Brindando no Moinho Vermelho

por Lucas Pedroso

Quando recebi a incumbência de criar um coquetel em homenagem a Lautrec, logo descobri que já existe um, o Earthquake, que leva absinto e conhaque (bendito Google que tudo sabe, tudo vê). No entanto, tomar o caminho fácil de reproduzir este clássico seria de mau gosto, pois o absinto remete ao alcoolismo deste gênio, que levou à sua morte precoce. Pensei então em criar algo que celebrasse sua obra, e assim o fiz.

Decidi por algo vermelho, a ser batizado Moulin Rouge. Ato contínuo, pesquisei por ideias e descobri que, não surpreso, diversas criações já têm este nome (maldito Google que tudo sabe, tudo vê). Bem, não importa. Este é o Moulin Rouge do Drops, exclusivo para quem tiver a paciência de me acompanhar.

É difícil falar em bebida vermelha e não pensar em Campari. Uma característica deste aperitivo é seu amargor, este propositalmente colocado pois, se por um lado não quis ressaltar as desventuras de nosso homenageado, não há como ignorá-las. A quantidade de Campari deve ser ponderada de modo que, como na vida, o amargor não seja intenso a ponto de tirar a vontade de brindar e festejar. O uso do açúcar queimado e do cravo foi uma tentativa, ingênua talvez, de colocar um toque de charuto, ao que deveria cheirar o Moulin Rouge à época. O Cointreau não está aqui apenas pelo nome francês, senão por sua doçura e inconfundível sabor de laranja. A água de rosas é o toque final, que trouxe o feminino quase onipresente na obra de Lautrec. Sim, há sempre o perigo de deixar o coquetel com gosto de sabonete. A sedução tem limites, queremos ser sexies sem sermos vulgares. É evidente que este ingrediente é opcional mas, se for omiti-lo, tenha a decência de não decorar o drinque com uma pétala de rosa.

É importante relatar que testei uma outra versão para o coquetel, na qual substituí o chá de hibisco e a água de rosas por morangos macerados no açúcar. Neste caso, é importante coar o líquido escarlate antes de passá-lo para a taça, de preferência em um chinois para que todas as sementinhas fiquem retidas e também para aumentar a francofonia da experiência. Este coquetel ficou, vá lá, mais saboroso e menos ousado, além de algo como leve demais, e talvez por isso tenha fugido demais do tema. Ainda assim me comprometo a fazê-lo em casa para os amigos que quiserem. Uma terceira versão, com suco de uva e cardamomo, ficou também muito saborosa e gerou uma foto lindíssima, mas ficou mais pra Pourpre que pra Rouge, estando assim desclassificada.

Peço desculpas por ter sido tão óbvio em minhas referências à vida e obra de alguém tão genial. Sou dos números e não das letras e, por isso, ironicamente, sou literal demais.

Foto de Fernando Passarini

Segue, por fim, a receita do coquetel. Santé!

Moulin Rouge

20ml de Campari
60ml de gim
20ml de Cointreau
45ml de chá de hibisco com um toque de cravo adoçado com açúcar queimado
Gotas de água de rosas (algo como meia colher de café)

Sacudir todos os ingredientes em coqueteleira cheia de gelo e coar em uma taça.

Lucas Pedroso é doutor em Matemática Aplicada. Não que importe, mas é a isso que se resume seu currículo. De típica personalidade taurina, não acredita em signos. Consegue discorrer sobre qualquer assunto por não mais do que três minutos.

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