Domingo-caderninho

Há aquelas anotações feitas na pressa, caneta de ponta grossa que, somadas à minha letra feia, em nada colaboram para o entendimento, sequências de palavras sem sentido, recados indecifráveis que falam de futuros (acho) obscuros (acho) e coisas dificílimas de resolver (acho). Há apontamentos que, olha, francamente. O povo sumério merece mais esforço de minha parte.

Diário de um mundo que acabou: um mundo de primogênitos

A minha mãe tá triste. A tristeza dela me quebra. Ela tá triste. Ela está muito triste. A tristeza dela me paralisa. Fico buscando coisas idiotas para fazer e falar, piadas tontas, presentes que se revelam perda de tempo e dinheiro, leituras das quais ela não quer saber, comidas nas quais ela nem toca. Tento ficar quieta e sumir, fazendo a gentileza de minhas ausências, mas daí ela reclama que eu sumi e me abraça e eu digo porra, mã, a quarentena, mas daí ela já me abraçou e azeite. Minha mãe está incansavelmente triste e isso é a coisa mais triste do mundo. A tristeza da minha mãe entra dentro da minha pele, afeta meus olhos e meu cabelo, transborda na minha xícara de café com leite, queima panelas de arroz, cala o cãozinho, interrompe o caminho natural dos rios, muda a mão das ruas, rola paralelepípedos, ressuscita os mortos, desaba os céus, a tristeza da minha mãe são todas as pragas egípcias desabando sobre um mesmo lar e é como se o mundo todo fosse feito de primogênitos. A tristeza da minha mãe deixa o bolo de laranja com um gosto estranho, esvazia extintores, assusta dragões adormecidos, mata aos poucos nossa flor de maio e deixa os gatos desnorteados. A minha mãe está triste e isso me deixa triste e me faz inútil, porque qual minha função, qual meu motivo se não fazer minha mãe feliz, prover a casa, financiar os modestos sonhos dela, mandar o uber buscar, mandar o vermelho e branco trazer, comprar o vestido azul, preparar o chá e o suco sem gelo? Minha mãe está triste e não tem frio, calor, ausência, filme alemão legendado em tupi-guarani, ópera que termina em sangue e desonra, raspas de limão, apito do guardinha da rua, voz da Monica Salmaso, copo de vidro vermelho, números antigos da PifPaf, gatinhos bebês da Telinha no Whatsapp, ricota defumada, travesseiro de macela. Minha mãe está triste e não existe mais coisa alguma.

Drops em Revista de Maio

“Dizer que carregamos nossos mortos não é uma acusação. Bem, não deveria ser. Deveria ser o reconhecimento de uma totalmente natural sequência da vida.

Sim, carregamos nossos mortos. Você e eu.

Aceitamos a morte dos nossos e os identificamos e lavamos e pesquisamos e cobrimos e vestimos e beijamos e os tomamos em nossos braços e jogamos flores em suas sepulturas e amorosamente os depositamos na terra ou no fogo. Sim, é isso o que fazemos. Depois, continuamos a carregá-los seja qual for nosso rumo, sejam quais forem os desafios que nos aguardam.”

Tá um primor essa revista!

https://dropsdafal.com.br/drops-em-revista/drops-em-revista-maio-2020/

Luto

Estamos muito tristes.
Rogério Quintana, marido da Biah Ramos, morreu esta manhã de um infarto, consequência do coronavirus.
Biah, querida, queremos hoje que o nosso amor te alcance, de alguma forma. Não temos a ilusão do consolo, mas queremos ser para você uma mão quentinha, um olhar amigo e gostaríamos de te aconchegar num abraço macio, confundindo os choros.
Onde você estiver, somos presença. Pois é o lugar onde gostaríamos de estar.

Fal e Suzi

Diário de um mundo que acabou – hoje não tem

Hoje não tem Diário de um mundo que acabou porque tenho que escrever um texto e acontece que sou monotarefa e só consigo fazer um por vez. Aliás, sou monotarefa na vida e só consigo fazer uma coisa de cada vez mesmo.

Aliás, no dia que tivermos mais intimidade e eu tiver derrubado umas duas garrafas de vinho – um bregétis nada difícil de acontecer – contarei a vocês uma das passagens mais engraçadas do meu casamento.

Por ora, fiquem com a visão de parte das minhas amadas prateleiras. Já teve visita aqui dizendo, com cara de nojo, “nossa, Fal, não sei como você consegue viver com isso” e eu nem botei na rua imediatamente, pra vocês verem como sou gentil. Mas o fato é que adoro as minhas prateleiras, especialmente essa parte delas, a visão que tenho quando estou na cama vendo séries ou sonhando de olhos abertos.

As suas costas macias

A morte de Aldir Blanc fala sobre você e sobre mim. A perda dele é minha, reconheço, é sua, ainda que você não queira reconhecer. Num país sitiado pela imbecilidade, pela negação, pela pulsão de morte, é compreensível que você não reconheça o quanto a sua vida é afetada com a perda de um Blanc. Cada vez que sofremos uma perda desta magnitude, nós nos aproximamos da miséria, da falta de sentido. Com apenas uma peça de sua imensa obra, Blanc contribuiu com a poesia, a beleza, a graça e humor do mundo de maneira que você e eu jamais seremos capazes em toda a nossa vida. Ele se foi. Parte fundamental de nós também. Ele se foi. Ele se foi e suas palavras e rimas e expressões geniais e capacidade de entender e não entender quem somos também se foi. Ele se foi, parte do meu coração se foi. Ele se foi. Ele se foi. Ele se foi.

Domingo-caderninho: eu lhe falei, certa vez, sobre a natureza das palavras

As pessoas me contratam porque não conseguem escrever. Querem escrever melhor. Querem escrever e não encontram o caminho. Querem escrever e querem um novo caminho. Pessoas me contratam, pagam minhas contas, os remédios da minha mãe, a ração do meu gatinho de vinte anos, “Fal, preciso escrever/quero escrever um livro, uma tese, uma carta de amor”, para que eu as ajude a encontrar um meato particular, suas próprias palavras, a mina de sua fonte pessoal. Ah, e eu as ajudo. Gosto de pensar que as ajudo. Eu as ajudo para que encontrem em suas próprias palavras, não as minhas. Suas próprias histórias, não as minhas. Para que descubram como dar voz à própria voz, por mais estranha que seja essa frase. Ajudo quem me procura e juntos encontramos a trilha para que sigam, primeiro comigo, depois sozinhos. Este é meu cotidiano há muito tempo. Agora, eu que faço da minha vida tomar os outros pela mão e acompanhá-los ao longo do sendero das palavras, não tenho conseguido encontrar meu carreador. As palavras têm me fugido, escapado, traído, recusado. Eu queria colocar a culpa em você. Queria dizer que sem você, sem palavras, sem ter o que dizer, sem tema, sem mote. Mas seria mentira, seria injustiça. As palavras não me vêm e a culpa é minha. As palavras não me veem e a culpa é de ninguém. Talvez tenham outros galhos para pousar. Talvez eu tenha usado a minha cota delas nessa vida, desperdiçado algumas, deixado que rolassem pelo balcão e, por isso, os privilégios me tenham sido tirados. Talvez as palavras, as minhas, voltem assobiando na próxima semana ou na outra, como quem não quer nada, colarinho sujo de batom, marmita debaixo do braço. Talvez. Um dia eu lhe disse que voltar para nós é da natureza das palavras. Falei para acalmá -lo, falei porque acreditava nisso, falei porque amo você quando não deveria e quero que você se sinta bem. Agora digo a mesma coisa a mim mesma e torço para ter razão.

Diário de um mundo que acabou: Guitarra, ossos, gargalhadas e louça combinando

Falo com a Cyntia ouvindo, lá no fundo, o Carlos tocar guitarra.

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Carlos nos deu a felicidade de algumas sessões ao vivo ao longo da pandemia. E ela canta e tudo neste mundo parece bem.

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Às vezes, no meio da conversa com o Renato, o Gi vem dar um oi e eu choro um pouquinho. Às vezes ouço o Gi gargalhando lá da sala enquanto lutamos com pronomes e, na hora de contar o que teve de bom no dia para minha mãe, é da risada do Gi que falo.

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Às vezes a Carol para o que estamos fazendo para me contar de pessoas que viveram há milênios, de peixes que estão em algum lugar, de flores que não existem mais e que, no entanto, espalharam outras flores por aí. Às vezes, a Carol me fala do que nunca pôde ser, do que foi e continua, do que inexiste e, mesmo assim, renasce nas páginas que ela produz.

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Às vezes penso em você. E admiro sua resolução em me manter o mais afastada que conseguir, seja me ignorando totalmente, seja me permitindo – de forma muito cruel, mas extremamente eficiente – pequenos e breves vislumbres do universo que não habito, das coisas que não faço, das aventuras que jamais dividiremos. Você é bom nisso, cada história, cada causo, cada comentário são afogamentos no seco. Guantánamo está contratando.

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Tenho cozinhado como se minha vida tivesse realmente mudado durante essa quarentena (fora o medo de que minha mãe morra, estamos na mesma). Tenho feito coisas lindas, com e sem molho, com e com vinho, com cremes deliciosos, queijos que transbordam, tomatinhos picados, pimentões de cores brilhantes. Depois me sento com o guardanapo no colo, como se comer de garfo e faca numa mesa arrumada, organizasse a vida. Talvez. Eu não sei.

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Meio viciada em giz de cera, nas cores granuladas, em como segurá-los para que o papel me obedeça.

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Arrumei o quintal, pendurei plantas, empilhei livros, fiz uma passarela pro Chico ir lá pro alto (a bebezinha também vai, ela adora um arzinho).  Ganhamos um freezer, adoramos, temos cadeiras e mesa e ficamos lá, duas senhoras muito gagás, tomando café em xícaras bonitas, sentindo o vento, brincando de casinha. Os vizinhos devem rir de nós, mas né, e daí.

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O Julio publica fotos da casa e das gatas e do mato e dos passeios e do céu, da forma como gosto de pensar que faria se pudesse fazer, se tivesse como, se tivesse feito as escolhas certas.

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Desenho muitíssimo agora que entendi que desenho para mim e que só eu mesma tenho de gostar (ou não) do que faço.

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Escuto Arturo Cardelús desesperadamente, porque cada acorde me faz lembrar de você. Ele me faz sofrer no meio da música e demora séculos para me dar qualquer alívio. Escuto Carfelús como se minha vida dependesse disso.

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Sigo entorpecida pela tristeza de me deparar com a ignorância orgulhosa, combativa, a ignorância que bate no peito e grita do alto do prédio mais alto “eu não quero mesmo saber, fodam-se os fatos”. Meu coração morre um pouquinho a cada vez, escolho não ler, não saber e, sinceramente, não testemunhar.

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Quando nada mais pode indicar a direção, a Andréa me encontra e me diz o que é preciso. Eu penso, ela aparece, é como uma mágica pequeninha para alguém que não acredita em mágica e que, portanto, nem mereceria essa gentileza.

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Estou a um passo de fazer uma fontinha pros meus gatos no quintal, mas a bendita borrachinha do compressor está no meio do meu caminho. Haveremos de resolver isso essa semana.

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Se bem que essa semana, inconformado com minha queda para transformar a vida no ferro-velho do seu João, um amigo rico mandou uma fontinha toda ela de plástico branco e laranja pros felinos que, claro, então loucos com a água-que-se-mexe-sozinha. Eles também ganharam duas casinhas de fazer xixi. As casinhas têm portinhas de vai-e-vem e isso irrita meus pobres gatos caipiras. Eles ainda não entenderam bem como a banda toca.

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Lendo e assistindo o que há de melhor no universo que me é permitido alcançar. Bebendo coisas boas também, por que o que mais há além?

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A Renata me manda fotos de canecas cheias de chá ou café, coisa que alegra demais meu coração. O café, as canecas, a Renata.

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Unhas roídas até que a carne se torne sangue, dedos que latejam, coração que dói, colo que coça coberto de placas de alergia, the same old same old. Você já viu esse filme e se mantém misericordiosamente afastado.