Alegrias, epifanias e alumbramentos

por Vera Guimarães

Eu devia ter uns 4 anos. Morávamos num bairro afastado do centro da cidade ainda meio urbana, meio rural da década 1940. Nas idas ao comércio atravessávamos um largo, uma protopraça, um gramado quadrado, arborizado, sombreado pelas paineiras, ou barrigudas. Em certa época do ano, caíam suas flores, salpicando de rosa a verde grama. O dia em que peguei uma dessas flores, examinei de perto sua textura, senti seu cheiro, apreendi aquele rosa…ah, foi minha primeira consciência da beleza!

Nas férias de julho nós, os pequenos, éramos levados para alguns dias nas fazendas dos tios. Numa delas havia profusão de revistas, Seleções do Reader’s Digest, Cinelândia, Revista do Rádio, que eu levava para uma varanda lateral… Sinto até agora o calor do sol da manhã, a paz da solidão no enorme banco de madeira lavada, ouço os ruídos de grilos e cigarras, vejo ao longe a mata virgem evocando mistérios e perigos.

Na adolescência descobri a Praça de Esportes e ali construí um mundo de sonhos, desejos, atividades, amigos, flertes, vi atletas talentosos, quis entrar na roda. Entrei para o vôlei juvenil. Nunca fui uma boa jogadora. Um dia, num treino, consegui a impulsão necessária, subi, o cálculo mental de distância entre mão e bola estava certo, fiz o giro na hora certa e… foi perfeito. Foi a única vez.

Na hora-dançante, o inacreditável moço bonito e interessante me dando atenção e a ilusão de que eu pertencia àquele lugar, nós rindo e nos divertindo ao som de Jean-Paques et Sa Musique Douce.

Adulta já, fui a serviço a uma pequena cidade do interior de Minas. À noite, os anfitriões me convidaram para visitar uma das poucas atrações da cidade, uns telescópios instalados nos altos de uma casa. O encarregado me instalou na cadeira, focalizou um ponto e me passou o aparelho. Diante de meus olhos, na imensidão negra, me provocando arrepio “do cóccix até o pescoço”, Saturno em sua majestade.

Vera Guimarães é nascida em 1942 e até hoje perplexa. Como na foto aos 2 anos.

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