Black-tie, privacidade e um universo confinado

por Cyntia Menezes

Foto de Nestor Morales

No primeiro ato de “Eles não usam black tie”, Guarnieri assim descreve a cena: “Barraco de Romana. Mesa ao centro. Um pequeno fogareiro, cômoda, caixotes servem de bancos. Há apenas uma cadeira. Dois colchões onde dormem Chiquinho e Tião.” No filme, onde o roteiro permite outros espaços, vemos que Maria divide um pequeno quarto com o irmão. Há pouca privacidade no universo de Black-Tie.

Diz-se que o anseio humano pela privacidade tem várias origens. Vergonha, medo, identidade. Se Adão e Eva cobrem a sua nudez por vergonha, pedem a Deus uma privacidade que até aquele momento era irrelevante, talvez até inexistente. Talvez tenha nascido aí, na nossa caída do paraíso, a ideia de que há algumas coisas que são melhores quando escondidas. Cobrimos nossos corpos não apenas para nos proteger do frio, do calor, do sol ou do vento. Cobrimos principalmente a nossa nudez, ou as nossas vergonhas, no linguajar antigo das bisavós. Cobrimos, finalmente, o nosso desejo e o desejo do outro.

E se o primeiro julgamento vem de Deus, o segundo vem de nós mesmos. Julgamos os nossos corpos e os alheios, e aceitamos mostrar apenas o que consideramos belo. E ainda assim, uma modéstia nascida da vergonha nos faz relutar em aceitar até mesmo os elogios: escondemos nossa alegria em um rubor do rosto e um sorriso sem graça, talvez até mesmo em uma bronca – como faz Maria quando se despe diante de Bié, e ele diz que ela está ficando boa. Não podemos mostrar o feio por feio, mas tampouco podemos mostrar o bonito: nos dá vergonha sabermo-nos belos, e por não aceitarmos a eventual beleza evidente, limitamos nossa capacidade de perceber o belo invisível. A vergonha da beleza natural dos corpos nos limita. E chamamos de privacidade a nossa vergonha. E quem tem corpo, tem vergonha.

Mais adiante na história criada e filmada por Guarnieri, Tião e um amigo discutem uma divergência política em vozes baixas e corpos curvados sobre a pequena mesa de boteco. Aqui a privacidade é limitada pelo espaço público: um bar. E se antes a necessidade do espaço privado nascia da vergonha dos corpos, agora nasce do medo. Não apenas do medo de divergir, mas do medo de assumir mesmo uma opinião própria. Há sempre alguém à espreita, de um lado ou de outro, impondo um limite ao nosso pensar.

Para nos mantermos no universo de Black-Tie, Tião é contra uma greve. Não apenas contra a greve, mas pretende ativamente colaborar para que ela fracasse. Do outro lado, seu pai é membro do sindicato e um dos que estará a favor quando os braços se cruzarem. Tião tem medo de colaborar com os chefes e medo de contrariar o pai. Tião tem medo porque vai ter um filho, porque prometeu a si mesmo dar uma vida melhor para Maria e para o rebento, porque é mais jovem e, portanto, mais cínico que o pai. Tião tem medo, principalmente, da pobreza, dos barracos em que está destinado a viver, dos poucos cômodos compartilhados. Tião tem medo de passar a vida nesta quase total ausência da privacidade que cobre as nossas vergonhas e aplaca os nossos medos. E o medo pede a privacidade dos pensamentos, opiniões e decisões. Tião conversa em privado e decide em segredo. Nem mesmo seu pai, com quem divide o barraco, nem mesmo o seu irmão, com quem divide o cômodo, sabem de sua decisão. Nem mesmo Maria. Tião tem medo, e o medo pede segredo. E um segredo pede privacidade. O medo dos nossos segredos nos limita. E chamamos o medo de privacidade. E quem tem segredo, tem medo.

No filme, vemos cenas na fábrica onde trabalham quase todas as personagens. Chegam todos juntos no mesmo horário, trocam de roupa no vestiário coletivo, usam o mesmo macacão azul. Na hora do almoço, todos juntos na cafeteria da fábrica, todos comem a mesma comida nas coletivas mesas iguais, nos seus idênticos macacões azuis. A tomada de longe do ambiente dá uma impressão de presídio. Talvez fosse esta a intenção de Guarnieri.

Mas um presídio não marca só pela ausência de liberdade. Um presídio é também uma ausência de identidade. Vestimentas iguais, comidas iguais, espaços iguais. Não há possibilidade de escolha, e sem escolha não há identidade. Nos identificamos pelas nossas escolhas internas e externas. Nossas comidas, nossa forma de viver, nossas roupas, nossos gostos. Tudo é parte de uma identidade criada por pensamentos e escolhas privadas, ainda que inconscientes. Não preciso ser consciente de uma escolha ou das razões para tal escolha, para que ela exista, e para que ela me defina em uma identidade.

Quando de nós é retirada a escolha, abrimos mão da identidade que decidimos por nós mesmos na privacidade do nosso existir. Penso, logo, existo. Penso, logo, escolho. A ausência de escolha nos limita. E chamamos nossa identidade de privacidade. E quem pode escolher, pode ter identidade.

Já hoje distante do universo de Guarnieri nos anos 1970, nossa crise da privacidade é outra. Já não temos tanta vergonha, nem dos nossos corpos, nem da nossa nudez, nem dos nossos desejos. Já nos acostumamos às câmeras constantes: às vezes até reclamamos um pouco e fingimos alguma indignação, mas na verdade ninguém mais se importa em ser filmado ou fotografado todo o tempo. Na verdade, fazemos isso voluntariamente, e colocamos em redes sociais esperando ansiosamente que mais gente nos veja e mais gente coloque um coraçãozinho na nossa foto. Nossa vergonha, agora, parece de outra natureza: a vergonha de ter pouca gente invadindo a nossa privacidade. O pouco de nudez que Maria se incomoda de mostrar para o irmão é hoje moeda corrente no Instagram.

Também o medo dos nossos segredos foi sendo, pouco a pouco, manipulado e transformado em outro medo. O que nos resta de medo de ter nossas opiniões e pensamentos monitorados, vai sendo pouco a pouco diluído pelo medo do terrorismo, da violência e, agora, da doença. Já quase temos a sensação de que é preciso, necessário até, permitir que o estado e o meu vizinho monitorem os meus movimentos, as minhas opiniões e as minhas escolhas, para garantir, vejam vocês, a minha própria segurança e saúde. Fomos pouco a pouco aceitando pequenas erosões dos espaços físicos e psíquicos, porque parece que há sempre um mal maior a ser combatido. Que este mal maior eventualmente seja a privacidade em si parece nos escapar.

Não poucas vezes ouvi no próprio universo acadêmico que hoje me cerca, variações surpreendentes do bom e velho “quem não deve, não teme”, no que me parece um desvio do próprio conceito de privacidade. Estamos equalizando a privacidade com a necessidade de esconder algo que é necessariamente mau, errado, até mesmo ilegal. E que, portanto, somente alguém mal-intencionado ou criminoso teria necessidade de privacidade. E nesta simplificação infantil das nossas vidas, nos esquecemos que todos vivemos experiências que eventualmente são melhores quando vividas em privado, talvez até mesmo em segredo. Às vezes amamos em segredo, e desamamos também em segredo. Ficamos tristes e doentes, e às vezes a melhor maneira de lidar com isso é na privacidade dos nossos sentimentos. Há também, às vezes, momentos de infinita alegria e felicidade que, por serem tão especiais e delicados, só sobrevivem quando experimentados a sós, quando vividos intensamente por dentro, sem palavras, textos, fotos ou vídeos. Sem qualquer interferência externa neste espaço tão raro da plenitude da vida. Transformamos a nossa vida em um grande big brother voluntário e esquecemos que nós, humanos, somos mais, muito mais, do que este teatro de intimidade forçada que nos venderam como um “show de realidade”.

Porque agora, enquanto escrevo este texto, e enquanto estamos confinados em nossas casas, e os espaços públicos foram radicalmente diminuídos, nos damos conta de que este big brother não nos alimenta como indivíduos. Não importa quantas fotos e pensamentos compartilhemos nas redes sociais, ainda nos faltam abraços. Não importa quantas receitas novas inventemos na cozinha, nos faltam as escolhas diárias que nos definem. Construímos uma nova identidade em confinamento, uma privacidade ao mesmo tempo devastada pela doença, mas recriada pelo isolamento. Nunca estivemos tão próximos dos nossos pensamentos. Nunca estivemos tão conscientes da nossa identidade, ou da falta dela. Nunca a nossa superexposição virtual nos pareceu tão banal e sem sentido.

Confrontados com um mundo onde tudo parecia compartilhado o tempo inteiro, e onde a privacidade parecia uma palavra distante em algum regulamento esquisito, nos demos conta: ainda temos vergonha, ainda temos medo, e ainda temos, incrivelmente, identidade.

Cyntia Menezes é brasileira, advogada, eterna estudante, candidata a blogueirinha e cantora de quarentena. Atualmente mora em Barcelona e tenta inutilmente concluir um Doutorado em cibercriminalidade e Inteligência Artificial. Quando sair do confinamento, irá à praia.

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