A decadência elegante de Lucia Berlin

por Tina Lopes

Hoje quero contar as histórias dos malditos, dos esquecidos, dos que não eram pra ser ou dos que eram e falharam miseravelmente. Então falo novamente r Tina Lopesde Lucia Berlin e sua pequena grande obra. Quem me conhece já me ouviu/leu recomendar O Manual da Faxineira, única coletânea lançada no Brasil, em 2017, e que reúne os principais entre os 76 contos que publicou em vida – Lucia nasceu e morreu em 12 de novembro.

(Conselho para a faxineira: Aceite tudo o que a sua patroa te der e diga obrigada. Você pode deixar o que não quiser no ônibus, na fenda entre o encosto e o assento do banco)

Entre o primeiro e o último foram 68 anos de extremos, da formação em boas escolas e vida de filha de executivo a alcóolatra com quatro filhos para criar, de três casamentos diferentes que a levaram para o mundo da arte, das drogas e da pobreza – e até a viver de faxina, como conta o título. Morou no Alasca, no Texas, no Chile, na Califórnia; volta e meia surge uma expressão em espanhol, e seus textos emanam calor e suor.

(Faxineira: Tenha como regra nunca trabalhar para amigos. Mais cedo ou mais tarde eles acabam ficando ressentidos porque você sabe coisas demais sobre eles. Ou deixa de gostar deles, pela mesma razão)

“Até onde me lembro, eu sempre causei péssima impressão”, constata uma de suas personagens. Impossível, pois Lucia Berlin era linda, uma Liz Taylor – principalmente no set de Quem Tem Medo de Virginia Woolf. Encarnava inteligência e beleza, dom e maldição. Dizem que ela tinha compaixão por seus personagens, pois não os julga quando relata suas pequenezas e tragédias. Dizem também que nem todos os contos são autobiográficos, se é que isso é possível. Porém, apesar de descrever situações, sentimentos e atos terríveis, Lucia Berlin nunca chega ao desespero.

(Faxineira: Você inevitavelmente vai trabalhar para muita mulher liberada. O primeiro passo é uma terapia de grupo; o segundo, uma faxineira; o terceiro, o divórcio)

Suas personagens sobrevivem aos abusos, aos traumas, às clínicas sujas de aborto, às lavanderias, aos parentes doidos, às patroas arrogantes, aos amantes canalhas, à pobreza, à vontade de nunca ter tido filhos. Mas não se trata de resignação nem a tal resiliência, longe disso. Lucia Berlin não tem lições a ensinar: ela observa, conta, vive: simplesmente, é.

Tina Lopes é jornalista e trabalha como mercenária (frila de conteúdo) e pode ser encontrada aquihttps://twitter.com/TinahLopes

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