Verbo que odiamos, uma batedeira amarela e o dateninha que vive em nós

Odeio pouca coisa como odeio essa moda de usar o verbo focar, e se formos levar em conta a quantidade abissal de coisas que odeio, dá pra perceber que o caso é grave. Quando Deus me dá a graça de copidescar uma tradução ou preparar um original, saio pelo mundo baixando a caneta em todas as porras de focar e suas variações abjetas. Se não estiver ligado a foco, ajuste de imagem, roda. Quem usa focar quando deveria usar concentrar vai pro inferno na biblinha minha.

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O fauvismo foi breve, intenso, colorido, cheio de energia, acreditava profundamente em si mesmo, foi corajoso (quase temerário), durão e desbocado, foi definitivo e só durou dois anos. Um exemplo para todos nós.

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A falta de perspectivas gerais, continentais, Estatais e pessoais, vem me transformando numa pessoa mais melancólica do que mais de quatro décadas e meia de água, pasta de dente sabor menta e enlatados americanos conseguiram. 

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Faz mais de um ano que roo as unhas sem parar. Um ano, ininterruptamente. Tive recaídas (muitas) ao longo dessas décadas, mas nunca assim, sem parar, sangue escorrendo dos cantos dos dedos. Esse ano estou de parabéns. 

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A bagunça mental também vem aumentando. Recados transmitidos para a pessoa errada, papéis sumidos, caminhos esquecidos, canecas de café com leite olvidadas e largadas sobre o aparador. Demoro três episódios para me dar conta de que, sim, já vi essa série. Além disso, prosperam os angustiantes dois ou três segundos em que entro em estado de suspensão olhando para o rosto do interlocutor (seja ele quem for), tentando desesperadamente me lembrar do nome dele. Amigos antigos, parentes, o cara que sempre me atende na cafeteria, não sei o nome de ninguém. Vou vasculhando gavetas escancaradas, velhas pilhas de papel amarelado, arquivos de metal descasquento equilibrados sobre calços suspeitos, pastas de papelão comido por traças: em que canto miserável do meu cérebro – a repartição de alguma republiqueta esquecida em meados dos anos 1930 – se escondeu a ficha desse porra que está aqui na minha frente? Como é o nome desse cara? Sei que os ativistas em geral, os bonzinhos em particular e todos os chatos sensíveis do planeta ficam magoadinhos ou putinhos quando chamados de “meu bem”, “florzinha”, “queridão” e “camarada”, mas creia, fofito, no meu caso não é condescendência, no meu caso é porque EU NÃO SEI A CARALHA DO SEU NOME.

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Cozinho há tanto tempo que, quando me pedem a receita de alguma coisa, fico muito envergonhada em dizer que não sigo receita desde nunca, que cozinhava com minha avó em sua cozinha branca e vermelha, bancos de madeira presos à parece, mesa de fórmica legítima, pia e fogão só alcançados quando descíamos um degrau, louça marinex fumê, batedeira amarela, incontáveis bolos de quinze anos e de casamentos decorados com glacê de manteiga tingido na tigela, rosinha por rosinha, folhinha por folhinha, arabesco por arabesco. Aprendi a cozinhar assim, nunca deixei de cozinhar assim. A filosofia da minha avó era “vamos tentar”, e nós tentávamos, comíamos e ela dizia “no próximo vamos colocar mais um copo de leite” ou “menos farinha” ou “mais baunilha” e a vida seguia, tentativa e erro (os erros sempre meus, a velha nunca errava, a comida dela rivalizava com a de qualquer chef, era muito impressionante. As pessoas que têm um chamado quase sempre são). Amo livros de receita (especialmente os que têm histórias e mais ainda os que juntam viagem e comida, ou contam a história da comida e seus caminhos), mas não sigo receitas, nunca, nunca. Não aprendi a cozinhar assim. Não vamos falar sobre os buracos imensos da minha educação. Não hoje.

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E essa nossa mania de pedir foto pra cada coisa que os outros dizem? Não sei se é um hábito tolo do tempo fútil e vão em que vivemos (quando descobrir um tempo que não seja fútil e vão me avise), mas me soa sempre como desconfiança: não acredito no que você está dizendo, prove com imagens. Nós nos transformamos nuns datenas, com tudo o que isso implica.

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Um velho amigo voltou recentemente à minha vida, e parte do humor, da graça e da bondade dele me faz lembrar de tudo que eu deveria ter sido e feito e realizado e conseguido. Velhos amigos são coisas boas, velhos amigos são coisas terríveis.

Mas alguém que amo está feliz com a volta dele e isso me basta.

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A música dos anos 1980 tem cuidado da minha vida, e quanto mais trash, melhor. Basicamente, é o que nos resta. Bem, é o que me resta..

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