Resmungos matinais sobre solidão, vida, caras que a Maliu ama e goiabada com queijo

Lembro demais dum livro da Danuza Leão (sei que não pode mais gostar dela, mas eu gosto por um monte de motivos), em que ela conta que estava com obra em casa e acabaram os sacos de entulho. Ela ia indo comprar, o pedreiro deu bronca nela “que é isso, dona Danuza, a senhora vai assim? E se o amor da sua vida estiver no depósito de material de construção?” (mais ou menos isso). Amo essa história – os malas vão dizer que se for mesmo o amor da sua vida, ele vai reconhecer você até com aquela camiseta furada da campanha do seu primo a vereador dos anos 1990, mas né, defenderei para sempre que o amor da sua vida reconhece você mais rápido e mais fácil se você estiver de camisa de florzinha e brinco bonito.

Minha mãe ama aí um filósofo-educador-escritor-cabeça-pensante desde sempre. Trudia ele me aparece na capa dum caderno de cultura: o mano é hippie. Claro que o mano é hippie. Tive um frouxo de riso, porque eu já deveria saber, se a minha mãe adora, o cara é hippie de doer. Senti uma imensa, imensa falta de ter pra quem contar isso. Entende? De poder ligar e dizer “checa na Ilustrada a figura que Maliu ama!”, e do outro lado ter alguém que também tremelique de rir e comente “Ê, Maliu é chegada num bicho grilo!”. Sinto imensa falta de Alexandre o tempo todo, mas nessas horas chega a doer. E faz nove anos que ele morreu, eu não deveria andar por aí me sacudindo de saudade. 

Há algum tempo, um cara me atacou forte, covarde e malvadamente por eu ser só. A única coisa que ele tinha contra mim era minha solidão. Ele me magoou me atacando no que eu não posso ou não vejo como resolver (e como dá pra perceber, pegou no nervo, porque ainda penso nisso). Como conjurar a pessoa sob medida pra ligar e falar sobre o crush de Maliu? A gente procura, mas só até a página dois, daí pra frente, é Ganesha no comando (pra continuar na vibe maliniana).

Na noite em que a morte do Alexandre fez nove anos, vaguei pela casa sem trabalhar e sem conseguir ler nada (foi trudia, faz nem uma semana). Não tinha para quem ligar. Subi e desci minha lista magrinha de contatos telefônicos e me dei conta: não tenho para quem ligar e choramingar sobre uma coisa dessas. Para que amigo posso ligar e dizer que o meu peito parece incendiado, que o mundo parece escondido atrás de um véu? Não se faz uma coisa dessas com os outros, não se joga essa responsabilidade em um só par de ombros. Botei um par de meias de lã, apesar do calor, jantei goiabada com queijo, entrei no tumblr da minha amiga Luciana e fiquei lá, do fim para o começo (é assim que os tumblrs funcionam), namorando cada foto de cidade, de ator de cinema fumando, de comida, de fonte, de mãos enlaçadas, de caneca de café e de mais comida (Luciana e eu temos muito em comum).

Não sei se me consolou, mas me aplacou a dor. Eu me deitei, dormi e sonhei com as ruas de Lisboa, os pães da Lu, a risada dela, as mil formas que temos para viver, a única forma como podemos morrer.

Setembro de 2016

2 comentários em “”

  1. Pra que amigo você pide ligar a qualquer hora do dia ou da noite pra dizer que o coração tá apertado e falar do Alexandre?
    PRA MIM!
    Oras…

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