme maluco da caralha. Adorei, adorei.

*

O melhor que podemos fazer uns pelos outros é não nos conhecer muito bem.

*

A pessoa não sabe o que quer, mas espera que você não apenas saiba o que ela quer, mas faça do jeito que ela faria se soubesse o que quer.

*

Depois de tantos, tantos anos no mesmo esquema, nossa romancista não sabe bem o que escrever quando não é para o seu olhar.

*

Tenho quase cinquenta anos e minha mãe vai ao mercado e compra iacúlti pra mim. Eu me envergonho disso? Não.

*

Tem coisa mais patética do que achar que o recado, a fofura, a graça, a foto, o comentário eram para você e descobrir que não, não eram? Até tem, assim, na vida em geral, mas no momento particular da descoberta, não, não tem. A pessoa só quer morrer.

Joelho, uma nova turma e a fronha azul em: querido diário

Inventei novas personagens, uma outra turma. Falta registrar e depois enlouquecer a pobre da Suzi com meus desenhos lamentáveis.

*

Tenho aconselhado – com ar seríssimo e voz de óculos-na-ponta-do-nariz, que as pessoas façam diários, anotações diárias da própria vida, que registrem, registrem. Devo seguir meu próprio conselho, portanto, mas ui que a vida é um sem-fim de chatices e coisiquitas e aiaiais e o dia passa e o caderno não é aberto e sinto vergonha de mim mesma.

*

Uma casa, falando em detalhes, chatices e sem-fins, é um não acabar de bagunças e coisas-não-feitas e banheiros que precisam de reforma e camas que depois, só depois, da troca de lençol descobre-se: uma fronha sumiu. Uma. A cama ali, linda e combinante e uma maldita fronha desapareceu. E não há a quem culpar além de você.

*

A pessoa não dá um centímetro de satisfação e finge, com graça, que está fazendo um favor a você quando escuta um “e aí, meu bem?”.

*

Não vai ter uma sexta temporada de Z Nation e eu lamento demais. O fim da 5ª tempô ficou uma chatice.

*

Joelho, essa coisa frágil e tola, está dando defeitos inimagináveis.

*

Programas de decoração. Que vício, que vício.

Domingo-caderninho

Gata na prateleira, aguinha de laranja, um olho na Ana, outro na Suzi, série de zumbi-engaçadinho rolando na tevê, trabalhando. Existem domingos melhores, eu sei, mas já tive domingos bem piores. Bem mesmo.

*

A paixão longa e sofrida é substituída por uma amizade sem graça e vã, do tipo em que o silêncio se faz não por excesso de intimidade, mas por total falta do que dizer. E qualquer comentário idiota, megalômano, babaca e descuidado faz você chorar até ficar sem respiração.

Não recomendo.

*

Chuva, finalmente. O Brócolis não via chuva há muito tempo. Espero que esfrie, espero que melhore, espero que exista. Espero existir.

*

Saber que existem opções. Talvez você não possa elegê-las, talvez não queira tomá-las, talvez nem lhe sirvam. Mas estão lá as opções. Fui lembrada disso agora à tarde, em meio a um trabalho insano. Há opções.

*

Fui chama de “querida”, “amiga querida” e “querida amiga” na mesma semana. Evidentemente eu mereço.

*


Durante a semana, tirei do lugar uma prateleira e seus respectivos livros, que não saíam dali há onze anos e pouco. Tudo bem, um livro ou outro de quando em vez sai dali e depois volta, mas não todos, não ao mesmo tempo. Um pó cinzento e espesso se gruda aos muitos panos molhados que foram necessários para limpá-la. Dez anos de poeira e poluição. O dia que essa prateleira foi posta no lugar, dois ou três dias antes de eu me mudar para cá, foi o dia em que arrumei ali meus livros. Minha vida tinha mudado enormemente e eu arrumei ali livros, um ao lado do outro, como se estivesse tudo tranquilo e eu soubesse exatamente o que fazia. A vida muda de novo agora e inda não sei o que estou fazendo.

*

“Caso você se esqueça, olhe pela janela”, acaba de dizer minha amiga mais sábia.

Mas não hoje

O mundo-lá-fora, aquele lugar tão esquisito. Tem pessoas lá, e elas fazem coisas. Jamais entenderei.

*

“Você se sente feliz por estar viva, não é?”. As pessoas falam assim na vida real. Bão, algumas. Só olho prelas, cara meio abobada, e aceno vagamente com a cabeça. Nem sei por onde começar, amiga.

*

Tem cachorro-quente no mundo lá fora. Ponto pro mundo lá fora. Não consegui comer, virei uma dessas velhinhas ridículas que ficam enjoadas com qualquer coisinha, mas foi muito bom ver outras pessoa pedindo para colocar mais purê aí, tio e comendo seus lanches.

*

O mundo lá fora tem pessoas que pedem seus números: de casa, do documento e da carteirinha. Ah, e do telefone. E de não sei mais quê. E da guia. Sério? Reedito minha cara de tonta porque, gente. Não sei coisa alguma, amiga. E nem tou fazendo gênero, eu não sei mesmo.

*

Por algumas horas sem chave, sem carteira, sem celular. Não nego que é das coisas mais agradáveis.

*

Se eu tivesse dinheiro (é o que vivo dizendo), viveria numa cidade minúscula, minúscula e numa casa longe, longe. Mesmo que isso significasse que eu ia precisar ter um carro de novo. Andando por São Paulo, sempre relembro do motivo de meu desejo. Que horror, que horror. Sei que não é moderno e correto achar São Paulo um pavor, “a gente tem que amar a cidade da gente” e blablablááááá, mas Jesus, que horror. Alguém ganha logo na loteria e me salva, por favor.

*

Minha unhas estão roídas até o impraticável. Todas têm sangue nos cantinhos e a ponta de cada um de meus dedos lateja loucamente. Lavar a cabeça de noite vai ser uma aventura no reino da dor. Um dia desses será hora de eu parar de me punir. Mas não hoje.

Um Saturno definitivo

Bancos de imagens, a tinta na pele dos outros, ideias vagas,
velhas gravuras, rascunhos, “Fulano tem o braço fechado, pede a ele uma opinião”, antigas fixações. Roubei até um gatinho da Iara. E a conclusão é sempre a mesma, a única coisa que posso suportar em mim é você.

#domingo-caderninho