Diário de um mundo que acabou: ervilhas, genocídios e cadeados

Às vezes a pessoa é desnecessariamente grosseira para que você deixe de procurá-la, mas olha, não precisa. Mesmo. A dor dá conta demais desse recado. Você não precisa nem piscar, meu caro.

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Perdi alguém na semana passada. Querido. Amigo, inimigo, bom de briga, bom de cama, bom de dividir livro e projeto.
Perdemos alguém hoje, Maliu e eu. Querido. Jovem. Todo sarado. Feliz, apaixonado.

Perdemos, em menos de uma semana, dois alguéns para essa maldita pandemia que os bobos alegres de plantão minimizam aos gritos, berrando na av. Paulista e no meu ouvido, sendo completamente idiotas como, aliás, seu líder máximo.
Minha dor só não é maior do que meu ódio por esse governo homicida. E minha indignação com os que o apoiam, minha decepção e minha tristeza com essa gente, não cabem no peito.
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Assisti Leave No Trace (Sem rastros) e fiquei muito encantada com a história, com a fotografia, com a construção do relacionamento daquele pai, daquela filha, com a vida deles. E também tou aqui pensando que aquela comunidade no meio do nada, com aqueles bicho-grilos velhos, tocando violão sem afinação e vivendo cada um em sua cabaninha, seria a única comunidade de carne e osso da qual me encantaria participar.

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“Vocês não têm ideia da importância das…” “Vocês não sabem do…” “Vocês não têm noção do que é…”. É, lindão, não temos, você é mesmo o dono lacrador da realidade. Ilumine nossas pobres mente, imploramos.
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“O cadeado”, diz minha mãe, “tem duas chaves” e aí eu começo a rir e aí ela começa a rir, porque nós duas sabemos que vou perder as duas chaves.
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“Silenciar o perfil” é um gesto lindo que significa “quero continuar te amando apesar da sua afeição por genocidas”. As pessoas não me dão o devido valor.
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O Brasil me obriga a concordar com o Rodrigo Maia. Nem sei mais quem sou.
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A quarentena parece tanto com a minha vida normal que evito reclamar.
Meu medo do futuro por viver sob uma pandemia e sob um governo que não tem qualquer interesse em cuidar de mim, da minha saúde ou das minhas contas a pagar, somatiza-se numa alergia misteriosa que corrói minha pele nos antebraços e colo.
Meu sono, porém, minha velha e boa fuga, está cada dia mais profundo.

Morro a cada noite, renasço (mais ou menos) a cada manhã. Sonho com você na maior parte das madrugadas, apesar de todas as suas demonstrações de “Desapareça”. Como explicar seu nojo pro meu inconsciente?
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Maliu estava trocando os canais da tevê e caiu no sono, controle remoto em punho. A tevê num canal daqueles que tem gente em diferentes janelinhas cantando gritado. Deus me livre. Troquei pro canal do Bobigorén.
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Estou assistido tanta coisa boa, tanta, que vou voltar a fazer listas.
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Vizinhos em rodinhas, vizinhos em lambretas, vizinhos jogando vôlei no meio da rua. É o maravilhoso mundo da negação.
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Tenho feito tortas de cebola e queijo cada dia mais lindas e fofas. Não melhora em nada a vida do país, mas dá um alento enorme.
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Leio aqui que “o novo ministro da Saúde não vai participar do anúncio dos dados atualizados do novo coronavírus em Brasília”.
Como elegeram essa escrotidão de governo? Como?
Irresponsáveis.
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Não, gente, água tônica antártica não vai salvar a vida de ninguém.
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Quando a dinâmica se perde, a dinâmica se perde. As pessoas são boas e gentis (quando não estão em grupo) e tentam, mas a dinâmica se foi.

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Os minutos, miados, sachê de ração dum gatinho desdentado, os baldes de água com cândida, freelas, aulas, projetos, amigos, as perdas irreparáveis, fileirinhas de ervilha em lata, ovos fritos cenográficos, teorias da conspiração, copos de suco de uva, a imensa falta que sinto do que não fomos, panos de prato fervidos e quarados, potes de geleia, sprays de SBP, galhos de eucalipto, gotinhas de vapor, sanduíches de queijos, escritos do Allan, sustos petiticos e enormes, dorzinhas finas no meio do peito.

Os instantes de cada dia, de cada cor, da espera, do inevitável, do que é cruel e irrevogável.

Os dias aqui.

Neste mundo que, sim, acabou.

10 comentários em “Diário de um mundo que acabou: ervilhas, genocídios e cadeados”

  1. Ler depende tanto de como estamos com nosso emocional. Ou ao menos depende quando eu leio. Na época em que você publicou esse texto era praticamente o início da quarentena. A pandemia não estava exercendo efeitos tão nefastos em mim. Acho que eu sentia mais raiva que tudo. Na época eu me fixei mais nas partes em que você comentava sobre a pandemia. Passados três meses estou tão desmanchada por dentro, desesperançada, que agora o que mais me emocionou foram as outras partes. Pois preciso de ar fresco para voltar a respirar e está difícil encontrar onde. Obrigada pela sombra e água fresca. Bjs

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  2. Eu tenho dito isso, sabe, que o meu mundo acabou e eu, irrefletidamente, perdi o bonde e acabei ficando. Eu tenho sentido muita raiva e eu não sei quem é essa pessoa que sente tanta raiva porque quem eu era não sentia assim, então não só meu mundo acabou como eu também me perdi no caminho, mas ainda acordo, cozinho mal, cozinho bem, choro, mando mensagens e abraços pras pessoas que não sabem que eu já não estou aqui, escrevo um projeto de curso pra pessoas que talvez nem estejam vivas, você falou da sua somatização, eu dei perda total, sabe que minhas obturações estão caindo, minha rosácea papocou geral, tenho dores em lugares do corpo que eu nem sabia que podiam doer, ligo a tv e deixo nos episódios repetidos de criminal minds ou csi porque nem assistir algo novo e bom eu consigo.

    uma das poucas coisas boas e sãs são os blogs, como o seu, eu não queria vir aqui e fazer isso, derramar amargura e reclamar de tudo. desculpa, sua linda.

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