A vida cotidiana, essa fonte de lugares-comuns, chatices e horrores

Deus abençoe meu retraimento, minha desconfiança e minha timidez. Não necessariamente nessa ordem.

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Brasil, tem quase dois meses que você se livrou do socialismo cruel, tá se sentindo melhor, amole? Mais free, mais fresh, mais in, mais cool?

Tá bão.

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Leite em pó. Que morte horrível. O problema com leite continua nessa casa. Um litro – agora que Maliu não pode mais beber leite – é coisa demais pra mim, estraga direto, preciso de um tico no meu café com leite matinal e fim… Mas leite em pó nem pensar. Que troço odiento.

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Segunda temporada de La trêve. Então. Não é a batatinha mais crocante do pacote, mas né, estou esperando pela nova temporada de The west wing, pela nova temporada de Mash.

Os livros, a vida, os bilhetes de amor

É todo mundo da turma do Wolverine, né migos, cheio de poderes do pensamento.Geral garantindo que se pensar com vontade, pá, acontece. Geração Lua-de-Cristal.

Não tenho mais condições.

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Os livros estão chegando na casa de seus respectivos donos, o que me deixa muito feliz. E aliviada.

E, claro, vaidosa.

(quer? comoensinarumidiotaadancar@gmail.com )

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Se tem uma coisa que sei fazer nessa vida é receber recado. Você sabe, meus superpoderes.

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Tomei uma bomba pra alergia misteriosa que, olha, benza Deus. Tou parecendo uma fruta-do-conde.

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Tenho tanto trabalho para amanhã, que tou até com vontade de chorar. As pessoas são muy custosas, já nos ensinou Erico Verissimo.

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Viagem para Curitiba adiada pela terceira vez. Não vou comentar.

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Só. Cama. Donde sairei às cinco da manhã, você acredita se quiser.

(fotos de Mariana Aldrigui, a quem agradeço)

Fevereiro de 2019

Dani querida:
Tenho pensado muito em escrever. Não exatamente no que eu vou escrever e sim no ato de escrever.
Escrever é registrar.
Registrar é olhar em volta ou para dentro e ver e observar e analisar e sentir e perceber e conjecturar e projetar e racionalizar e enumerar e resumir e narrar e repetir-para-elaborar e planejar e compor planos mirabolantes, resenhas infernais, súmulas inquietantes, relatos coloridos, listas comoventes.
Registro é o que nos define. Somos os caras que registram. Antes da escrita registramos escavando ossos e desenhando nas paredes de cavernas e nas superfícies das rochas, espalhando flores em torno dos corpos sepultados de nossos entes queridos, produzindo utensílios e tratando peles de animais. Depois da escrita, inventando símbolos, alfabetos rebuscados, tomos e mais tomos gramaticais e regras ilógicas sobre o uso do hífen em plaquinhas de argila, pergaminhos e papel de carta da Hello Kitty.
Somos os caras que registram com nossos celulares, nossas publicações independentes, nossos sites e nossa indignação seletiva aqui e ali na rede social.

“Quem são esses aí?”, vai perguntar alguém de passagem pelo planeta.
“São os caras do registro”, vai responder o outro E. T. 
“Eles relatam o que veem e sentem, eles anotam e desenham, costuram e modelam, escrevem e solfejam, pintam as paredes mesmo sabendo que vão apanhar quando pai chegar em casa. Eles fotografam o risoto feio para o Instagram, gravam áudios de oito minutos para a Mariana, guardam o sapatinho do bebê para que gerações e gerações tenham acesso a ele, produzem livros, colam recortes em caderninhos fofos, sobem cartas de amor para a nuvem, escrevem recados dolorosos enquanto ouvem o coração trincar e a chuva cair no meio da madrugada”.
Escolha uma coisa, Dan, uma coisa perto de você e registre. Do jeito que você puder ou quiser. Com palavras, imagens, desenhos ou voz (vamos evitar, por enquanto, os ossos entalhados, meu bem).
Faça seu registro, mande para mim.
Vamos começar hoje as nossas aulas de redação?
Fal

Fevereiro de 2019

Pergunta, chuva e um hambúrguer quase tão gostoso

Chuva, finalmente. Faz mais de uma hora que um véu de água cobre a vista (hahahaha, eu sou uma graça) da minha janela.

Parecia que não chovia há meses, mas não, faz só uma semana que choveu. 

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Faz calor, minha pele arde. E coça. Não consigo colocar em palavras como me sinto mal no verão. 

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A Luciana perguntou na outra rede “você tem fome do quê”, e como a resposta verdadeira era ridícula de sem noção, respondi que era do meu divinal hambúrguer caseiro. Se você lesse, aqui ou lá, suspiraria de alívio.

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Preciso arrumar livros e roupas, cadernos e trecos (Deus, como tenho trecos). Separar o maravilhoso do trivial e do ruim é uma caminhada de anos e anos.

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O mundo acabando e os garotos se beijando no corredor. Tem uns filmes que juro por Deus.

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Dou aula em menos de cinco horas. A aula está preparada? Não.Eu estou preparada? Claro que não.

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A semana no Brasil foi surreal, por que só eu preciso fazer sentido?

Fevereiro de 2019

Netos, distância, cacau, livros, vento, maionese, musiquinha, braço, literatura, ideia, comentário e café

Vento. Não ventania, mas vento. Pode ser que tenhamos chuva. Meu amor agarradinho segue firme na floreira 1, nem tão firme na floreira 2. 

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Eu me mudei para essa casa em 2008 e que verão infernal foi aquele. Mas esse aqui está pior. Ou estou mais velha e frágil, pode ser. Não me lembro de sentir tanto calor, de sentir tanto cansaço. Reclamei com C., que me consolou dizendo que o Brasil não ajuda. E não, não ajuda.

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Na teoria, afastar-me de W. é o certo: distância, distância. Na prática, não sei, não. Dói que é um desespero e não me parece estar melhorando a situação geral. Não paro de doer, pensar nele, choramingar e odiar todo mundo. Talvez o que precisássemos fosse exatamente o contrário: uma semana em Penedo para descobrirmos, inventariarmos e registrarmos todos os defeitos um do outro: as falhas de caráter, os desvios de rota, as manias, as chatices, os gestos esquisitos. Mas, Deus, quem iria querer passar uma semana comigo onde quer que fosse? Ninguém. 

Não tenho mais idade para passar por uma coisa dessas, em verdade vos digo. 

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Como não tive filhos, não terei netos. Pelo que posso ver nos poucos amigos que já são avós (não é que poucos dentre meus amigos sejam avós, os amigos é que são poucos), os netos substituem com grandes vantagens um derradeiro amor. Eu devia mesmo ter desovado uma ou duas criancinhas enquanto um homem me amou, enquanto tive uma vida que permitia. Agora seria só questão de tempo esperar que eles se reproduzissem e me dessem, de presente, uma maquininha de abraços.

Apesar das graças e da voz tatibitate, gatos não tapam buracos, nem jardinagem. Nem literatura, por falar nisso. Um neto, talvez, pudesse me salvar dessa situação patética.

Calor incontrolável, governo ridículo, dor no coração: que verão estúpido.

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Respeito loucamente quem fica discussão de que chocolate é mais puro, que não-sei-que-marca-tem-não-sei-quantos-por-cento-de-cacau, que os belgas isso, que blablablá, que o chocolate da padaria é gordura hidrogenada, açúcar e veneno. Respeito, esse pessoal sabe muito mais do que eu. Bom, não que saber mais do que eu sobre qualquer assunto signifique alguma coisa, sou duma burrice comovente em todas as áreas. Mas, enfim, eles sabem

Isso posto, a coisa é que desejo comer uma enorme barra de Prestígio bem devagar. Cada pedacinho se dissolvendo em minha boca. Só isso mesmo.

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Gente que acorda e precisa ficar em silêncio, tomando café preto e pensando na finitude humana e sei lá eu. Respeito, porque não me resta outra coisa, mas puta que pariu que gente mala. Vão morar numa caverna, seus porras chatos.

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Como me aprimorar, eis a questão. Livros me ensinariam a escrever melhor sobre arte? Queria ser capaz de olhar para um quadro e chegar a incríveis conclusões, fazer análises espetaculares, comover e encantar. Dos muitos talentos que não tenho, esse dói mais: sou incapaz de colocar no papel o que sinto e penso quando olho para uma obra de arte.

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Faz semanas que desejo um hambúrguer. Mas não essas tralhas de por aí, um hambúrguer de verdade. Comprei carne moída, um pão artesanal, bati a maionese mais gostosa do mundo e fiz um hambúrguer de filme para mim. Não canto a solidão em verso e prosa, acho esse lance de “eu sou minha melhor companhia” grossa picaretagem e tal, mas fiz só para mim um hambúrguer lindo e delicioso, cheio de cebola e azeitonas e com um molho incrível, pão bacana e picles e queijo divinal e achei tudo gostoso.

Chorei no chuveiro frio depois, mas isso eu faço todas as noites, então não conta. 

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Se eu escrevo pensando se você vai ler? Evidente. A cada palavra, gracinha, foto, musiquinha, uma senhora idosa e ridícula se pergunta: ele vai ler? Vai gostar? Vai me escrever pra dizer alguma coisa, vai lembrar de historinhas, vai me jogar uma migalha de atenção, me dar três minutos numa ligação clandestina e vã durante a qual provavelmente vai me perguntar sobre alguma garota “e Fulana, você sabe dela?”, ou fazer algum outro comentário idiota e quase bater o telefone na minha cara quando o tempo acabar. 

Escrevo pensando se você vai ler e, ao mesmo tempo, sinto enorme alívio em saber que não vai. Se lesse, não entenderia, mas não vai, não.

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Bordertown. Não resolvi ainda se gosto. A ideia é boa, mas é tudo meio arrastado e confuso. E meio chato e meio mala e meio tonto e meio mal-amarrado. 

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Meu braço esquerdo mandou lembranças aos familiares e me disse que foram quarenta e sete anos razoáveis, mas que tudo entre nós acabou. Deu dois suspiros e depois, morreu.

Foi bom enquanto durou, braço esquerdo.

Janeiro de 2019

Terceiro andar: tecidos de florzinha, meu pobre coração partido, copos bico de jaca e a frase do nosso tempo

Café com amiga. Adoro brincar de Noviorque no Starbucks. Podem me julgar, tem cafeína de três machiattos-espresso-latte-framboesa-ultra-caramelo-com-chantily nas minhas veias, até meus cílios vibram, provavelmente não vou conseguir me concentrar na sua cara de censura.

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Uma coisa bem feia sobre mim: roubo sachês de açúcar da lanchonete pra recortar os bichinhos que vêm na embalagem e colar nos meus caderninhos.

Que horrorsh.

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Minha amiga J.R. (sim, ela faz bico como vilã de Dallas, seus tontão), acaba de declarar. “Não é possível que ser burro não vá sair de moda”. 

VOU FAZER CAMISETAS COM ESSA FRASE GENIAL!!

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Chapéus novos me fazem feliz. Sou uma pessoa fácil, vamos combinar.

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Meu livro novo chegou! Meus livros novos, pra falar a verdade. Meus livros lindos, lindos. Como ensinar um idiota a dançar Faço chá de hortelã e espero que fique tudo bem.

(quer? escreve aqui, inda tem: comoensinarumidiotaadancar@gmail.com)

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Leite em pó. Que vida é essa, gente. Leite em . Saporra não é leite, não é coisa alguma. Meu Deus, alguém me salva da minha vida.

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A caneta tinteiro estourou com tinta azul-turquesa dentro dela. Sou praticamente um smurf.

Caneta tinteiro é item que dá aquele chiquê na vida da pessoa e tal, mas vamos combinar, é necessário ser uma cliatula diferente de mim: mais fashion, mas refinada e muito, muito mais coordenada do que eu.

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Não tenho mesmo qualquer autoestima, dr. Estevão, Freud e eu concordamos, mas galere tá com autoestima demais, não? A máxima “vista-se para o cago que deseja e não para o que tem”, é fofa e pode até funcionar, mas tou vendo uns manos com cinquenta e três seguidores em rede social falando se comportando – e mais, tratando os outros – feito estrela de cinema. E tipo, chamando os migos de seguidores. Mano, quem tem seguidor é religião oriental. Nós temos, no máximo, uns contatinhos matreirosNamastêmanolo.

Resmungos matinais sobre solidão, vida, caras que a Maliu ama e goiabada com queijo

Lembro demais dum livro da Danuza Leão (sei que não pode mais gostar dela, mas eu gosto por um monte de motivos), em que ela conta que estava com obra em casa e acabaram os sacos de entulho. Ela ia indo comprar, o pedreiro deu bronca nela “que é isso, dona Danuza, a senhora vai assim? E se o amor da sua vida estiver no depósito de material de construção?” (mais ou menos isso). Amo essa história – os malas vão dizer que se for mesmo o amor da sua vida, ele vai reconhecer você até com aquela camiseta furada da campanha do seu primo a vereador dos anos 1990, mas né, defenderei para sempre que o amor da sua vida reconhece você mais rápido e mais fácil se você estiver de camisa de florzinha e brinco bonito.

Minha mãe ama aí um filósofo-educador-escritor-cabeça-pensante desde sempre. Trudia ele me aparece na capa dum caderno de cultura: o mano é hippie. Claro que o mano é hippie. Tive um frouxo de riso, porque eu já deveria saber, se a minha mãe adora, o cara é hippie de doer. Senti uma imensa, imensa falta de ter pra quem contar isso. Entende? De poder ligar e dizer “checa na Ilustrada a figura que Maliu ama!”, e do outro lado ter alguém que também tremelique de rir e comente “Ê, Maliu é chegada num bicho grilo!”. Sinto imensa falta de Alexandre o tempo todo, mas nessas horas chega a doer. E faz nove anos que ele morreu, eu não deveria andar por aí me sacudindo de saudade. 

Há algum tempo, um cara me atacou forte, covarde e malvadamente por eu ser só. A única coisa que ele tinha contra mim era minha solidão. Ele me magoou me atacando no que eu não posso ou não vejo como resolver (e como dá pra perceber, pegou no nervo, porque ainda penso nisso). Como conjurar a pessoa sob medida pra ligar e falar sobre o crush de Maliu? A gente procura, mas só até a página dois, daí pra frente, é Ganesha no comando (pra continuar na vibe maliniana).

Na noite em que a morte do Alexandre fez nove anos, vaguei pela casa sem trabalhar e sem conseguir ler nada (foi trudia, faz nem uma semana). Não tinha para quem ligar. Subi e desci minha lista magrinha de contatos telefônicos e me dei conta: não tenho para quem ligar e choramingar sobre uma coisa dessas. Para que amigo posso ligar e dizer que o meu peito parece incendiado, que o mundo parece escondido atrás de um véu? Não se faz uma coisa dessas com os outros, não se joga essa responsabilidade em um só par de ombros. Botei um par de meias de lã, apesar do calor, jantei goiabada com queijo, entrei no tumblr da minha amiga Luciana e fiquei lá, do fim para o começo (é assim que os tumblrs funcionam), namorando cada foto de cidade, de ator de cinema fumando, de comida, de fonte, de mãos enlaçadas, de caneca de café e de mais comida (Luciana e eu temos muito em comum).

Não sei se me consolou, mas me aplacou a dor. Eu me deitei, dormi e sonhei com as ruas de Lisboa, os pães da Lu, a risada dela, as mil formas que temos para viver, a única forma como podemos morrer.

Setembro de 2016