Joquenpô – plástico ou papel

por Tatiana Yazbeck

Sou da época em que as compras da casa vinham em sacos de papel pardo, relativamente grosso, de tamanhos variados. O pequeno, onde cabia, por exemplo, uma lata de leite condensado ou achocolatado, o médio, onde já era possível colocar uns três ou quatro itens um pouco maiores e, finalmente, o grande. Existiam também as sacolas de papel que não eram encontradas em qualquer mercado, só nas grandes redes, tipo “Disco”, lembram? – que não aguentavam quase nenhum peso.

Lembro que nunca íamos sozinhos ao mercado. Precisávamos de muitas mãos disponíveis para carregar as embalagens. Algumas vezes, no trajeto para casa, o papel ficava úmido, por conta de algum produto refrigerado – reparem, eu não disse congelado, disse refrigerado. Congelada, no meu tempo, nem a carne – e com isso, chegávamos com as mãos frias, a encomenda ameaçando cair no chão, o saco se desfazendo pela umidade. Um caos.

Outras vezes, o saco não aguentava o peso e rasgava antes que chegássemos ao nosso destino. Já catei muito pacote de macarrão na rua enquanto os vizinhos riam de mim.

Tínhamos outras opções. Para as compras do mês, caixas de plástico duro, do próprio mercado, que entregava os pedidos, mediante pagamento de taxa. Ou então, o queridinho das donas de casa, o carrinho de compras. Feito de aço, com duas rodinhas, não havia ninguém nos arredores que não possuísse um modelo. O da minha casa era dourado com rodas azuis e servia tanto ao mercado, quanto à quitanda e também à feira livre. Aliás, eu amava ir à feira! Quando criança, ia sempre com minha avó. Lá, nos encontrávamos com as amigas dela e ficávamos sabendo de todas as fofocas do bairro. Mortes, separações, nascimentos, nada passava em branco. Comíamos churrasquinho e pastel. Pastel de feira, minha gente, com ou sem quarentena, é uma ótima pedida. Já na adolescência, comecei a paquerar um menino que morava na rua da feira e praticamente implorava pra vovó ir comigo até lá, para comprar, nem que fosse uma cartela de ovos. Mas isso fica para outra crônica.

Alguns anos depois, os sacos de papel foram sendo substituídos pelas sacolas de plástico e todos nós ficamos enlouquecidos com a praticidade que a novidade proporcionou. Já podíamos ir ao mercado sozinhos. Desde o início percebi que, quando em maior quantidade, as alças das danadinhas machucavam meus dedos, deixando marcas vermelhas e doloridas. Mesmo com uma gerigonça de plástico que servia para transformar o emaranhado de pequenas alças em uma só, nunca me senti cem por cento confortável. Eventualmente, o plástico rasgava também.

Quanto ao meio ambiente, não me lembro de ninguém, mas ninguém mesmo, ter mencionado que o material plástico iria causar problemas para o ecossistema. Agora, adulta, eu me pergunto: será que ninguém sabia dos riscos? Do impacto que causaria ao meio ambiente?

Há, porém, uma atmosfera vintage no ar. Pequenos e médios produtores estão migrando do plástico para o papel em suas embalagens. As pessoas ressuscitaram o uso dos carrinhos, cuja versão moderna se parece com uma enorme mochila de rodas. Além disso, muitos estabelecimentos deixam caixas de papelão à disposição dos clientes. Sacolas de plástico biodegradável, que levam em média seis meses para se decompor, já vem sendo usadas por grandes redes de supermercado. As ecobags viraram objeto de desejo.

Precisamos ainda pensar num substituto para o uso das sacolinhas no descarte do lixo, mas como tudo é uma questão de hábito, é possível que o brasileiro vá se readequando ao uso de alternativas menos danosas ao meio ambiente quando sai para fazer compras.

Tatiana Yazbeck é psicóloga, jornalista e está enlouquecida com a quarentena, mas não ao ponto de lavar e pendurar sacolas plásticas no varal. Ainda.

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