Menu dégustation: abril

Coisas vistas & ouvidas & preparadas & assistidas & comidas & visitadas; mas não todas, não tudo, não todo o tempo.

Suzi Márcia, que tinha feito cartazes do Drops mês passado, nesse mês fez bonecos do Maximus e seus amiguinhos, bolsa linda e abriu grupo do Drops lá no feissy. Eu só fico olhando de boca aberta, achando tudo lindo demais. Estraçalhei meu braço dum jeito patético-burro-tonto-trapalhão-porrafal e Suzi também está cuidando da digitação geral e absoluta. Quem tem Suzi tem tudo.

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Graças a Fabiana Mesquita e Mariana Aldrigui, tem equipamento funcionando nessa casa.

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Fiz tortas salgadas lindas. Lindas. Elas ficam com o queijo derretidinho, com a crosta dourada, umas belezocas.

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Vi:

A série Happy, na Netflica. Que coisinha bem pensada e engraçada. 

A série Borderliner, também na Netflica, achei fuéééén.

A série Counterpart, em meio alternativo de entretenimento, oia, MUITO AMOR. 

E só. Não vi filmes, não vi coisa alguma além das séries supracitadas, porque a Netflica vai tirar Supernatural do ar H-O-J-E e eu fiquei maratonando e maratonando, com o coração cheio de saudade antecipada. Não tá certo isso, não.

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Li muita coisa sobre a vida de Monet. Achei que conhecia o cara e, como sói acontecer, constatei que não se sabe coisa alguma da vida dozotros. 

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Reli, cheia de assombro e o horror da total identificação, A invenção da solidão, do Auster. Pelamor.

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Dei uma parada com o livro do Peter Gay, mas já voltei pra ele.

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Li O buda no sótão. Que livro. /o\

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Graças ao meu amigo Sérgio e sua generosidade, estou lendo Rex Stout como uma viciada. No fim de maio eu faço a lista do que li, porque já comecei a me perder.

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Testemunhei o desmonte da casa de um amigo. Foi mais ou menos como o desmonte da minha. Odeio mudança. Mudanças.

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Minhas plantas tão crescendo que nem uns bebezinhos. Inclusive minhas suculentas, que chegaram aqui do tamanico de meio brigadeiro e quase mortas.

(chamo as suculentas de leguminosas, só pra fazer Maliu rir).

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Foi isso. Abril foi um mês lento.

Abril de 2018

Os velhos maestros, What a feeling, um novo canal jornalístico, um isqueiro cor de abóbora e o gato de Curitiba

Fui pra rua hoje e comprei dos meus mentolados (aqueles que se fumam sozinhos), um isqueiro cor de abóbora, soda e chiclés. Tipo, eu tento ser adulta, mas daí passo por um seven-eleven e minha força de vontade e minha concentração vão pro espaço sideral.

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Daí voltei e, em vez de trabalhar, fiquei desenhando florinhas coloridas e pintando em volta de amarelo.

De novo, olá mundo dos adultos.

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A vida é assim. Quando você acha que já viu de tudo, ela vem e senta na sua cabeça.

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Alguém me diz que se encontrou com você. Tempo houve em minha vida em que eu me encontrava com você. Fiquei com inveja, mas passou rápido quando me lembrei do resto.

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O bobo-alegre do canal jornalístico que vocês adoram, ele desembesta a falar absurdos por dá cá aquela palha. “A economia se reaquece”, zurrava ele hoje, “o Brasil está melhorando: a economia se reaquece”. “E olha que Jesus maravilhoso, amigos, existe um breguetis chamado redisrânters, que legal, tudo vai acabar bem!”. Isso devia de dar cadeia.

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Tem muita coisa boa em trabalhar com o Candido, mas uma das melhores é que as reuniões com ele nunca duram mais de trinta minutos. Todas as empresas do mundo, estatais ou não, deviam ter um cara assim no quadro de diretores, só pra manter as reuniões honestas e limpinhas.

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Comprar caderno quadriculado pela interneta devia ser profissão. Poucas coisas deixam um caboclo mais feliz do que entrar no site da papelaria e clicar “colocar no carrinho”.

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Vou para Curitiba em junho. Para dar aula? Para fazer contatos? Para ver certo alguém especial? Não, pra comer das quentinhas da dona Terezinha. Sou uma pessoa de nobres ideais, minhas prioridades estão onde deveriam estar.

(baideuai, meu único certo alguém especial em Curitiba é Djanguinho, o gatinho buzuzu da Suzi, antes que vocês comecem com onda)

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Uns chilenos decentes, uns italianos de grande dignidade, uns portugueses que se pode apresentar pra nossa mãe (e eu tenho feito isso, porque não adianta eu tomar vinho sozinha). De quando em vez, caio na esparrela dum rosé que mais parece uma grapete, mas, no geral, tenho me saído bem. E minhas bochechas estão vermelhinhas.

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O chiclé que comprei é de “tangerina com laranja”, E minha mãe comenta “Um dia, essa sua busca pela vitamina C perdida precisa acabar”.

Herege.

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Um dos principais motivos pra amar Grimm é que, nessa série, o Lobo Mau dirige um Fusca.

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Apaguei um monte de posts da pasta “rascunhos”, coisas que, sem você, não fazem sentido algum.

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Brigadeiro fica bão até com leite condensado de quinta. Oh, Glória.

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O looping da música ruim no Youtube é uma maldição bíblica. Assobiadores venezuelanos de guarânia, tambores escoceses, cantores de casamento dalgum lugar não identificado do leste europeu cantando no que, nalgum mundo paralelo, deve ser italiano, velhas tias obesas assassinando Mendelssohn em pianos equivocados, a trilha de Flashdance tocada num serrote, criancinhas mal orientadas tratando seus violinos como vivente nenhum desse mundo merece ser tratado. É um mundo, um universo, você é enredada naquela miséria, um vídeo horrendo leva a outro, duas e meia da manhã e um cara toca Imaginenum xilofone enquanto você chora.

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Cês tão uns amorecos falando em religião boazinha e religião mazinha. Beijo no coração de todinhos voceizinhos.

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O canal que cêis amam não crê em pesquisa se o assunto é moda. A matéria que vi sobre Givenchy tava constrangedora num ponto que pelamor (não sei se teve outras, não tenho condições de ver mais de uns poucos minutos daquilo nem pela minha mãe, que tanto amo). Tudo raso, tudo lugar comum, tudo nada, tudo desinformativo, tudo chato, tudo precário.

Moda ainda é considerado um assunto “menor”, né? É o que, “coisinha de mulher”? Dane-se a história que também pode ser contada por cada agulha feita de osso de foca, cada couro curtido, cada alinhavo, cada decisão sobre formato, peso, fabricação de tecido a partir de plantas (que sacada, que salto), invenção do tear manual, a moda como agente de transformação social, a moda como estagnador de classes, estampas, a história das nossas tantas escolhas ruins alterando a largura das mangas, formato dos saltos, rituais e manifestações definindo o que usávamos e sendo definidos pelo que vestíamos, os séculos passando, nós e os nossos usando as roupas para calar as mulheres, para deixá-las sem respirar, para embalar revoluções, o capitalismo e sua história tão recente bem costuradinho com a moda, moda popular, moda elitista, fast-moda, alta costura, o cinema e o que usamos do lado e cá e do lado de lá da tela, moda, moda, moda. Bobagem mesmo. Vamos passar meia dúzia de informações equivocadas sobre pretinhos básicos, emendar com uma resma de clichês bem batidos envolvendo o nome de umas divas e deixar para lá.

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Talvez devessem mudar o nome do canal pra Marcelolinsnews. Vinte de quatro horas SÓ o Lins e nós levaríamos lanche e aguinha pra ele aguentar. Quando ele tirasse uma sonequinha, dormiríamos todos. De vez em quando, apareceria aquele argentino pra fazer uns comentários bem bons. O Lins falaria lindamente sobre a morte do velho, sobre história da moda do século XX com suas maisons, seus maestros vetuscos, suas poucas mulheres como figuras de proa, sobre as idiossincrasias de uma arte que, como as outras, não se iludam, é mercado e é cultura e é dia a dia e é toda a marca história de nossas pegadas, essa nossa história que parece tão definitiva, mas não é.

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Bonitão, não me aborrece, na dúvida, inverta a frase. Sempre.

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Quebrei minha caneca do Bill Murray e a única caneca do Saturno que eu tinha e que ia pruma cliente. Ligo pra Suzi Márcia pra contar o que eu fiz e ela nem pisca. A pessoa sabe que eu sou uma abobrinha.

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Sabe quando o Chico fala em “qualquer desatenção”? Faça não.

Mas olha, faça não mesmo. É sério.

Primeiro semestre de 2018

(o nome que as coisas têm)

Às vezes, acho que todo mundo já passou por isso, tentamos escapar da atenção de alguém.

Não, não estou falando de nada sexual ou abusivo, não estou falando de assédio. Estou falando de atenção indesejada. 

Às vezes mesmo uma atenção amistosa e gentil, é registrada por nós como indesejada, por algum motivo, por vários motivos.

E, às vezes, a nossa atenção, amistosa e gentil, é registrada como indesejada. Hora de baixar a cortina, Fal. Sério mesmo. 

Um dia de trabalho no apart-hotel do Conde Drácula (damos expediente nos feriados, claro)

– Fal, acordada?

– Desna transantônti, mô fio.

– Tá, não é disso que eu quero falar.

– Sua preocupação com meu bem estar é comovente.

– Liguei pra contar que usei uma sunga asa-delta ontem na piscina do Copa.

– …

– Fal?

– Quié?

– Você ouviu o que eu falei?

– Não, Guilherme, eu estava saindo do meu corpo justo na hora que você falou alguma coisa.

– Fal, linda, branca, justa né, mas não transparente, tipo assim, clássica, com um….

– Ah, Gui, não me irrita. Não chama de clássica. Não guento mais vocês se vestindo de periguete e chamando de clássico. A Dovima usaria?

– Hã?

– Meu filho, meu padrão é a Dovima. Ela usaria esse negós?

– Não, né, Fal.

– Então não chama de clássico. Cada vez que você chama sunguinha asa delta de clássico, cai um anjinho da entourage da Dovima.

– Credo, Fal, peço perdão a Deus. Mas eu fiquei uma diliça. Tinha gringo anotando meu telefone na mão.

– Vou bater o telefone na sua cara, Gui, juro. E para de me dar piada pronta.

janeiro de 2018

Humor

Categoria: “Mal”

Basicamente funciona assim: o cara que não beijou seu cabelinho quando você estava doente em fevereiro é o mesmo que não deu a mínima pra sua desabada de vida (e de árvore) em março. Não entendo o seu espanto. Sério.

Uma história de amor. Não tem revolução, lições de vida, lances miraculantes. Uma história de amor. Não somos mais capazes de entender uma história de amor e, sim, já fomos.Há alguns meses, fiquei espantanda ouvindo amigos da minha geração declarando dúvida sobre comprar casa com quintal e árvores, afinal, “as crianças podem subir nas árvores e cair”. Na época pensei que não poderia piorar. Sempre pode, evidente. Perdemos a capacidade de assistir a um filminho de amor. Parabéns pra nós.

*

Senhor, afasta de mim o vício em goiabada. Obrigada, Senhor, aguardo resultados.

*

Barbie Fada com quase tudo funcionando, menos o Whatsapp, que quer me mandar um SMS em oito horas. Oito. De resto, tudo lindo. Não, não fui eu que fiquei mais esperta, são esse apareios do demo que estão cada dia mais fáceis de usar. 

*

“Ain, não é ‘América’, é ‘Estados Unidos’”.

A) Noto que o amigo está com tempo livre. Venha lavar meu quintal com cândida e sabão em pó  porque os gatos tão impossíveis essa semana.

B) Ler ‘A’, por favor.

Nunca pensei que pudesse concordar com o Trump, mas vou: por favor, armem as professoras e que a moda chegue ao Brasil.

Volto pra sala de aula no mesmo instante, departamento de espanhol. Nem vou me importar com o salário. Comecem a rezar.

Dia 15 de março foi aniversário do Drops, né, esse lindo. Que é uma parte muito importante da minha vida, há muitos anos. 
Dezesseis.
Não raro, penso no Drops como uma entidade separada de mim, quase como uma pessoa, um cara que segue sozinho, com seus pensamentos e escritos. Isso é meio maluco e, ao mesmo tempo… Tá, tudo bem, é bem maluco.
Mas é assim que eu me sinto.

Ao longo dessa mais de década e meia, além dos amigos, leitores e desafetos, o Drops teve gente cuidando dele. Todo mundo pelo amor à camisa porque, né, o Drops nunca rendeu um real.

E, como uma pessoinha, o Drops teve seus primeiros amores, pessoas que não eram apenas leitores (meu Deus, espero que inda sejam), mas camaradas que, ao longo dessa caminhada, ajudaram o Drops a ficar em pé sozinho, que colaboraram com revisões, design, hospedagem, template, códigos misteriosos, sistemas de comentários, links e até com postagens quando eu não podia continuar sozinha, 
que me ajudaram tanto. ❤

Posso esquecer d’alguém porque, ao contrário do Drops, eu só pioro com a idade, e se eu esquecer, grita comigo, mas por ora:
agradeço hoje, e todos os dias, aos queridos Alexandre Azevedo Cardoso, Fabiana MesquitaGiuliana XavierVera GuimarãesFabio Sampaio (que manteve o Drops anos e anos e anos no blogbrasil), Esther Lucio BittencourtAna Laura Diniz,Ivanise Maravalhas Gomes, Lígia Calina, Veronica SouzaDanilo Carolino , Paulo CandidoAna Paula MedeirosAnlene Gomes de SouzaCynthia FeitosaMaria Carolina Marzagão JimenezPedro TolosaMarcelo EstravizMonica WadtNatalia CarvalhoClaudio LuizCaroline CastelaniStella Cavalcanti, Cora Rónai, e Suzi Márcia Castelani
É muita gente, muito inteligente e preparada, pra cuidar dum bloguinho, né?
É graças a todos vocês que o Drops ainda está lá. Numas fases mais falante, noutras mais amostrado, noutras mais mimadinho e carente, quase sempre falando sozinho mas, de alguma forma, lá.

Agradeço também, claro, aos leitores do Drops. Vocês não sabem disso, mas vocês me deram uma vida nova. Um mundo, todo um mundo, vocês me deram. E depois, quando a minha vida acabou, foram vocês, de novo. Obrigada por tudo, sempre. Por todos esses dias, esses anos. Por tanta companhia, delicadeza, risadas, fotos dos filhos de vocês, dos bichinhos de vocês, dos maridos rabugentos de vocês. Por serem tão queridos e queridas, tão presentes. Foram 16 anos maravilhosos, surpreendentes, divertidos e ternos.
Obrigada, obrigada, obrigada.

Menu dégustation: fevereiro e março

Coisas vistas & ouvidas & preparadas & assistidas & comidas & visitadas;mas não todas, não tudo, não todo o tempo.

A newsletter do Drops tá indo razoavelmente bem. Talvez eu consiga achar o tom. Umas poucas pessoas escrevem pra comentar depois de lerem, o que é muito gentil. O site da newsletter tem um mecanismo que me permite saber quem leu, quem clicou no linque, quem isso, quem aquilo, mas estou me comportando como uma freira e não mexo naquilo. Esse tipo de coisa só faz a gente descobrir que os amigos são só educados e não leem porra nenhuma na real e eu, além de não querer sofrer, não quero mesmo saber.

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Reescrevi um texto começado há muito, meu amigo Paulo copidescou, acho que agora vai; Brasil.

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Comecei outra escrevinhação; parei porque doentíssima; não recomecei ainda porque irresponsabilíssima; recomeçarei na outra semana porque divertido; divertido.

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A verdade é que eu ia reler o segundo volume dos diários da Sontag, acabei re-relendo o primeiro por motivos de: muito amor no coração.

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Vi, abracei e bebi com a amada @luciananepomuceno em março. Saudades; babe; saudades.

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Não vi o querido Gui em março. Ele vai embora pra Bélgica de novo porque o amor volta para lá. Queria odiar o Michael por me leva o Gui de tempos em tempos; mas né; quem odeia o Michael; gente? Ninguém. O amor nos exige flexibilidade na agenda e espaço no passaporte. Pelo menos no caso do Gui.

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 Vi, na Netflica, Retribution. Achei o começo meio nhenhenhé. E depois, uma chatura.

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Também na Netflix; para felicidade de minh’alma; a nova temporada nova de Z Nation; o melhor apocalipse zumbi que já foi feito. Vi todos os episódios num gole. Pelamor; que coisa tonta e divertida.

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Comecei a ler; bem no finzico de março; o Modernismo; do Peter Gay. Tem uns livros que você deve ler para aprender o que eles ensinam e para aprender o quanto você é burro e não sabe coisa alguma nesse mundo.

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Fiz uns dez, sem brincadeira, escondidinhos de carne-moída-de-soja (que é a carninha moída que Maliu-Naturebínea come). Ela tá na fissura desse trem e pediu direto.

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 Bebi vinho rosé como uma profissional. Meus familiares estão emocionados com meu esforço, minha superação.

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Tive uma gripe assustadora em fevereiro. Veja que não falo em resfriado, foi gripe. Mais de quarenta graus em várias fases, lábios gretados, dor, dor, dor, doía atrás dos olhos. Foi assustador, sabe, porque Marli também ficou muito doente, uma não conseguia cuidar da outra. Ficamos, cada uma em sua cama, passando por um inferno de quatro (!!) dias e mamando em caixas de suco de laranja (cara, e se não tivesse suco? Nunca mais vou deixar de comprar esse treco), até que conseguimos nos levantar, trocar lençóis, tomar banho, fazer sopa, café com leite, essas coisas banais. Ficamos aqui sozinhas, muito, muito doentes. Um amigo disse que foi treinamento pro apocalipse zumbi. É muito assustador estar tão doente que não se consegue ir ao médico.

Quando eu já estava melhor a ponto de usar as redes, contei pra Telinha que, lá do Rio, deu um jeito de virem entregar sopa aqui. Que amor, que amor.

Demorô muito para ficarmos boas.

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Nosso querido gatão cinza-cabeçudo teve câncer e morreu nessa temporada. Olha; muita tristeza; tristeza demais.

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Assisti Familienfieber. Adorei.

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Assisti  Blue JayRuth & Alex e  Learning to Drive e chorei que nem uma paca. Aliás, outra particularidade sobre fevereiro: chorei, chorei, chorei.

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Assisti um documentário incrível, Dries, sobre o costureiro belga Dries Van Noten. O documentário dá muita ênfase ao processo criativo dele. Como o cara começa, monta, estrutura e lança uma coleção. Sou completamente maníaca por esse assunto. Adoro o setor fofoca de qualquer documentário: quem é casado com quem, quem dá em cima de que modelo, como são espalhados os anéis de prata da pessoa sobre todos os móveis da casa e como são empilhadas as revistas (tou falando daquele sensacional documentário do Lagerfeld que, aliás, vou rever), mas minha fraqueza é o processo. Como o cara tem as ideias, como escolhe, como decide, que caminhos o cérebro dele percorre a casa decisão, antes, a cada momento anterior de cada decisão.

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Outro documentário; sobre casas enormes e raras e caras e exóticas. Poucos episódios; produção linda; curti mais ou menos.

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Oscar, né? 

Eu me preparei lindamente, vi quase tudo, aprendi sobre quem ia vestindo o que e tal, e daí um dia antes da cerimônia; a árvore aqui da frente de casa caiu, levando todos os fios do mundo e o jipe do meu irmão. Sem Oscar, aliás, sem luz; sem telefone; sem internet por três dias.

Gostei de muito do que vi. Gostei imenso (oi; Claudio Luiz) do filme do Churchill; mas achei sinceramente inferior ao sensacional Into the storm.

Gostei do A trama fantasma. Gostei da piração do relacionamento deles; mas a vida fica me devendo um filme sobre criação de moda. Eu queria mesmo era um filme; uma ficção; que mostrasse mais e mais detalhes da criação; sabe; do processo. Fiquei meio fuéééén com A trama; decepcionadinha com a falta de detalhes e do cotidiano; da oficina da criação; dos croquis; da busca de tecidos e tal. Seguindo meu próprio conselho; se tou de mimimi; eu que devia escrever uma história assim; eu sei; não é isso que tou sempre dizendo? “Não reclame de quem faz; faça o seu”. Pois é.

A forma da água. Quase ninguém gostou desse filme; né; e eu lamento demais por vocês; seus chatos. Que mais cês querem de uma história de amor? A forma é um conto de fadas; só. Sem efeitos especiais; sem elucubrações; sem tralha. Ilógico e irresponsável; como toda história de amor é ou deveria ser. “Mas ela comeu meia dúzia de ovos cozidos com o lagartão da Amazônia e já fugiu com ele; porra?”. É; teve uma que comeu maça envenenada; teve uma que jogou as tranças; teve aquela outra que foi beijada e acordou… Então temos essa daí; que dançou e comeu ovo cozido e sentiu uma coceira no pescoço e se jogou num mundo novo e estranho e assustador com o lagartão. A forma tem isso: é paixão instantânea, sem conversa, os minúsculos detalhes, a fraqueza no joelho, o entregar do seu mundo pro outro, achei o filme uma metáfora pra paixão. Sabe, aquela “vamos lá agora”, que a gente nem sabe se tem futuro, se dá liga, se ele não vai implicar com o nosso cachorro mimado, com o fato da nossa mãe falar demais, com nossa incapacidade de manter a vida nos trilhos, sei lá. De novo, isso me atraiu: o conto de fadas. Como saber, depois de um olhar rápido pra moça adormecida; se vai dar certo? A gente não sabe, mas salva a princesa, mata a bruxa e é feliz para sempre, na velocidade dum livrinho de capa dura coleção “para todas as crianças”, o que, umas vinte, vinte e cinco páginas (com bastante ilustração). 

Cês deixem de ser chatos e beijem mais.

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Re-re-re-re-revi Tudo Bem no Ano Que Vem (Same Time, Next Year), um lindo filme de 1978. Porra; lindo; já que falamos de contos de fadas. Que filme. O Alan Alda pisoteia no coração da gente; isso se a Ellen Burstyn não nos matar antes de amor. Corre ver lá na Netflix; monstro da chatura.

*

Munido de toda força de vontade do mundo e com coragem pra malhar que nem um loco, ou bombado até os canos, não sei, o menino do The Killing me reaparece aqui praticamente do tamanho dum carro, numa série chamada Altered Carbon. Eu adorei; que minha vida é ver esses trens trash. Tem aquele diliça que em Roma (se você não viu; vale; só duas tempôs curtinhas uma vida de diversão) se besunta de azeite; como chama essa cliatula?

A Carla @riendetout me deu o livro; vou ler esse mês.

Março acabou com geral me mandando boicotar a Netflix. Amo vocês caras; mas não tenho dinheiro pra pagar tevê a cabo; menos ainda pra ir ao cinema; ninguém gosta de mim; então não sou convidada pra na-da e minha vida social é zero. De modos que Netflix é; tipo; tudo que eu faço nessa existência. Sinto muito; mas fica pra próxima.

*

Março também acabou com meu computador indo pro beleléu e comigo presa três horas num carro no meio duma chuva alucinante. São Paulo parada e eu querendo morrer. Não tenho grana pra ir morar em qualquer outro lugar; se tivesse; iria. Vocês que têm grana e ficam nessa merda de cidade me assombram. Que caralhas vocês tão fazendo aqui? Dinheiro mal gasto é a coisa que mais me deprime na vida. Cês não sabem viajar e não sabem viver.

*

O calor que; a partir do fim de março; deveria nos dar uma folga; segue bombando e me enlouquecendo. Que inferno.

*

Li uma sensacional biografia do Carlos Magno escrita por Jean Favier. Sensacional; um livrão.

*

Li o Rumor da língua; do Barthes. Por falar sobre livros que destacam nossa ignorância.

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Vi Colateral. Adorei porque é pá-pum tem o crime; investiga o crime; resolve o crime; sem drama pessoal; irmã alcoólatra; traumas de infância; DRs com o pai do bebê; filhos problemáticos; dores d’alma. Resolve essa porra de crime e vamos para o próximo. Como nos ensinou Poirot.

*

Comecei uma série nova com a Kyra-alguma-coisa-pintinha-debaixo-do-olho; mas parei porque sei lá. Vou retomar em abril.

*

Garrei num imenso amor por jardinagem; se é que se pode chamar de “jardinagem” o que fazemos nessa minha casa sem quintal; né. Plantas e suas mumunhas; como crescem; do que precisam; “essa água tem cloro demais?”; “ela precisa de sombrinha?”. Acho que faz parte do processo de envelhecimento gostar das plantinhas sem que elas estejam em nosso prato cobertas de molho de mostarda com mel.

*

Outro amor que garrei foi no Rex Stout e no Nero Wolfe. Gente; por falar em crimes sensacionais. Li Serpente; Clientes demais e Cozinheros demais.

*

Dois alunos de redação pararam de ter aula comigo em fevereiro-março. Os dois sem emprego nessa nova fase do Brasil onde está tudo bem e a economia está se recuperando lindamente. Nem sei mais o que dizer.

*

Reli muita Katherine Mansfield em fevereiro. Saudade dela e da fase da minha vida em que a descobri.

*

Comecei a ler O império do efêmero. Que livro.

*

O cara é casado, tem trocentos filhos e vai lá e me dá uma entrevista toda séria e com ares de especialista, de guru, sobre como é maravilhosa a solidão. Entrevista aplaudida e divulgada pela contentinha profissional que mora com pai, mãe, irmã e cachorro. Gente, não sabe brincar, não desce pro parquinho. E nem começa você a me dizer que “pode-se estar só em meio à multidão”. Ah, claro que “pode-se”, tovarisch, claro. Mas nem vem que não tem.

Solidão é estar tão doente que se desmaia na frente do fogão com a canja fervendo; é acordar muito tempo depois, sopa seca na panela, gata e cão em cima porque não tinha ninguém por você ali, nem naquele momento e nem em qualquer outro. Não glamouriza a solidão, gente, é uma miséria. “Adoro estar comigo mesmo” é uma fofura, mas só até seu crânio ir de encontro à cerâmica do chão da cozinha e você acordar sozinha; com um galo gigantesco e metade do rosto inchado; sem ninguém que te acordasse; acudisse; soprasse seu rosto depois; durante a sua imensa crise de choro no sofá. Absolutamente sozinha.

Essa gripe do começo de fevereiro me ensinou como eu sou sozinha nesse mundo e como eu estou fodida. Fodida.

Fevereiro&Março de 2018


Notas rápidas duma digitação errante

Deve haver alguma espécie de explicação pra sem-noçãozice, a sua, a minha, mas né, a NASA não liberou o material, de modos que só observo a pessoa circulando alegremente entre o resto do pessoal, fingindo que olha, tudo bem.

*

A filha da amiga tem cinco anos e não se conforma quando vê a cena na casa dela ou aqui: um adulto, com a tevê desligada, lendo um livro feito de papel. Ela esteve aqui e não queria conversar ou fazer gracinha ao me cercar enquanto eu lia. Estava mesmo impressionada. “Você fica que nem a minha mãe, sem se mexer, lendo, lendo. O seu livro não pisca”. 

Não emito juízo de valor, quem ama o passado pelo passado e não as coisas legais do passado, que volte a tomar banho de canequinha, mas ler livros me parece ser uma daquelas atividades que, muito em breve, vai se unir a bater manteiga, acender o lampião, levantar-se pra torcar o canal da tevê (com bombril na antena), casar por procuração e fazer a América.

Eu e meus livros que não piscam, graças a Deus, em extinção acelerada. Que São Darwin nos abençoe.

*

Filmes velhos na Netflix. Obrigada, civilização ocidental.

*

Meu braço tá uma chatura e eu não quero mais falar dele.

Segundo semestre de 2018

Poeminha sobre velas de maçã; roupa de cama; bolachinhas de goiaba e a imensa falta que você me faz

Tudo quieto no meu quarto, 

tudo ali estava bem

nem um cisco se mexia, 

nem um rato, 

nem um trem,

mas ao me levantar, 

em busca de dicionário honesto

sou alarmada pela algazarra

coisa que, de hábito, detesto.

Para apanhar o meliante, 

viro-me de supetão,

e eis que constato aflita:

sobre minha cama, 

o cão.

É um cão novo, redondo, 

bobinho e feliz

que ama todo mundo, 

que suja de leite o nariz,

faz dos gatos, irmãozinhos,

gosta da Maliu e de mim

gosta de desenho animado,

de balas e chá de jasmim.

Ele está sempre alegre, 

está sempre agitado

está sempre com fome, 

nunca parece cansado.

E agora, em minha cama, 

late, se agita e brinca

como se fosse um dia gentil,

numa semana boa, 

num ano sensato,

como se não fosse o Brasil.

Caldo

Queria falar sobre a dor do que é contínua, definitiva, invariável. Sobre a dor do que se pode ter, não se pode ter, existe e não existe, como o gato na caixinha. Sem gradação. Sem alívio, sem começo ou fim, sem abinha para puxar, sem “ligue para o nosso SAC”, sem “abra o pacote na linha pontilhada”. Queria falar sobre a dor que está lá todos os dias, todos, esperando por você dentro das crocs brancas, esperando, e que quando você se senta na cama e desliza os pés pra dentro delas, é tomado por aquela sensação de conforto, de morno, de reconhecimento, de enfiar os pés não nas crocs, mas nas crocs recheadas pela lama primordial da dor ininterrupta e, então, vem a lembrança. E cheio de dor da dor que a dor causa, você revive, antes de sair da cama, fazer xixi, escovar os dentes e amaldiçoar o dia, a lama de onde se arrastou ainda um organismo patético, sem rabo, sistema nervoso central digno desse nome e cílios. Você, sim, veio dela, ainda um nada, sem pelos, sem conta no insta, sem caixa de anéis, meias na gaveta. Não tinha qualquer coisa a não ser dor. E você rastejou para fora do poço da dor para criar membros, andar de quatro, escalar árvores, andar de dois, aprender a matar tigres, simbolizar com sangue e suco de frutinha, registrar a vida, matar Aníbal, construir Paris, telefonar para a sua mãe, comer no coreano, torcer pelo time, checar o celular e parar de doer tanto, o que se mostrou impossível. Um caldo primordial de dor e desistência do qual jamais nos livraremos, era sobre isso que eu queria falar. Não tem perfume francês, shampoo recomendado pela blogueira, esponja esfoliante do catálogo da vizinha que nos afaste desse cheiro, dessa lama, desse pegajoso em nossa pele morta, da dor. Queria falar sobre os pequenos gestos impregnados de dor, os sorrisos dolorosos, as respostas rápidas e silenciosas no gerenciador de mensagens, ah, sim, o silêncio, o silêncio da dor, o silêncio, sua respiração, a respiração do gato, a lambreta que passa na rua, é silenciosa a dor, sempre, não há dor no barulho, ainda que ela exista em todas as partes (e não exista, como o gatinho na caixa), ela é silenciosa, fluida, adaptável, sorrateira, a dor. Ela não vai a lugar algum e viaja, rápida como a luz. Ela não vai a lugar algum. Você vai, em breve, ir é seu destino, ela fica aqui, esperando por você, espreitando a mangueira na janela do carro ligado, o nó na corda, as pílulas coloridas, o despencar no abismo, o saco plástico, a pólvora, os cortes transbordantes, o gás. E não, não importa que você não volte, ela sabe que nunca mais o verá e não se aflige, porque você a verá todos os dias, sentirá a respiração dela sobre sua pele todos os dias, mesmo depois de morto, mesmo depois que tudo isso acabar, mesmo depois de sempre, mesmo com os carros voadores, teletransporte e Marte conquistado, a dor, a dor, mesmo depois de morto.

(da newsletter Noticinhas do Drops 11 – se você quiser assinar, fala comigo no dropsdafal@gmail.com)

Joquenpô – plástico ou papel

por Tatiana Yazbeck

Sou da época em que as compras da casa vinham em sacos de papel pardo, relativamente grosso, de tamanhos variados. O pequeno, onde cabia, por exemplo, uma lata de leite condensado ou achocolatado, o médio, onde já era possível colocar uns três ou quatro itens um pouco maiores e, finalmente, o grande. Existiam também as sacolas de papel que não eram encontradas em qualquer mercado, só nas grandes redes, tipo “Disco”, lembram? – que não aguentavam quase nenhum peso.

Lembro que nunca íamos sozinhos ao mercado. Precisávamos de muitas mãos disponíveis para carregar as embalagens. Algumas vezes, no trajeto para casa, o papel ficava úmido, por conta de algum produto refrigerado – reparem, eu não disse congelado, disse refrigerado. Congelada, no meu tempo, nem a carne – e com isso, chegávamos com as mãos frias, a encomenda ameaçando cair no chão, o saco se desfazendo pela umidade. Um caos.

Outras vezes, o saco não aguentava o peso e rasgava antes que chegássemos ao nosso destino. Já catei muito pacote de macarrão na rua enquanto os vizinhos riam de mim.

Tínhamos outras opções. Para as compras do mês, caixas de plástico duro, do próprio mercado, que entregava os pedidos, mediante pagamento de taxa. Ou então, o queridinho das donas de casa, o carrinho de compras. Feito de aço, com duas rodinhas, não havia ninguém nos arredores que não possuísse um modelo. O da minha casa era dourado com rodas azuis e servia tanto ao mercado, quanto à quitanda e também à feira livre. Aliás, eu amava ir à feira! Quando criança, ia sempre com minha avó. Lá, nos encontrávamos com as amigas dela e ficávamos sabendo de todas as fofocas do bairro. Mortes, separações, nascimentos, nada passava em branco. Comíamos churrasquinho e pastel. Pastel de feira, minha gente, com ou sem quarentena, é uma ótima pedida. Já na adolescência, comecei a paquerar um menino que morava na rua da feira e praticamente implorava pra vovó ir comigo até lá, para comprar, nem que fosse uma cartela de ovos. Mas isso fica para outra crônica.

Alguns anos depois, os sacos de papel foram sendo substituídos pelas sacolas de plástico e todos nós ficamos enlouquecidos com a praticidade que a novidade proporcionou. Já podíamos ir ao mercado sozinhos. Desde o início percebi que, quando em maior quantidade, as alças das danadinhas machucavam meus dedos, deixando marcas vermelhas e doloridas. Mesmo com uma gerigonça de plástico que servia para transformar o emaranhado de pequenas alças em uma só, nunca me senti cem por cento confortável. Eventualmente, o plástico rasgava também.

Quanto ao meio ambiente, não me lembro de ninguém, mas ninguém mesmo, ter mencionado que o material plástico iria causar problemas para o ecossistema. Agora, adulta, eu me pergunto: será que ninguém sabia dos riscos? Do impacto que causaria ao meio ambiente?

Há, porém, uma atmosfera vintage no ar. Pequenos e médios produtores estão migrando do plástico para o papel em suas embalagens. As pessoas ressuscitaram o uso dos carrinhos, cuja versão moderna se parece com uma enorme mochila de rodas. Além disso, muitos estabelecimentos deixam caixas de papelão à disposição dos clientes. Sacolas de plástico biodegradável, que levam em média seis meses para se decompor, já vem sendo usadas por grandes redes de supermercado. As ecobags viraram objeto de desejo.

Precisamos ainda pensar num substituto para o uso das sacolinhas no descarte do lixo, mas como tudo é uma questão de hábito, é possível que o brasileiro vá se readequando ao uso de alternativas menos danosas ao meio ambiente quando sai para fazer compras.

Tatiana Yazbeck é psicóloga, jornalista e está enlouquecida com a quarentena, mas não ao ponto de lavar e pendurar sacolas plásticas no varal. Ainda.

A palavra é o que fica

por Fal Azevedo

Eu sei que é preciso vencer
Eu sei que é preciso brigar
Eu sei que é preciso morrer
E eu sei que é preciso matar

É um tempo de guerra

É um tempo sem sol

Da canção Eu vivo num tempo de guerra,

de Guarnieri e Edu Lobo

O casal Guarnieri, ele, maestro, ela, harpista, não gostava nadinha das propostas fascistas do governo da Itália na década de 1930. Um pouco alarmados, um tanto apavorados (aliás, em quase todas as situações da vida, quem declara “Não sinto medo”, ou é bobo-alegre ou é filho do rei. O medo mantém a gente vivo e quicando, amigos), pegaram o filhinho de dois anos e rumaram para no Brasil, em 1936. No que fizeram muitíssimo bem.

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Este se revelou um texto muito difícil de fazer.

Eu me arrastei por mais de um mês. Atrasei o lançamento do Drops em Revista, deixei os gentis-patrocinadores da Guilda do Drops na mão, enervei a Suzi Márcia como poucas vezes Suzi Márcia foi enervada e não dei conta desse trem.

Ah, e veja bem, fui eu que escolhi o tema. Escolhi Gianfrancesco Guarnieri como tema da revista. Vi um documentário maravilhoso sobre ele no Canal Curta, e achei que esse cara seria uma grande personagem. Eu-que-quis. Ainda assim, que inferno fazer esse texto.

Daí que fiz o que sempre faço: tergiversei. Daí que danei a me perguntar: por que tão difícil falar do velho Guarnieri, Fal?

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O colégio carioca Santo Antônio Maria Zacarias não estava lá para lidar com aluno subversivo. Quando o aluno Gianfrancesco – nascido em Milão, em 1934, mas brasileiro por adoção desde os dois anos e alfabetizado em português – escreveu uma peça falando mal do vice-reitor da escola, foi expulso. Nem o padre que cuidava do teatro da escola pôde protegê-lo. Gianfrancesco aprendeu cedo que pagamos um preço por cada palavra. Sombras do Passado foi um tremendo sucesso e alunos de todos os anos aplaudiram e gritaram o nome do vice-reitor durante o espetáculo. A produção, em sua breve temporada, deixou saudades.

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Botei um espumante no freezer. Escrever de fogo talvez seja um caminho.

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Escrevo e encho a cara ao mesmo tempo. Se dava certo pro Hemingway, dará certo para mim. (eu sei, eu sei, me deixe)

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Gianfrancesco escolheu continuar a escrever e, apesar de se meter com política estudantil – foi presidente da Associação Metropolitana dos Estudantes Secundários –, em vez de seguir carreira política, resolveu se concentrar nas palavras.

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Hoje é dia das mães e escrevo aqui na sala, com minha mãe fazendo comentários pouco elogiosos ao governo, aos animais que apoiam esse governo desastroso, a ministros e ex-ministros e penso, de novo, na vida da minha personagem. O que diria Guarnieri do mundo em que vivemos? Ele estaria com nojo, permitam-me arriscar. Nojo do presidente e da presidência, nojo dos relativistas das mortes, nojo de quem não uivou com as mortes de Aldir e do Migliaccio e do Santana e da Lúcidi e dos outros mais de onze mil mortos (até agora, leitor, até agora). Ele estaria horrorizado com os caras de direita que não respeitam o isolamento social – que não passa duma invenção para reinstalar o comunismo no Brasil (???) –  e da classe média de esquerda, muito ciosa dos perigos da pandemia, que quebra o isolamento a cada dois dias pra viver aventuras essenciais, tipo andar de bicicleta por Ipanema, visitar a madrinha, comprar aquela massinha que só tem naquela rotisserie-que-não-faz-entrega, sabe, naquela ruazinha fofa porque afinal estamos do lado dos bons. Guarnieri, quero crer, cuspiria em todos nós. Ou, melhor ainda, faria uma peça foda, achincalhando geral.

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Não me parece possível encontrar um ponto onde se diga “Aqui, bem aqui, Gianfrancesco optou pela arte popular. Ele optou, neste momento, falar do povo e suas dores, do povo e suas vivências, do povo e da vida do povo. Era um menino de classe média que não se escondeu atrás do discurso, ainda em voga, nós os italianos. Menino europeu, filho de maestro e harpista, que poderia tranquilamente vestir a capa do italianinho que vê graça no cotidiano dos trópicos, mas não foi isso que fez Gianfrancesco. Ele desde cedo que identificou fortemente com a classe operária e a transformou em sua principal bandeira.

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Quando se trata de um autor da grandeza de Guarnieri, é injusto destacar só uma obra do cara, afinal, são tantas grandes obras. Por outro lado, é injusto citar O jardim do diabo, quando se fala de Luis Fernando Verissimo, ou Anarquistas graças a Deus, quando se fala de Zelia Gattai? Ou será que escolher uma, entre uma porção de obras genais, é também um gesto de amor? A tentativa honesta, ainda que reducionista, de condensar o que um autor que amamos tem de melhor?

Enfim, quando tratamos da obra de Guarnieri, é difícil, demais mesmo, escolher. Mas se você pedisse e só porque você pediu, sempre elegerei Eles não usam black-tie como a melhor coisa, dentre tantas tão boas, que o velho escreveu.

Nessa peça, temos um operário em cena. Pela primeira vez, o teatro brasileiro tem um cara pobre, não caricato, em cena. E ele sofre e briga com o pai e descobre que vai ser pai também e perde e se frustra e oscila entre dois polos bem na frente do público que, usando seus melhores vestidos e sapatos, nunca tinha visto nada parecido. Palavras como “patrão” e “greve” e sindicato” explodem em cena e, quando nos damos conta, estamos ali testemunhando mais conflitos de classe do que conflitos românticos. É uma obra enorme, ainda mais se tivermos em mente a época em que foi pensada, escrita e posta nos palcos, por um menino de 22, 23 anos. Mas sua grandeza independe da época ou da idade do autor. Ela é importante porque fala dum pedaço suro e lindo da nossa história, dum jeito suro e lindo. Guarnieri capturou o espírito de sua época em falas, atitudes e fez isso alicerçado em diálogos muito bem estruturados e numa sequência de acontecimentos de gelar a espinha e de deixar boquiaberto qualquer professor de literatura, crítico ou escritora apaixonada por ele, seja lá em que época for.

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A peça, Eles não usam black-tie, contava com elenco formado por Leia Abramo, Eugênio Kusnet, Guarnieri, Riva Nimitz, Miriam Mehler, Milton Gonçalves, Flávio Migliaccio e Chico de Assis. A direção foi de José Renato. O texto é incrível, mas vamos combinar: difícil não dar certo com esse elenco.

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Gianfrancesco dizia que entender o mundo se dá de duas formas: pelos olhos de quem domina ou de quem é dominado.

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Leio os planos da amiga-da-amiga de reunir, hoje mesmo, três gerações da família num almocinho, “afinal não nos vemos há trinta e cinco dias”. Minha filha, isso não é um almoço de dia das mães, é um pacto de suicídio.

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Todo comunista e fazia novela, o Guarnieri? Pois. Fazia. Para além das contas a pagar, Guarnieri acreditava que o povo merecia diversão. Entretenimento. Fantasia. Fuga. Fazia novela, sim, como quem faz um menino rir, uma senhora dar uma fungadela numa cena muito sentida, um cara sonhar com mundos outros. Ele era um grande ator, cheio de recursos, autodidata e feroz em seu próprio método (o arrepio de Gianfrancesco à academia, mesmo reconhecendo seus méritos e valor, de alguma forma nos aproxima ainda mais).

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O povo que ele queria que risse e sonhasse está sendo dizimado, espremido entre um governo acéfalo, feito de e para imbecis, negacionistas burros, negacionistas imbecis e negacionistas burros and imbecis, que pra mal dos nossos pecados inda se acham grandes analistas da realidade brasileira. Hoje é domingo e temos mais de onze mil mortos pelo Covid-19, vírus que o brasileiro batizou de Coronga. Guarnieri adoraria o apelido. Aliás, meu pai também.

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Gianfrancesco veio para São Paulo em 1952, aos dezoito anos, porque já sabia que não teria opção além de ser ator e escritor. Ajudou a fundar o Teatro Paulista do Estudante, uma companhia teatral que, em 1955, fundiu-se com outra companhia, o Teatro de Arena. Sob esse nome, a companhia definiu os rumos do novo teatro brasileiro e fez frente ao regime militar com grande dignidade.

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“A gente tem de ser firme”, me diz a Andréa Natal, querida demais. Gianfrancesco concordaria com ela.

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Em 1956, a montagem da peça Eles não usam black-tie, apresenta ao público de São Paulo, e depois do Brasil, à persona que Gianfrancesco cultivaria por toda a vida: o intelectual de esquerda. Mais ou menos malvestido, mais ou menos impaciente, profundamente humano, ligado às causas sociais, aliás, atuante nas causas sociais, e sempre com um Hollywood no bico.  

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Camisa social de listras, xadrez ou com estampas malucas, calça social vincada, usada com cinto, meia fina e sapato. Às vezes, um terno mal-ajambrado. Cigarro numa das mãos, sempre gesticulando. Voz rouca (o que aconteceu com os homens de voz rouca?). Olho no olho do interlocutor, certezas. Alguns palavrões. Risadas. Biritas até o porrezinho suave. Cabelo penteado para trás. A estética dos anos 1950/1970, a fumaça do cigarro, as discussões. Tudo isso fala demais ao meu coração, o que só me faz gamar mais em Guarnieri.

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A linguagem que permeia a obra de Guarnieri é realista. É direta, é a língua que se fala nas ruas. Guarnieri se preocupa, e muito, em ser entendido. Em alcançar as pessoas nos morros e nos botecos, nas salas de aula, nos sofás de veludo, nos bancos das praças. Guarnieri não inventa um Brasil, ele apenas o encara e registra.
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Eu disse pro meu amigo Char que a palavra dos dias, para mim, tem sido “ignorância”. A incontornável, imposta pela vida, pelos meios e a opcional. Daí ele me disse que não existe ignorância opcional, que isso é só calhordice.

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Guarnieri, mais maduro, fazia o papel do velho bonzinho. Sempre. Ele dizia que era o escolhido para viver qualquer senhor romântico e bonachão nas novelas, mas não parecia ressentido. Ria disso.

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Aqui na nossa rua, onde antes funcionava o consultório do psiquiatra marreta, agora vive uma senhora que faz refeições para uma empresa. O cheiro que toma o Brócolis, nosso querido bairro, é de fazer chorar. Domingo, fim de tarde, ela está a todo vapor, fazendo um peixe dos deuses e testando a minha falta de fé.

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Filho de músicos, Guarnieri adorava orquestras e amava o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Foi um menino encantado com o maquinário que mantinha as peças em cena.  Em uma entrevista para o programa da TV Cultura, o Roda Viva, contou que, muito pequeno, não podia assistir da plateia as apresentações da orquestra regida por seu pai, o maestro, Edoardo Guarnieri. Por isso, ficava em pé no fosso da orquestra sobre uma caixa de instrumento, acompanhando as óperas.

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O universo dos operários, dos trabalhadores, das pessoas comuns que limpavam casas e faziam carros. Esse era o universo que Guarnieri queria imortalizar e que perseguiu por toda sua carreira de dramaturgo, em peças como A semente, Gimba, Marta Saré.

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Entrevista do ex-ministro da Saúde na tevê e, pelas bochechas, Mandetta está quarentenando aqui em casa. Temos nada menos de cinco bolos deliciosos disponíveis para nossa alegria.

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Será que está difícil falar de Guarnieri porque ele é dolorosamente parecido com meu finado pai? Vamos garrar na mão de Freud. Sim, ele é. Mesma geração, mesmas referências literárias (pelo que pude ler sobre o velho Gianfrancesco), bom de copo, bom de garfo, dentes ruins (não péssimos, mas certamente não os teclados de hoje em dia), corte de cabelo horroroso, bigode padrão anos 1970, voz meio suja de cigarro e birita, bom pai, pai foda (ser filho de homens geniais é muito duro, muito mesmo), algo impaciente, algo bondoso, vaidoso demais e ciente de suas próprias qualidades e talentos.

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Guarnieri gostava da dramaturgia por sua permanência. Dizia que o que fica da produção teatral é a palavra.

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Até 1972, quando chega ao fim a companhia Teatro de Arena, Guarnieri esteve lá. A cada montagem. Escrevendo e atuando e repensando um país que, algumas décadas depois, saudaria um bando de analfabetos funcionais como seus salvadores. O Brasil não mereceu a vida e a arte Guarnieri, músico, ator e dramaturgo premiado. Nunca mereceu seu esforço, sua abnegação. Nós, você e eu, não merecemos. Sou feliz por tê-lo e me sinto privilegiada por contar com sua obra no meu repertório, mas olha, que desperdício de talento.

Fal Azevedo, 49 anos, é editora da Drops em Revista e autora dos melhores risotos do território nacional.

Rosa e Vermelho

por Krysse Barros

Vênus no espelho – Diego Velásquez

Um quadro pintado há séculos. Nosso cérebro precisa compreender o que nossos olhos veem. Começa a trabalhar com as informações recebidas pelos olhos que perscrutam a tela em busca de formas conhecidas, detalhes já vistos, posturas ou paisagens antes tentadas por outros artistas. Muitos pontos podem atrair nosso olhar. Invariavelmente o artista escolhe o ponto focal que será o objeto principal da sua obra e concentra neste objeto o que deseja transmitir aos seus futuros observadores.

Analisamos toda obra que vemos segundo critérios estritamente próprios, criados e amadurecidos de acordo com os padrões culturais que cada uma das pessoas ao redor do mundo pôde ou escolheu manter. Ou seja, cada livro lido, filme assistido, peça teatral aplaudida, exposição vista, museu visitado, viagem feita e curso finalizado.

Desenvolvemos opiniões únicas a respeito de tudo na vida, inclusive cultura. Cada um de nós é um espectador único e nos colocamos de frente para uma obra de arte com toda a nossa bagagem cultural.

De frente para a Vênus ao Espelho, de Diego Velásquez, vemos um quadro de nudez, produzido no século XVII em plena Espanha católica de Felipe IV, um país enriquecido pelas viagens exploratórias do século anterior.

Ali, o espectador consegue se transportar, com seu cabedal de conhecimentos, ao tempo histórico em que Diego Velásquez pintou essa mulher nua, reclinada em seu récamier (ou canapé – olha que palavra linda). Posicionando-a desse modo, o artista aumentou suas curvas e as destacou como se fossem uma insensata linha do horizonte. O que nos leva ao objetivo principal da obra: retratar de modo pessoal o clássico tema da Vênus. Velásquez dividiu o quadro entre a tentação em marfim e rosa do corpo desnudo de sua Vênus e o vermelho da cortina, um dramático pano de fundo para o Cupido que segura o espelho, nos atraindo para o rosto da Vênus que nos encara.

O que a Vênus diz com seu olhar refletido que não pode ser totalmente visto, uma vez que o artista utilizou sua técnica de chiaroscuro para obter esse efeito de intangibilidade na mirada que apenas adivinhamos? Essa mulher em sua nudez tão diferente dos padrões vigentes e considerados belos à época realmente nos vê?

Qual seria a história da Vênus desnuda? Que, revolucionária, desafia os padrões de seu tempo com seu corpo magro e sua nudez de costas – não frontal, como era habitual e que observa o espectador de um ângulo impossível devido à posição em que Cupido segura o espelho.

Por que Velásquez, diferente de outros artistas que criaram suas Vênus, não a retratou num opulento nu frontal, como era o usual? Ele compôs um nu sensual e calipígio, escandaloso, mas nada vulgar. Maravilhoso! Há documentos em que constam outros quadros com nus que ele pintou. Nenhum deles, porém, alcançou os séculos posteriores. Teria sido a esperteza em retratar uma mulher fora do padrão de beleza da época que salvou esse quadro da destruição?

 Velásquez teve uma vida confortável desde o nascimento. Desde cedo demonstrou aptidões artísticas e seus pais o colocaram sob a tutela de um mestre que o ensinou as técnicas de pintura por seis anos, dos onze aos dezessete. Com dezoito anos, prestou um exame que o habilitou a pintar obras sacras e obteve licença para atuar como pintor profissional. No ano seguinte casou-se com a filha do seu professor e já fazia retratos em sua cidade natal, Sevilha. Sua habilidade fez com que se tornasse rapidamente conhecido e com vinte e três anos foi para Madri pintar o retrato de um nobre que o recomendou ao rei. Este se fez retratar por Velásquez e teve tanta estima por seu retrato que o tornou um dos pintores da corte.

Velásquez não apenas era um mestre do Barroco, um virtuose do chiaroscuro (claro/escuro), um excepcional retratista. Era também uma pessoa de modos sociáveis, inteligente e com uma veia irônica e profundamente orgulhoso de sua carreira e trabalho. O espírito amigável do pintor pode ser constatado em diversos, senão na maioria de seus trabalhos, nos quais há amiúde a presença de um personagem a observar o espectador a partir da obra. Por vezes é o próprio Velásquez quem nos observa, como que a indagar se porventura está você admirado com a obra que ele produziu.

Krysse Barros tem 53 anos, quatro filhos e dois cães resgatados. Aprendeu Direito na faculdade e a ser de esquerda em 1978 assistindo à “propaganda eleitoral” na TV. Gosta de praia, cinema, literatura e teatro. Acredita que a única filosofia possível é viver cada dia que se apresenta e sonha, ah, Deus, que um dia ainda vai conseguir morar sozinha.

Como limpar janelas de vidros

por Suzi Márcia Castelani

Para limpar uma janela de vidro é necessário que se tenha uma janela, que a mesma seja de vidro e que os vidros estejam sujos.

Caso tenha uma janela de vidro e ela esteja limpa, convém aguardar umas três semanas. Neste tempo, certamente, se formará uma película de poeira em todos os vidros da janela de maneira uniforme. Pronto. Agora você tem uma janela de vidros sujos e já podemos retomar o projeto.

Um material excelente para limpar janelas de vidros sujos é camiseta velha. É importante que seja velha pois o uso deixa o tecido mais macio, livre de gomas e permite limpar todos os cantinhos de poeiras resistentes.

Caso possua somente camisetas novas, é imperativo que aguarde um tempo de uso que comporte muitas lavadas, que as muitas lavadas desbeicem as costuras deixando-a no ponto correto de maciez adequado à limpeza de vidros sujos.

Esse tempo servirá para acumular ainda mais poeira nos vidros já sujos de sua janela, possibilitando até que pequenas aranhas teçam teias nos cantos de alguns vidros.

No caso disso acontecer saiba: o ciclo normal de vida de uma aranha pequena, se ela não tiver um encontro fatal com uma chinelada é de cerca de um ano. Tempo mais que suficiente para eclodir seus ovos e os filhotes deixarem a ninhada.

Pense bem. Na impossibilidade temporária de limpar os vidros por falta de camiseta velha, sendo a sua ainda nova, e tendo que esperar que o tempo e as lavagens ajam sobre o tecido, essa ninhada pode ser muito útil devorando outros pequenos insetos que se aventurem pela casa.

Portanto, durante este tempo, evite matar moscas, grilos e qualquer outro inseto de pequeno porte que apareça em qualquer dos cômodos pois há uma família de pequenas aranhas habitando temporariamente sua janela de vidros sujos e seria uma lástima eles não terem o que comer, sob a sua jurisdição.

Se possível, estenda fitas adesivas dupla face em todas as superfícies antes de dormir para aprisionar pequenos insetos e levá-los, ainda vivos, à pequena teia na janela. Hospitalidade. Já que você ainda não tem uma casa de janelas limpas vamos pelo menos manter o ambiente saudável.

Uma vez eclodidos os ovos e tendo as pequeninas aranhas abandonado a teia-mãe, certamente sua camiseta, que era nova, já chegou no ponto que desejávamos e podemos iniciar os trabalhos.

Para retirar o grosso do pó que se formou nesses vários meses antes de poder usar a camiseta, agora velha, recomendo um pincel do tipo achatado. Varra com ele todos os vidros, por dentro e por fora da janela, parapeito inclusive.

Nesta parte da tarefa recomendo que use um avental já que a única camiseta velha que você tinha será usada para a limpeza do vidro e não queremos sujar sua roupa ainda nova, ou queremos?

Um método eficiente de não sujar a roupa na hora de limpar os vidros sujos da janela é tirar toda a roupa e realizar a tarefa nu.

Para a eficácia desse método é necessário que planeje com cuidado o tempo de envelhecimento da camiseta para calhar no verão. Não que não seja possível executar a tarefa nu, no inverno. Sim, é possível, mas desconfortável. Fica a critério de cada um.

Encha um borrifador com vinagre branco. Borrife sobre cada vidro, passando a seguir a camiseta velha, esfregando com força e mudando para uma parte limpa da camiseta a cada novo vidro.

Ao final do processo, sua janela de vidros sujos se transformará em uma janela cristalina diante de seus olhos. A janela de vidros limpos filtrará os raios de sol, uma beleza de se ver pelo lado de fora!

Perceba que é recomendável que vista sua roupa, caso tenha realizado a tarefa nu, antes de sair pra apreciar o resultado do trabalho. Mas caso não se importe em flanar ao ar livre exibindo suas partes pudendas, nada contra.

Mas se nu, talvez fumando um cigarrinho, apreciando o bom trabalho alguém passe e leve a mão à boca numa expressão de espanto, evite a frase ficou limpinho, né? Você pode ser mal interpretado.

É tempo, então, de jogar fora a camiseta velha, agora velha e imunda, no lixo e recomeçar todo o processo.

Suzi Márcia Castelani é artesã de flores e palavras.

A arte não tem simpatia pelo humano

por Suzi Márcia Castelani

Photo by Steve Johnson 

Nossa rotina esmigalha nossa capacidade de concentração e contemplação. Temos obrigação de ser livres, de escolher todo o tempo e o futuro é sempre incerto.

A angústia é dado originário da condição humana e construímos uma forma de sociedade que a aprimora a cada dia.

Vivemos presos em hipnóticas ocupações e no falatório superficial da cotidianidade. É uma angústia sem objeto, de uma realidade sem rosto, o lamento profundo pelo nosso destino de sempre morrer no final.

Vivemos constantemente preocupados sobre nossa permanência no mundo. Batalhamos diariamente por sucesso mas o chegar lá é tão vago que nos sentimos permanentemente derrotados.

Para sermos, precisamos primeiro entender nosso lugar no mundo. Na sequência, conhecê-lo e as estruturas que o sustentam. A ansiedade acontece quando entendemos que nossa atuação neste mundo é parte do que determinará as mudanças desejadas.

Só nos angustiamos quando somos. A existência pressupõe o sofrimento pois só há tranquilidade na ignorância e na cegueira social.

A ansiedade não pode ser afastada inteiramente. O que a psicoterapia pode fazer é nos ajudar a ter uma perspectiva sobre ela de modo que não sejamos apenas vítimas mas também observadores que entendem a tormenta.

A arte também é feita de angústia e não precisa ter simpatia pelos humanos. Nem acolher. Deleuze afirma que a grande arte olha para o mundo como se fosse pré-humano.

A proposta do novo requer imaginação. Para imaginar é necessário pressupor o que ainda não há.

A arte, diante da impossibilidade de segurar o tempo, aprisiona e marca uma época, identifica um período. É uma das respostas do homem ao determinismo do tempo, que o premia com a morte.

É sempre um grito, um rasgo individual. O lado criativo é feito de dor e angústia. O artista rende-se à ela como centelha criadora, o desejo da própria imortalidade.

Em um primeiro momento, a obra de arte constrói-se com base no ponto de vista interno do autor. A arte influencia o mundo muito mais do que é influenciado por ela. Quando nasce não pretende explicar qualquer coisa que não seja ela mesma.

Uma obra pode ter uma originalidade tão esmagadora a ponto de assombrar sua época e fazer com que gerações futuras se debrucem sobre seus signos fundantes sem nunca mais ser capaz de escapar seja pela negação ou concordância.

O sublime, para Harold Bloom é o fracasso do pensamento lúcido e sempre supre sua ausência.

Qualquer coisa que nos tira da esfera humana, que nos relativiza, seja por grandiosidade ou beleza, que nos coloca em contato com algo maior, tem o poder de restaurar a perspectiva e nos acalmar.

Que seja a arte essa coisa. Forjada na dor e na angústia que em todos é matéria, mas só a genialidade é capaz de traduzi-la em obra perene, captando o etéreo, o desejo de fuga de uma lucidez aprisionante para a materialização do sublime, essa arte que, quando ocorre, é imortal.

Suzi Márcia Castelani é editora e artesã de flores e palavras.

Abra suas asas

por Lucas Pedroso

Quando me pediram para criar um drink que representasse minhas impressões sobre os anos 1970, fiquei bastante inseguro. Como homenagear um período que eu não vivi? Certamente vou acabar me agarrando aos lugares comuns. Aliás, o simples ato de escrever algumas linhas sobre essa década beira a prepotência, e sei que vou ficar com a impressão de que escrevi um texto episódico e óbvio, como uma redação de um adolescente pouco inspirado em uma sala de aula. 

Fiquei um pouco mais otimista quando me dei conta de que mesmo as lembranças dos anos que vivi são todas retratadas na minha mente com cores fortes e pinceladas apaixonadas. Provavelmente me esqueci de fatos importantes que presenciei e atribuo relevância quase fanática a detalhes insignificantes que, no final das contas, compõem os quadros na parede da memória.

Em resumo, representar uma década, mesmo pra quem a viveu, é uma tarefa que nasce incompleta, pois nossos olhos têm lentes distorcidas e nossa memória nos trai de acordo com o que o coração sugere.

Mas tanto li, dancei, assisti e ouvi sobre os anos 1970 que é como se eu tivesse presenciado tudo. É um grande baú de sentimentos e sensações que eu vivi mesmo sem ter conhecido. Ou que eu conheci mesmo sem ter vivido, não sei ao certo.

Se escrever é se expor, elaborar um drink não é diferente, acreditem. Sei que exagero um pouco ao escrever isso, mas o fato é que a receita acaba sendo fruto tanto do autor quanto de seu tempo. Já adianto que criei duas receitas para escolher a melhor e acabei me apegando a ambas. Isso já mostra algumas características minhas, como a precaução e a indecisão. Os ingredientes que consegui comprar e mesmo os adereços usados nas fotos foram adaptados para a realidade que enfrentamos de isolamento social, como se 2020 quisesse se impor sobre 1970. Tentei não permitir e é claro que, em parte, falhei. Acrescento que, se o cenário político atual remonta a fatos aterradores da década homenageada, cabe a nós buscarmos na mesma década as diversas referências de alegria, resistência, tolerância e liberdade.

Mas voltemos à minha influência sobre o que eu mesmo criei (pensando agora, não havia como ser diferente, não é mesmo?). Um dos drinks devia ter sido feito com vodca, mas usei gin. Não se bebia muito gin nos anos 1970, a bebida saiu recentemente do ostracismo após um longo período. É que, bem, eu adoro gin. Não haveria como não usá-lo. E vodca não tem gosto de nada, só de álcool (porém não se enganem, bebo drinks de vodca muito feliz).

Esse drink de que falo é uma releitura do Hi-fi. Isso mesmo, a famosa mistura de Fanta laranja com vodca. Era combinação obrigatória em festas dos anos 1970, e me lembro de minhas tias comentando saudosas de quando tomavam alguns copos e dançavam e paqueravam a noite toda. Confesso que eu achei por muitos anos que o nome da bebida era High Five, motivo pelo qual esse será o nome da minha versão. Eu podia ter escolhido algo homenageando a Cuba Libre, também bastante apreciada. Como um drink que tem Cuba no nome leva o refrigerante símbolo do capitalismo? Aí está algo que sempre me intrigou. Mas não foi isso que me fez escolher outro caminho, e sim o fato de que a receita deixa, penso eu, pouco espaço para a criatividade. O outro drink, que nomeei Frenético, lembra um ponche de frutas, também muito popular à época, e o concebi de modo que visualmente remetesse às cores de um globo de discoteca. Ficou delicioso. O gelo vai derretendo e o drink vai ficando cada vez melhor conforme o tempo passa. Como os próprios anos 1970.

High Five

Esprema frutas cítricas de sua preferência. Usei uma laranja Bahia, uma laranja pera, uma tangerina e um limão siciliano. É o que tinha em casa. Meça o suco e ferva brevemente com o mesmo volume de açúcar. Coloquei também um pedaço de gengibre, que eu adoro. Especiarias certamente trariam nuances interessantes de sabor. Quase coloquei um anis estrelado, mas descobri a tempo que só em 1982 a Rita Lee chupava drops de anis no escurinho do cinema, então a referência perdeu sentido e eu desisti. Voltemos à receita. Espere esfriar um pouco e bata no liquidificador por 1 minuto com as raspas das frutas alaranjadas. Coe bem e guarde em uma garrafa na geladeira. Esse xarope conserva-se bem por aproximadamente um mês e pode ser usado para fazer soda italiana ou adoçar chá. Tenho sempre algum xarope de fruta guardado. Admito que acrescentei um pouco de xarope artesanal de framboesa ao de laranja, mas só porque eu tinha na geladeira e achei ajudaria na coloração sem alterar o sabor. Totalmente estético e dispensável. Num copo alto com gelo, despeje 45ml de xarope de laranja, 60ml de gin e um dash de Angostura. Complete com água com gás e misture levemente com uma bailarina.

Frenético

Faça gelos coloridos saborizados com frutas. Há vários modos possíveis de se fazer isso, por exemplo simplesmente batendo as frutas com água e açúcar no liquidificador. Eu escolhi ferver as frutas com água e açúcar e depois coar. Isso deixa as cores mais vivas e, espero eu, ajuda na conservação. Os gelos podem ser dos sabores que se preferir, os da foto são: morango com framboesa (que eu tinha no freezer), laranja Bahia, abacaxi com laranja pera e gengibre, kiwi com limão posteriormente batido com (muita) hortelã. Para a montagem, complete um copo alto com gelos saborizados, despeje 60ml de rum, um dash de bitter de laranja e complete com água tônica. Mexa suavemente com uma bailarina e sirva. Saúde!

Fotos de Fernando Passarini

Lucas Pedroso é doutor em Matemática Aplicada. Não que importe, mas é a isso que se resume seu currículo. De típica personalidade taurina, não acredita em signos. Consegue discorrer sobre qualquer assunto por não mais do que três minutos.

Black-tie, privacidade e um universo confinado

por Cyntia Menezes

Foto de Nestor Morales

No primeiro ato de “Eles não usam black tie”, Guarnieri assim descreve a cena: “Barraco de Romana. Mesa ao centro. Um pequeno fogareiro, cômoda, caixotes servem de bancos. Há apenas uma cadeira. Dois colchões onde dormem Chiquinho e Tião.” No filme, onde o roteiro permite outros espaços, vemos que Maria divide um pequeno quarto com o irmão. Há pouca privacidade no universo de Black-Tie.

Diz-se que o anseio humano pela privacidade tem várias origens. Vergonha, medo, identidade. Se Adão e Eva cobrem a sua nudez por vergonha, pedem a Deus uma privacidade que até aquele momento era irrelevante, talvez até inexistente. Talvez tenha nascido aí, na nossa caída do paraíso, a ideia de que há algumas coisas que são melhores quando escondidas. Cobrimos nossos corpos não apenas para nos proteger do frio, do calor, do sol ou do vento. Cobrimos principalmente a nossa nudez, ou as nossas vergonhas, no linguajar antigo das bisavós. Cobrimos, finalmente, o nosso desejo e o desejo do outro.

E se o primeiro julgamento vem de Deus, o segundo vem de nós mesmos. Julgamos os nossos corpos e os alheios, e aceitamos mostrar apenas o que consideramos belo. E ainda assim, uma modéstia nascida da vergonha nos faz relutar em aceitar até mesmo os elogios: escondemos nossa alegria em um rubor do rosto e um sorriso sem graça, talvez até mesmo em uma bronca – como faz Maria quando se despe diante de Bié, e ele diz que ela está ficando boa. Não podemos mostrar o feio por feio, mas tampouco podemos mostrar o bonito: nos dá vergonha sabermo-nos belos, e por não aceitarmos a eventual beleza evidente, limitamos nossa capacidade de perceber o belo invisível. A vergonha da beleza natural dos corpos nos limita. E chamamos de privacidade a nossa vergonha. E quem tem corpo, tem vergonha.

Mais adiante na história criada e filmada por Guarnieri, Tião e um amigo discutem uma divergência política em vozes baixas e corpos curvados sobre a pequena mesa de boteco. Aqui a privacidade é limitada pelo espaço público: um bar. E se antes a necessidade do espaço privado nascia da vergonha dos corpos, agora nasce do medo. Não apenas do medo de divergir, mas do medo de assumir mesmo uma opinião própria. Há sempre alguém à espreita, de um lado ou de outro, impondo um limite ao nosso pensar.

Para nos mantermos no universo de Black-Tie, Tião é contra uma greve. Não apenas contra a greve, mas pretende ativamente colaborar para que ela fracasse. Do outro lado, seu pai é membro do sindicato e um dos que estará a favor quando os braços se cruzarem. Tião tem medo de colaborar com os chefes e medo de contrariar o pai. Tião tem medo porque vai ter um filho, porque prometeu a si mesmo dar uma vida melhor para Maria e para o rebento, porque é mais jovem e, portanto, mais cínico que o pai. Tião tem medo, principalmente, da pobreza, dos barracos em que está destinado a viver, dos poucos cômodos compartilhados. Tião tem medo de passar a vida nesta quase total ausência da privacidade que cobre as nossas vergonhas e aplaca os nossos medos. E o medo pede a privacidade dos pensamentos, opiniões e decisões. Tião conversa em privado e decide em segredo. Nem mesmo seu pai, com quem divide o barraco, nem mesmo o seu irmão, com quem divide o cômodo, sabem de sua decisão. Nem mesmo Maria. Tião tem medo, e o medo pede segredo. E um segredo pede privacidade. O medo dos nossos segredos nos limita. E chamamos o medo de privacidade. E quem tem segredo, tem medo.

No filme, vemos cenas na fábrica onde trabalham quase todas as personagens. Chegam todos juntos no mesmo horário, trocam de roupa no vestiário coletivo, usam o mesmo macacão azul. Na hora do almoço, todos juntos na cafeteria da fábrica, todos comem a mesma comida nas coletivas mesas iguais, nos seus idênticos macacões azuis. A tomada de longe do ambiente dá uma impressão de presídio. Talvez fosse esta a intenção de Guarnieri.

Mas um presídio não marca só pela ausência de liberdade. Um presídio é também uma ausência de identidade. Vestimentas iguais, comidas iguais, espaços iguais. Não há possibilidade de escolha, e sem escolha não há identidade. Nos identificamos pelas nossas escolhas internas e externas. Nossas comidas, nossa forma de viver, nossas roupas, nossos gostos. Tudo é parte de uma identidade criada por pensamentos e escolhas privadas, ainda que inconscientes. Não preciso ser consciente de uma escolha ou das razões para tal escolha, para que ela exista, e para que ela me defina em uma identidade.

Quando de nós é retirada a escolha, abrimos mão da identidade que decidimos por nós mesmos na privacidade do nosso existir. Penso, logo, existo. Penso, logo, escolho. A ausência de escolha nos limita. E chamamos nossa identidade de privacidade. E quem pode escolher, pode ter identidade.

Já hoje distante do universo de Guarnieri nos anos 1970, nossa crise da privacidade é outra. Já não temos tanta vergonha, nem dos nossos corpos, nem da nossa nudez, nem dos nossos desejos. Já nos acostumamos às câmeras constantes: às vezes até reclamamos um pouco e fingimos alguma indignação, mas na verdade ninguém mais se importa em ser filmado ou fotografado todo o tempo. Na verdade, fazemos isso voluntariamente, e colocamos em redes sociais esperando ansiosamente que mais gente nos veja e mais gente coloque um coraçãozinho na nossa foto. Nossa vergonha, agora, parece de outra natureza: a vergonha de ter pouca gente invadindo a nossa privacidade. O pouco de nudez que Maria se incomoda de mostrar para o irmão é hoje moeda corrente no Instagram.

Também o medo dos nossos segredos foi sendo, pouco a pouco, manipulado e transformado em outro medo. O que nos resta de medo de ter nossas opiniões e pensamentos monitorados, vai sendo pouco a pouco diluído pelo medo do terrorismo, da violência e, agora, da doença. Já quase temos a sensação de que é preciso, necessário até, permitir que o estado e o meu vizinho monitorem os meus movimentos, as minhas opiniões e as minhas escolhas, para garantir, vejam vocês, a minha própria segurança e saúde. Fomos pouco a pouco aceitando pequenas erosões dos espaços físicos e psíquicos, porque parece que há sempre um mal maior a ser combatido. Que este mal maior eventualmente seja a privacidade em si parece nos escapar.

Não poucas vezes ouvi no próprio universo acadêmico que hoje me cerca, variações surpreendentes do bom e velho “quem não deve, não teme”, no que me parece um desvio do próprio conceito de privacidade. Estamos equalizando a privacidade com a necessidade de esconder algo que é necessariamente mau, errado, até mesmo ilegal. E que, portanto, somente alguém mal-intencionado ou criminoso teria necessidade de privacidade. E nesta simplificação infantil das nossas vidas, nos esquecemos que todos vivemos experiências que eventualmente são melhores quando vividas em privado, talvez até mesmo em segredo. Às vezes amamos em segredo, e desamamos também em segredo. Ficamos tristes e doentes, e às vezes a melhor maneira de lidar com isso é na privacidade dos nossos sentimentos. Há também, às vezes, momentos de infinita alegria e felicidade que, por serem tão especiais e delicados, só sobrevivem quando experimentados a sós, quando vividos intensamente por dentro, sem palavras, textos, fotos ou vídeos. Sem qualquer interferência externa neste espaço tão raro da plenitude da vida. Transformamos a nossa vida em um grande big brother voluntário e esquecemos que nós, humanos, somos mais, muito mais, do que este teatro de intimidade forçada que nos venderam como um “show de realidade”.

Porque agora, enquanto escrevo este texto, e enquanto estamos confinados em nossas casas, e os espaços públicos foram radicalmente diminuídos, nos damos conta de que este big brother não nos alimenta como indivíduos. Não importa quantas fotos e pensamentos compartilhemos nas redes sociais, ainda nos faltam abraços. Não importa quantas receitas novas inventemos na cozinha, nos faltam as escolhas diárias que nos definem. Construímos uma nova identidade em confinamento, uma privacidade ao mesmo tempo devastada pela doença, mas recriada pelo isolamento. Nunca estivemos tão próximos dos nossos pensamentos. Nunca estivemos tão conscientes da nossa identidade, ou da falta dela. Nunca a nossa superexposição virtual nos pareceu tão banal e sem sentido.

Confrontados com um mundo onde tudo parecia compartilhado o tempo inteiro, e onde a privacidade parecia uma palavra distante em algum regulamento esquisito, nos demos conta: ainda temos vergonha, ainda temos medo, e ainda temos, incrivelmente, identidade.

Cyntia Menezes é brasileira, advogada, eterna estudante, candidata a blogueirinha e cantora de quarentena. Atualmente mora em Barcelona e tenta inutilmente concluir um Doutorado em cibercriminalidade e Inteligência Artificial. Quando sair do confinamento, irá à praia.

Onde o verbo se faz carne

por Suzi Márcia Castelani

Pertenço a uma geração que sabe que perdeu.

Não há tempo suficiente em nossas vidas para o longo exercício de virada que possibilitará o retorno à civilidade.

Porém, trabalhamos com a linguagem e ela nos possibilita o registro do tempo atual que hoje reflete nosso absoluto contraponto ao discurso oficial.

O poder responsivo da linguagem é a única arma da qual dispomos e faremos uso dela como tantos outros o fizeram antes de nós. Para esta tarefa, a importância dos saberes que nos precederam é gradativa em escala ascendente e só poderemos dizer o nosso tempo lançando um olhar de genuíno interesse sobre quem já viu o mundo e o retratou em diferentes épocas e nas várias linguagens da subjetividade humana.

O teatro é uma dessas linguagens e seu poder de alcance pode ser medido pela violência com que o autoritarismo sempre o atacou. O dramaturgo tem o poder de propor realidades e os atores de encená-las. Uma nova época, um novo mundo, uma nova forma de convivência acontecendo no palco, aos olhos do público que acessa a ideia posta e, perigosamente, pode se perguntar:

E, se…?

O autoritarismo reconhece na arte mais que uma forma de saber. Intuitivamente, pois carece de estrutura para um pensamento formal, entende sua capacidade de mobilização e age da única maneira que conhece, reprimindo.

Todas as vezes que a repressão, o conservadorismo do atraso e o pensamento obscuro tomaram o poder, o teatro brasileiro se impôs em absolutas obras primas escritas por autores nacionais.

Foi assim em 1943 com Vestido de Noiva de Nelson Rodrigues:

Eles Não Usam Black Tie em 1958 de Gianfrancesco Guarnieri:

O Rei da Vela escrito por Oswald de Andrade em 1933 e encenada em 1967 no teatro Oficina por José Celso Martinez Corrêa.

Três peças que promoveram mudanças importantes na linguagem teatral do país, colocou a gente brasileira no palco com suas mazelas, sua moral cotidiana e suas discutíveis relações de classe e trabalho.

A muitos autores, atores e diretores desta época, o fazer teatral com opinião e subjetividade custou o exílio e a consequente derrocada dos espaços da arte que ressurgiram nos anos 1980 com grupos de artistas de grande talento mas não mais dispostos a pagar tão alto preço por denunciar as dores do seu tempo.

Passamos então a falar de juventude, bom humor, interpretação despojada e criação coletiva. Jovens desconstruindo textos clássicos para falar de si mesmos numa bela e necessária maneira de existir naquele momento.

Já falamos de flores num recorte temporal que permitia. A proposta agora é absorver a realidade massacrante dos nossos dias e devolver, em linguagem, um mundo como gostaríamos que fosse. Fundado em saberes, confrontado por evidências e buscando uma direção que comporte a caminhada de todos, no mesmo passo. O momento da denúncia passou. Nossa geração precisa encontrar uma forma de registrar, para as gerações seguintes, que nem tudo neste momento é pulsão de morte, barbárie e afronta. Que alguém, ao se debruçar sobre nosso tempo, encontre, nas muitas expressões da nossa subjetividade, desejo de vida, de igualdade e de justiça que, enfim, sobreviva a todos nós.

Suzi Márcia Castelani é artesã de flores e de palavras.