A voz dos profetas

“A Adoração dos Magos”, 1270, tempera sobre madeira,
do pintor italiano Guido da Siena (c.1230-c.1290),
Museu Lindenau, Altenburg, Alemanha.

Os reis magos vieram do oriente procurar pelo Rei dos Judeus que havia nascido na Judéia. Viajaram guiados por uma estrela, mas não tinham a localização precisa.

Passando por Jerusalém, resolveram perguntar a Herodes, o rei da Judéia, onde estava o menino que havia nascido para ser o Rei dos Judeus.

Inocência, imbecilidade ou afronta? Jamais saberemos.

Fato é que Herodes disse: Não sei a localização, mas, se encontrarem, passem por aqui na volta que eu também quero prestar minhas sinceras homenagens a um menino que dizem ser rei no meu território.

Os reis magos seguiram viagem, avistaram novamente a estrela que indicava o local e conseguiram chegar ao lugar do nascimento de Jesus.

Na volta, foram avisados em sonho que não retornassem pelo mesmo caminho e não avisassem Herodes.

Também por sonho, José é avisado que Herodes irá procurar o menino para matar e recebe ordem de fuga da família para o Egito.

Vendo que havia sido iludido pelos reis magos do oriente, Herodes se enfurece e manda matar todos os meninos – de Belém e de todas as cidades ao redor – de dois anos ou menos.

Pausa para relembrar.

Sobre a concepção de Maria já falamos aqui:Zacarias e as primas

Com o apoio do profeta Zacarias, casado com sua prima Isabel, Maria precisou de uma saída criativa para sua situação, já que a saída usual era a pena de morte por apedrejamento.

Sozinha, ela não teria a menor chance, mas apoiada por um sacerdote e seu noivo José, fundamentados em profecias centenárias, eles poderiam reverter o quadro em seu favor. Para isso, teriam que sustentar a história por toda a vida.

Aqui, neste episódio da fuga para o Egito, lanço uma severa desconfiança sobre José.

Ao chegar em Belém, na visita ao menino, certamente os reis magos mencionaram a passagem por Jerusalém e a fala de Herodes. José e Maria sabiam dos riscos que corriam. Aliás, sabiam dos riscos que todas as crianças recém-nascidas corriam a partir desse dia e mesmo assim fugiram para o Egito sem avisar ninguém. Sem sequer tentar salvar outra criança.

Por quê?

Para que uma história baseada em profecias tenha credibilidade, é necessário que as profecias se cumpram.

Para este episódio, havia a profecia de Jeremias, que dizia:

Em Ramá se ouviu uma voz, lamentação, choro e grande pranto; era Raquel chorando seus filhos e não querendo ser consolada pois já não existiam.  Mateus 2:18

Essa profecia é citada na Bíblia, na sequência do relato de Mateus da visita dos reis magos como parte integrante dele. José e Maria, apoiados pelo sacerdote Zacarias, haviam dito que aquela criança era sagrada. Nasceria Rei dos Judeus cumprindo a profecia de Isaias. Agora nascida, era o momento de outras profecias se concretizarem.

A fuga da família para o Egito e a subsequente matança dos meninos por Herodes tornou verdade a voz do profeta Jeremias.

O relato de Mateus segue informando a morte de Herodes e a decisão da família de retornar para a terra de Israel. O último versículo do capítulo 2 diz, textualmente:

E chegou e habitou numa cidade chamada Nazaré, para que se cumprisse o que fora dito pelos profetas: Ele será chamado Nazareno.

Era mais uma profecia que a sagrada família fazia cumprir. Maria não apenas gerou um rei. Ela personificou várias profecias e dedicou a sua vida a tornar o reinado de seu filho autêntico, crível, real e incontestável, pois qualquer vacilo poderia significar a morte por apedrejamento e a pena não prescrevia. Por tudo isso, Maria é meu personagem favorito dessa saga humana fantástica chamada Novo Testamento.

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