Abra suas asas

por Lucas Pedroso

Quando me pediram para criar um drink que representasse minhas impressões sobre os anos 1970, fiquei bastante inseguro. Como homenagear um período que eu não vivi? Certamente vou acabar me agarrando aos lugares comuns. Aliás, o simples ato de escrever algumas linhas sobre essa década beira a prepotência, e sei que vou ficar com a impressão de que escrevi um texto episódico e óbvio, como uma redação de um adolescente pouco inspirado em uma sala de aula. 

Fiquei um pouco mais otimista quando me dei conta de que mesmo as lembranças dos anos que vivi são todas retratadas na minha mente com cores fortes e pinceladas apaixonadas. Provavelmente me esqueci de fatos importantes que presenciei e atribuo relevância quase fanática a detalhes insignificantes que, no final das contas, compõem os quadros na parede da memória.

Em resumo, representar uma década, mesmo pra quem a viveu, é uma tarefa que nasce incompleta, pois nossos olhos têm lentes distorcidas e nossa memória nos trai de acordo com o que o coração sugere.

Mas tanto li, dancei, assisti e ouvi sobre os anos 1970 que é como se eu tivesse presenciado tudo. É um grande baú de sentimentos e sensações que eu vivi mesmo sem ter conhecido. Ou que eu conheci mesmo sem ter vivido, não sei ao certo.

Se escrever é se expor, elaborar um drink não é diferente, acreditem. Sei que exagero um pouco ao escrever isso, mas o fato é que a receita acaba sendo fruto tanto do autor quanto de seu tempo. Já adianto que criei duas receitas para escolher a melhor e acabei me apegando a ambas. Isso já mostra algumas características minhas, como a precaução e a indecisão. Os ingredientes que consegui comprar e mesmo os adereços usados nas fotos foram adaptados para a realidade que enfrentamos de isolamento social, como se 2020 quisesse se impor sobre 1970. Tentei não permitir e é claro que, em parte, falhei. Acrescento que, se o cenário político atual remonta a fatos aterradores da década homenageada, cabe a nós buscarmos na mesma década as diversas referências de alegria, resistência, tolerância e liberdade.

Mas voltemos à minha influência sobre o que eu mesmo criei (pensando agora, não havia como ser diferente, não é mesmo?). Um dos drinks devia ter sido feito com vodca, mas usei gin. Não se bebia muito gin nos anos 1970, a bebida saiu recentemente do ostracismo após um longo período. É que, bem, eu adoro gin. Não haveria como não usá-lo. E vodca não tem gosto de nada, só de álcool (porém não se enganem, bebo drinks de vodca muito feliz).

Esse drink de que falo é uma releitura do Hi-fi. Isso mesmo, a famosa mistura de Fanta laranja com vodca. Era combinação obrigatória em festas dos anos 1970, e me lembro de minhas tias comentando saudosas de quando tomavam alguns copos e dançavam e paqueravam a noite toda. Confesso que eu achei por muitos anos que o nome da bebida era High Five, motivo pelo qual esse será o nome da minha versão. Eu podia ter escolhido algo homenageando a Cuba Libre, também bastante apreciada. Como um drink que tem Cuba no nome leva o refrigerante símbolo do capitalismo? Aí está algo que sempre me intrigou. Mas não foi isso que me fez escolher outro caminho, e sim o fato de que a receita deixa, penso eu, pouco espaço para a criatividade. O outro drink, que nomeei Frenético, lembra um ponche de frutas, também muito popular à época, e o concebi de modo que visualmente remetesse às cores de um globo de discoteca. Ficou delicioso. O gelo vai derretendo e o drink vai ficando cada vez melhor conforme o tempo passa. Como os próprios anos 1970.

High Five

Esprema frutas cítricas de sua preferência. Usei uma laranja Bahia, uma laranja pera, uma tangerina e um limão siciliano. É o que tinha em casa. Meça o suco e ferva brevemente com o mesmo volume de açúcar. Coloquei também um pedaço de gengibre, que eu adoro. Especiarias certamente trariam nuances interessantes de sabor. Quase coloquei um anis estrelado, mas descobri a tempo que só em 1982 a Rita Lee chupava drops de anis no escurinho do cinema, então a referência perdeu sentido e eu desisti. Voltemos à receita. Espere esfriar um pouco e bata no liquidificador por 1 minuto com as raspas das frutas alaranjadas. Coe bem e guarde em uma garrafa na geladeira. Esse xarope conserva-se bem por aproximadamente um mês e pode ser usado para fazer soda italiana ou adoçar chá. Tenho sempre algum xarope de fruta guardado. Admito que acrescentei um pouco de xarope artesanal de framboesa ao de laranja, mas só porque eu tinha na geladeira e achei ajudaria na coloração sem alterar o sabor. Totalmente estético e dispensável. Num copo alto com gelo, despeje 45ml de xarope de laranja, 60ml de gin e um dash de Angostura. Complete com água com gás e misture levemente com uma bailarina.

Frenético

Faça gelos coloridos saborizados com frutas. Há vários modos possíveis de se fazer isso, por exemplo simplesmente batendo as frutas com água e açúcar no liquidificador. Eu escolhi ferver as frutas com água e açúcar e depois coar. Isso deixa as cores mais vivas e, espero eu, ajuda na conservação. Os gelos podem ser dos sabores que se preferir, os da foto são: morango com framboesa (que eu tinha no freezer), laranja Bahia, abacaxi com laranja pera e gengibre, kiwi com limão posteriormente batido com (muita) hortelã. Para a montagem, complete um copo alto com gelos saborizados, despeje 60ml de rum, um dash de bitter de laranja e complete com água tônica. Mexa suavemente com uma bailarina e sirva. Saúde!

Fotos de Fernando Passarini

Lucas Pedroso é doutor em Matemática Aplicada. Não que importe, mas é a isso que se resume seu currículo. De típica personalidade taurina, não acredita em signos. Consegue discorrer sobre qualquer assunto por não mais do que três minutos.

2 comentários em “Abra suas asas”

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