Acho que a chuva ajuda a gente a viver: um primeiro amontoado de pensamentos sobre mudança

Tenho pensado demais em mudanças de toda sorte.  A mudança virá, queiramos ou não e, conforme o tempo passa, isso fica mais claro. Mudamos porque precisamos mudar, porque queremos mudar, mas também porque simplesmente acordamos a cada dia um tantinho diferentes.

Alteramos, modificamos, transformamos, viramos, variamos. Contamos outra história, buscamos novo contexto, trocamos o nome das personagens, convertemos a essência e nos tornamos o que sempre fomos, o que imaginamos, o que pensávamos detestar, o que tínhamos certeza temer.

Nós nos transmudamos, afastamos, desviamos, transferimos. Trocamos o dia pela noite e o objeto de nosso desejo. Substituímos, cambiamos, permutamos, damos um novo nome ao velho cão e seguimos em frente.

Mudar é, também, inventariar. Para mudar, precisamos passar em revista nossos bem materiais e imateriais. O que temos, o que acumulamos, o que honramos, o que está em sacos pretos lá no sótão, não usado, não visto, não amado. Inventariar para doar, manter, jogar fora, tacar fogo no meio da rua e dançar pelado em volta da fogueira, besuntado em sangue de carneiro (no meu bairro isso não é tão difícil de acontecer, não).

Inventariar o que nos cerca e escolher, escolher, escolher. Escolher também é mudar.

Mudamos, alteramos e nos movemos. A arca que nossa mãe nos deu vai para o outro lado do quarto, a cor do nosso cabelo nunca foi tão escura, os livros de arte mudaram para a sala.

Por fim, acreditemos que mudar é bom. Mesmo quando é ruim, é bom. Trago comigo os ensinamentos dos muitos filmes e séries de zumbi em meu repertório e, por isso, sei: mudar é viver. Só sobrevive quem muda, quem se muda, quem permanece em movimento. Quem para, morre.

Segura no pierrô molhado e vem comigo, ladeira abaixo, sob as bençãos de Caê. Seja o que Deus quiser.

As coisas em que acreditamos

As coisas em que acreditamos nos enfraquecem. Elas nos tornam alvos mais fáceis, bem mais fáceis. Acreditar é o primeiro passo para o abismo. As coisas em que acreditamos revelam de onde viemos, escancaram para onde vamos. As coisas em que acreditamos penduram uma melancia no nosso pescoço. Elas são como uma carta de intenções, o cartão de visitas do conde Drácula, o vestido de baile da Bela Adormecida pendurado pelas fadinhas atrás da porta. As coisas em que acreditamos são uma trilha de migalhas. São a cruz de neon do padre Duncan, amigo do designer Ronald Shakespear. Eu creio. Creio no tom que não é marrom dos seus olhos, no cheiro do seu perfume em meu travesseiro, na sua voz via embratel e na sua coleção de livros. Não haverá paz ou perdão para mim e é bem feito.

Domingo-caderninho

Anotações desconexas, o dia todo com vontade de chorar, canetas sem tampa, desenhos ruins, letra feia, calor em julho, coisas difíceis de falar, coisas difíceis de ouvir, as ferramentas que não possuo, os retornos inesperados, calor demais em julho, o dia todo com vontade de chorar, madrugada de vizinhos barulhentos, sentir-se alquebrada, comida horrível, circunstâncias atenuantes, bagunça, cansaço, tristeza, a raiva absurda de não conseguir fazer diferente, objetos fora do lugar, garrafa de água tônica explodida dentro do freezer, o dia todo com vontade de chorar, evidências claudicantes, impotência, viver para lutar um novo dia, compota de goiaba, calor no pés, pescoço pinicando, almoço bem horrendo, transgressões mínimas, o dia todo com vontade de chorar, respostas improváveis, toalhas na máquina, total impossibilidade de catar aquele telefone e ligar e pedir pra você só cantar pra mim – uma música depois da outra. O dia todo com vontade de chorar, o dia todo com vontade de chorar, o dia todo com vontade de chorar, o dia todo com vontade de chorar, o dia todo com vontade de chorar.

Cecilia e Davi, Nelsão Blues, risoto de brie com pera e uma pista de dança. Diário de um mundo que acabou.

O que é relevante. O que não é relevante. O que importa para mim, o que importa para você.

Estamos beirando os cem mil mortos e, ao mesmo tempo, seguem nossas vidas. Comprei tapetes para a cozinha. Mandei operar de urgência uma gata. Um gasto e um susto que não estavam nos planos. Me apaixonei pelas ervilhinhas que a Suzi colheu no quintal. Esperei um telefonema que não veio. Me afligi com alunos e datas. Recomecei a ver um seriado boboca que adoro.

Cem mil mortos. Ontem, fiz o melhor risoto do mundo e bebi vinho pensando em quem, definitivamente, não deveria ocupar meus pensamentos.

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The umbrella academy. Sim, meu seriado boboca. Vi a primeira temporada mas, com a graça dos céus, não me lembro de patavina. De modos que estou revendo a primeira temporada para, depois, começar a segundona, que tá aí, nova em folha.

Adoro, adoro.

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O presidente é um desclassificado. Só isso mesmo.

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Eu não tenho mais meu pai. Nunca ligamos pra datas, nunca demos a mínima, pra ser bem franca, mas agora que não tenho mais meu pai, todos os dias do pais, há quase vinte anos, são feitos de: eu não tenho mais meu pai. Hoje me emocionei quando soube duma amiga que tem a delicadeza de mandar feijoada para os amigos que não têm mais pai – um presentinho de dias dos pais. Ela envia um almoço especial para os solitários de pai neste mundo. Moro longe demais para uma quentinha, mas me considerei alimentada.

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É julho, ventilador ligado, dou aulas sem meias, bebendo chá gelado. Sou contra demais este estado de coisas.

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Nos últimos tempos, tenho o privilégio de conviver com uma meninazinha de sete anos, um menino de doze. Amo todos os meus alunos, mas os dias dessas crianças são, de longe, os melhores da semana. De longe. Não tem competição.

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A cirurgia da gata foi horrorosa e o cara ainda era bem barbeiro. Ela tá se recuperando, mas eu, não. Não tenho mais idade pra nada disso.

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Achei um uísque do meu pai, aqui. Tá velho, velhíssimo, o rótulo é só uma lembrança, quase 1/3 da garrafa evaporou, a cor é laranja-avermelhado agora e o gosto é como se satanás, pessoalmente, me beijasse na boca e me tirasse para dançar.

Domingo-caderninho

Salva mais uma vez pela música dos anos 1980, fiz uma lista, mudei livros de lugar (“A biblioteca da Fal nunca vai ficar pronta”, disse o velho e bom Candido, certa vez), lavei quantidade industrial de roupa, fiz outra lista, me meti na lista alheia, fiz fondue de queijo (aquele de póbi, com queijo mesmo, não os de rico, com aquele creminho), bebi um bocado de vinho, aprendi com Marli e Mariana que fondue é menina, escrevi sobre o nosso filme (chamo o filme de “nosso” como se você soubesse quem sou, como se dividíssemos o que quer que seja e como se meu analista não fosse dar um tapa na minha testa na terça-feira), enchi carrinhos e carrinhos em lojas online de tecidos, só pra depois fechar a janela e deixar tudo lá. Fumando no portão (virei dessas vizinhas que fumam no portão – mas em minha defesa: eu não estava de roupão), ganhei um boa noite tão gentil e cheio de energia da moça que subia a rua com uma bebezinha, que dei até um sorriso sincero. Anotei, escolhi não anotar, repeti, não para elaborar, mas para chorar em paz.